Capítulo 6 Hoje

O alívio que as palavras de Alessa trouxeram durou pouco. Foi como beber água gelada com a garganta em carne viva. Aliviou por um segundo e depois ardeu ainda mais.

Ambra ficou olhando para a irmã, para a maneira como ela descansava a mão sobre a barriga com uma naturalidade que parecia herdada de outra vida, e a esperança que tinha sentido há pouco se misturou a uma ansiedade nova, mais pontiaguda.

— Alessa — chamou, a voz baixa, quase infantil. — Você conhece meu futuro marido?

Alessa interrompeu o movimento da xícara no meio do caminho até a boca. Segurou a porcelana com as duas mãos, como se precisasse se aquecer.

— Sim — respondeu, depois de um gole pequeno. — Conheço.

O coração de Ambra disparou. Era a primeira pessoa que não falava dele como de um contrato. Era alguém que o tinha visto.

— Como ele é? — insistiu, inclinando-se para frente, incapaz de esconder o tremor nas mãos.

Alessa hesitou. Não foi uma hesitação rápida, de quem procura uma palavra bonita. Foi longa, pesada, de quem mede o estrago que a verdade pode causar. Ela pousou a xícara no pires com um cuidado excessivo.

— Ele é... exótico — disse por fim, escolhendo cada sílaba. — Poderoso. É um homem que as pessoas temem, Ambra. Muitos temem.

As palavras não caíram como um balde de água fria. Foi pior. Foi como se o chão da saleta tivesse sido puxado. O ar faltou. Um frio cortante subiu pela espinha de Ambra e se espalhou pelos braços, fazendo os pelos se arrepiarem por baixo do suéter.

Temido.

Ambra apertou os joelhos com tanta força que as unhas marcaram a pele através do tecido. Tentou controlar a respiração, mas o ar entrava curto, picotado. Poderoso e temido. Era assim que descreviam seu pai. Era assim que descreviam todos os homens que ela aprendeu a temer desde criança. E era com um deles que teria que dividir a vida.

Alessa percebeu e estendeu a mão, mas Ambra se encolheu levemente. Não por rejeição, por vergonha do pânico que não conseguia esconder.

Os dias seguintes passaram com uma velocidade cruel.

A mansão Di Rossi, que sempre fora silenciosa e fria, se transformou em uma fábrica de casamento. Caminhões de flores brancas chegavam de manhã cedo. Degustações de doces que Ambra era obrigada a provar sem sentir gosto nenhum. Provas de bolo, lista de convidados que ela não conhecia, telefonemas em voz baixa no escritório do pai. Ambra andava no meio daquele furacão como uma sonâmbula. Perguntavam qual flor preferia, lírios ou peônias, e ela respondia qualquer coisa, porque nada daquilo parecia dela. Era como se estivessem organizando uma festa para outra pessoa e tivessem apenas pedido seu corpo emprestado.

Diana estava em seu melhor papel. Diante dos fornecedores, das tias distantes, das esposas dos aliados, ela era a madrasta dedicada, a anfitriã perfeita. Tocava o braço de Ambra com carinho ensaiado, sorria com orgulho.

— Minha filha está tão ansiosa — dizia, com aquela voz melada. — Queremos que tudo seja impecável para o Vincenzo.

Mas quando as portas se fechavam e ficavam só as duas, a máscara caía.

Foram no ateliê improvisado no segundo andar. Três costureiras de pé, alfinetes na boca, tecidos caríssimos espalhados. No centro, em um manequim, o vestido.

— Não entendo por que tanto gasto com essa festa — comentou Diana, enquanto circulava o manequim com uma taça de vinho na mão, sem olhar para Ambra. — No fim das contas, é só uma formalidade, não é? Um papel assinado. Mas já que seu pai insiste em fazer circo...

Ambra, pálida diante do espelho, sentiu cada palavra como um beliscão.

— Este é perfeito para você — decretou Diana, apontando para o vestido. Era tomara que caia, justo, bordado com milhares de pérolas minúsculas que pesavam. Lindo e completamente estranho a Ambra. — E nada de maquiagem carregada. Precisamos realçar o pouco de beleza que você tem sem exagerar. Natural, mas que esconda o cansaço. Você anda com uma cara péssima.

Ambra tentou argumentar, a voz saindo fraca.

— Eu não gosto de tomara que caia...

— E quem perguntou o que você gosta? — Diana riu, sem humor. — Prova.

A partir dali, Ambra deixou de ser gente. Virou projeto. As costureiras puxavam, apertavam, alfinetavam. A maquiadora inclinava seu rosto com dois dedos sob o queixo como se fosse um objeto. Cada ajuste era feito sem consulta, cada decisão tomada por cima da sua cabeça. Seu desconforto era tratado como ruído. No espelho enorme, ela não se reconhecia. Via uma boneca pálida, com o cabelo armado, a boca pintada, os olhos assustados de alguém que estava sendo fantasiada para um papel que não pediu.

— Respira fundo e para de tremer — ordenou Diana, impaciente. — Você vai encontrar seu noivo hoje pela primeira vez. Pelo menos tente parecer grata.

Ambra sentiu o sangue gelar de novo.

Hoje. Pela primeira vez.

Ela não sabia que aquele era o dia. Ninguém tinha avisado. Achou que ainda teria semanas, talvez um mês, para se acostumar com a ideia do homem temido. Mas não. A preparação toda, a pressa, o vestido pesado, a maquiagem, tudo era para agora.

As costureiras deram os últimos pontos, a maquiadora deu a última pincelada. Diana deu um passo para trás e analisou o resultado com a cabeça inclinada, como uma artista avaliando a obra.

— Pronto — disse. — Agora você parece uma Di Rossi de verdade. Uma pena que só por fora.

Lá embaixo, ouviu-se o portão principal se abrindo. O ronco grave de motores entrando no pátio. Depois, vozes masculinas e o barulho seco das portas dos carros sendo fechadas.

Ambra agarrou a lateral do vestido com tanta força que os dedos ficaram brancos. O coração batia tão alto que ela tinha certeza de que todos na sala podiam ouvir.

Ela estava pronta. Ou melhor, tinham deixado ela pronta. Como um presente embrulhado para um homem que ela nem sabia se tinha rosto.

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