Capítulo 5 Café
Ambra continuou sentada muito depois de o café ter esfriado.
A mesa ainda estava posta. A travessa de frutas intacta, a xícara do pai com a borra escura no fundo, o guardanapo de linho de Diana dobrado com perfeição ao lado do prato. Tudo seguia exatamente igual, e era isso que a enlouquecia. Como o mundo podia continuar cotidiano quando o seu tinha acabado de ser arrancado das mãos?
Três meses. Vincenzo.
Ela repetia o nome como se pudesse extrair dele algum significado. Vincenzo. Não tinha rosto, não tinha voz, não tinha idade. Era apenas uma palavra que seu pai jogara sobre ela e que agora pesava como chumbo. Tentava imaginar como seriam as mãos dele, o cheiro, o jeito de falar. Tentava imaginar acordar ao lado de um estranho pelo resto da vida, dividir uma casa, uma cama, um sobrenome que já não seria mais seu. Cada tentativa terminava em um branco, em um abismo. O desconhecido não era romântico. Era violento. Era ser empurrada para dentro de um túnel escuro sem saber se havia saída do outro lado, apenas sabendo que não poderia voltar.
A luz forte da manhã que entrava pela janela, que deveria ser bonita, a fazia se sentir exposta. Como se não houvesse mais sombra onde se esconder.
Foi o barulho de um carro no cascalho lá fora que a tirou do transe. Depois, a voz aguda de Diana no hall, em um tom que Ambra raramente ouvia. Doce. Quase afetuoso.
— Alessa! Chegou tão cedo!
Ambra levantou a cabeça.
Alessa.
A outra filha de Diana. A mais velha. A única daquela casa que nunca tinha encontrado prazer em machucá-la. Ambra não a via desde que embarcou para a Suíça. Na época, Alessa tinha dezesseis anos e já era prometida. Agora, um ano casada com um homem quinze anos mais velho, em um acordo entre famílias, ela entrava na sala de café com uma barriga de seis meses redonda sob um vestido leve de algodão, o rosto mais cheio, o cabelo preso de qualquer jeito.
Estava diferente. Não só pelo corpo. Havia uma calma nela que Ambra não reconheceu de imediato. Uma serenidade que contrastava brutalmente com a tensão que Bianca carregava como armadura.
Alessa parou ao vê-la. Os olhos se encheram de lágrimas de verdade.
— Ambra.
Foi só isso. E bastou.
— Olá, Alessa — respondeu Ambra, a voz falhando pela primeira vez naquela manhã. — Quanto tempo.
O abraço foi breve, desajeitado por causa da barriga, mas foi o primeiro gesto honesto que Ambra recebia desde que voltara. Sentiu o perfume suave da irmã, sentiu a barriga dura encostar na sua, e algo dentro dela, que estava rígido há anos, cedeu um pouco.
Diana observava a cena da porta, com um sorriso que não escondia o cálculo. Bianca apareceu logo atrás, cruzou os braços e revirou os olhos.
— Vou deixar vocês com esse momento de novela — disse Bianca. — Tenho mais o que fazer.
Só quando ficaram a sós na saleta ao lado, com duas xícaras de chá que nenhuma das duas tocou, é que Ambra conseguiu realmente olhar para a irmã. Alessa estava radiante, de um jeito cansado e real. Passava a mão sobre a barriga em círculos distraídos, um gesto instintivo.
— Eu soube da festa — disse Alessa, baixinho. — E soube de hoje de manhã. A mamãe me contou.
Ambra desviou o olhar para a janela. A vergonha voltou, quente.
— Então você já sabe que fui vendida.
— Não fala assim.
— É o que é, Alessa.
Um silêncio curto se instalou. Alessa não tentou corrigi-la com frases feitas. Apenas a observou com aquela nova paciência que parecia ter aprendido.
— Você quer perguntar — disse Alessa, por fim.
Ambra arregalou os olhos.
— Como você sabe?
— Porque eu passei exatamente por isso há um ano. — Alessa deu um sorriso pequeno, triste e cúmplice. — Eu sentei nessa mesma saleta, com essa mesma cara de quem levou um soco, e pensei que minha vida tinha acabado. Então pergunta, Ambra. O que você quer saber?
A permissão quebrou a última barreira. As perguntas que Ambra vinha engolindo desde o café da manhã saíram todas de uma vez, atropeladas, em um sussurro ansioso.
— Como ele é? Como foi no começo? Você... você se sente feliz com ele? De verdade?
Alessa suspirou fundo e olhou para a própria barriga, como se buscasse a resposta ali.
— Ele é um homem bom — respondeu, com uma honestidade que desarmou Ambra. — É mais velho, sim. Quinze anos. No começo eu tinha pavor. Não vou mentir. Na primeira noite eu chorei até dormir. Ele não me tocou. Sentou na poltrona do quarto e me deixou chorar. No dia seguinte me trouxe café na cama.
Ela fez uma pausa e continuou, a voz mais suave.
— Ele é paciente. Compreensivo de um jeito que eu não esperava de um homem da nossa família. Ele não me pede para ser inteligente, nem divertida, nem nada. Ele só me pede para ser sincera. E isso... isso me deu espaço para respirar. Para gostar dele. Não é o amor que a gente lê nos livros. É outra coisa. Mais calma. Mais segura.
— E você é feliz? — insistiu Ambra, precisando ouvir de novo.
— Sou — disse Alessa, e dessa vez olhou nos olhos da irmã. — Sou feliz, Ambra. Não do jeito que eu sonhei quando era menina, mas sou feliz do jeito que é possível ser para nós. E estou esperando minha filha. Isso muda tudo.
Ambra sentiu um nó subir pela garganta. Havia inveja ali, sim. Uma inveja doída da paz que via no rosto da irmã. Havia curiosidade. E, pela primeira vez desde o anúncio do pai, uma fagulha minúscula e teimosa de esperança. Não que Vincenzo fosse um homem bom. Mas de que talvez, mesmo em uma gaiola arranjada, ainda fosse possível encontrar um canto onde o ar entrasse.
Ela segurou a mão de Alessa sobre a mesa. As duas mãos, tão parecidas e com destinos tão iguais, entrelaçadas sobre a toalha de linho.
— Obrigada — sussurrou Ambra.
Alessa apertou de volta.
— Vai ficar tudo bem. De um jeito torto, mas vai.
