Capítulo 8 Porta

Ele não se levantou quando ela entrou. Já estava sentado.

Ambra só percebeu quando a porta se fechou atrás dela e o cheiro de cigarro se impôs sobre o perfume caro da suíte. Vincenzo ocupava a poltrona de couro escura no canto mais afastado da janela, as pernas longas cruzadas, o tronco inclinado levemente para frente. Tinha tirado o paletó. As mangas da camisa preta estavam dobradas até o antebraço, revelando veias marcadas e uma tatuagem que subia pelo pulso e desaparecia sob o tecido. A máscara preta continuava lá, imutável, como se fizesse parte da pele.

O som que ela ouviu não foi da porta. Foi do cigarro dele sibilando quando ele tragou. Uma brasa pequena acendeu e apagou, iluminando por um segundo o contorno da boca. Depois, a fumaça subiu lenta, densa, desenhando espirais no ar pesado do quarto. O ar-condicionado estava ligado no máximo, mas o ambiente parecia abafado, carregado de algo que não era calor.

Ambra sentiu um arrepio subir pela nuca e descer reto pela coluna. Não era frio. Era a consciência física de estar sendo observada antes mesmo de ser vista.

— Senta — disse ele.

Não era um convite. Ambra obedeceu porque as pernas já não a sustentavam direito. Puxou a cadeira à frente dele, a única outra no quarto, e se sentou na beirada, como se precisasse estar pronta para fugir. O vestido vermelho que Diana escolhera subiu um pouco nas coxas e ela o puxou para baixo com as mãos trêmulas. As mãos suavam.

Vincenzo a olhava sem piscar. Os olhos escuros, quase pretos sob a máscara, não tinham pressa. Era um olhar que pesava, que media, que desmontava. Ambra teve a impressão absurda de que ele conseguia ouvir o coração dela batendo descompassado contra as costelas.

Ele tragou de novo e soltou a fumaça para o lado, sem nunca desviar o olhar.

— Onde quer passar a lua de mel? — perguntou.

A voz grave e calma contrastou de forma tão violenta com o terror que Ambra sentia que ela demorou para entender a pergunta. Lua de mel. Uma expressão que pertencia a outro universo, a casais que se escolhiam, a gente que ria em fotos. Naquela suíte, dita por aquele homem mascarado que a olhava como se avaliasse um problema, a pergunta soou quase cruel de tão banal.

— O quê? — sussurrou ela. A voz saiu tão baixa que ela mesma quase não ouviu.

Vincenzo não repetiu com impaciência. Ele apenas continuou a olhá-la, com a mesma intensidade imóvel, e a fumaça do cigarro continuou a dançar ao redor dele, como se obedecesse ao ritmo da respiração dele. O silêncio se esticou. Um, dois, três segundos que pareceram minutos. Ambra sentiu o suor frio brotar na testa e nas palmas. A pressão no peito aumentou até se tornar sufocante.

— Nossa lua de mel — disse ele então, articulando cada palavra com uma calma inquietante, como se estivesse explicando algo a uma criança lenta. — Escolha o local. Eu permito que faça isso.

Eu permito. A generosidade vinha embrulhada em uma ordem. Não era uma gentileza, era um teste. Uma coleira um pouco mais longa para ver até onde ela iria, e para lembrá-la de quem segurava a outra ponta. Ambra engoliu em seco. A boca estava seca.

Onde ela queria ir para escapar do pesadelo em que estava? A pergunta era um labirinto. Qualquer lugar que ela dissesse seria contaminado pela presença dele. Qualquer paraíso se tornaria outra extensão daquele quarto. Se dissesse Paris, ele diria que era clichê. Se dissesse uma ilha deserta, ele riria da ingenuidade. Ela precisava dizer algo que o satisfizesse, que encerrasse logo aquele interrogatório, que lhe desse ao menos alguns segundos sem aquele olhar em cima dela.

A mente dela, em pânico, buscou a primeira imagem que não fosse a mansão Di Rossi, a Suíça ou aquela suíte.

— Eu nunca fui a Nova York — disse, quase sem pensar. A voz saiu suave, tímida, carregada de uma vulnerabilidade que ela odiou expor. Era verdade. Tinha visto a cidade em filmes, em fotos de revistas que passavam de mão em mão no internato, naquelas noites em que as meninas sonhavam com vidas que nunca teriam. Era um lugar grande demais para ser controlado por um homem só. Pelo menos era o que ela queria acreditar.

Vincenzo levantou uma sobrancelha. Foi o primeiro movimento expressivo que Ambra viu nele desde que entrara. Para surpresa dela, ele deu de ombros, com uma despreocupação que desarmou completamente a tensão que ele mesmo tinha criado. Levou o cigarro à boca de novo, a brasa acendeu e, por um instante, os olhos escuros brilharam com algo que parecia satisfação.

— Ótima escolha — respondeu ele, a voz ainda calma, mas agora com uma nota diferente, quase aprobativa.

O alívio que Ambra sentiu foi tão físico que as pernas pararam de tremer por um segundo. Tinha acertado. Tinha cumprido a expectativa sem nem saber qual era. Por um momento, a pressão no peito diminuiu e ela conseguiu puxar ar de verdade.

Mas a satisfação de Vincenzo não vinha do gosto pessoal dela. Ambra percebeu isso no segundo seguinte, quando ele se recostou na poltrona e cruzou os braços, o cigarro ainda aceso entre os dedos longos.

Nova York não era um destino romântico para ele. Era território. Ele conhecia Nova York como conhecia as colinas ao redor de Florença. Tinha prédios lá, restaurantes que lavavam mais do que pratos, juízes que atendiam o telefone de madrugada, galpões no Brooklyn onde entravam e saíam caixas que nunca eram abertas na alfândega. Para ele, levar a nova esposa para Nova York não era presenteá-la. Era mostrá-la. Era apresentá-la aos outros chefes como se apresenta um relógio novo e caro no pulso. Era mais uma peça no tabuleiro se movendo exatamente para onde ele queria.

A consciência disso trouxe um peso novo, diferente do medo de antes. Um peso mais frio, mais resignado. Ela tinha escolhido a própria coleira.

— Você vai gostar — continuou ele, como se estivesse comentando sobre o clima. — Tenho um apartamento no SoHo. Vista para o rio. Ficaremos lá duas semanas. O suficiente para resolver alguns assuntos e para você aprender como se comporta a esposa de alguém como eu.

Ambra assentiu, muda. O que mais poderia fazer?

Vincenzo apagou o cigarro no cinzeiro de cristal com um movimento lento e definitivo. O chiado do fim da brasa foi alto no silêncio. Ele se levantou. Era ainda mais alto de pé, e a proximidade fez Ambra encolher automaticamente na cadeira.

Ele não voltou para perto dela. Caminhou até a janela e olhou para a cidade lá embaixo, de costas para ela, as mãos nos bolsos. A luz da tarde que entrava pela cortina entreaberta recortava a silhueta dele e fazia a máscara brilhar.

— Assim que retornarmos da lua de mel, moraremos na minha casa — afirmou, sem se virar, como se estivesse falando do tempo. — Fica nas colinas, acima de Fiesole. Gosto de lugares retirados. Silenciosos. Longe de curiosos.

Ambra sentiu o estômago despencar de novo. As colinas. Retirado. Longe. As palavras se juntaram na cabeça dela formando uma imagem muito clara de uma casa grande, bonita e isolada, onde ninguém ouviria se ela gritasse. Onde não haveria Diana para atormentá-la, mas também não haveria Alessa para salvá-la. Onde haveria apenas ele e as regras dele.

Ela abriu a boca para dizer algo, qualquer coisa, que não havia necessidade, que preferia ficar mais perto da cidade, que tinha medo de lugares muito quietos. Mas ele se antecipou, como se tivesse ouvido o pensamento.

— Isso não está em discussão — disse, ainda de costas, a voz voltando a ser aquela lâmina calma e definitiva do início. — Quer você aceite ou não.

Não havia raiva no tom. Era pior. Havia certeza absoluta. A certeza de um homem que nunca precisou repetir uma ordem duas vezes.

Ambra sentiu um nó se formar na garganta, grosso, dolorido, feito de todas as palavras que engoliu na vida. A ideia de viver isolada com aquele estranho que a chamava de prostituta por causa de um vestido que não escolheu, que controlava até para onde ela iria na lua de mel, a deixava desorientada e pequena. Mas diante daquela certeza inabalável, diante daquele homem que não oferecia brechas, a única coisa que restou foi a resignação. Não a resignação nobre dos livros, mas a resignação cansada de quem entende que lutar agora só vai machucar mais.

Ela fez que sim com a cabeça. Um gesto quase automático, de boneca.

— Sim, senhor — murmurou de novo, como na primeira vez que ele a humilhou.

Vincenzo finalmente se virou. Olhou para ela por mais um longo segundo, aquele sim acenado parecendo agradá-lo mais do que qualquer escolha de destino.

— Ótimo — disse. — Agora pode ir. Mande Diana entrar.

E Ambra se levantou, com as pernas bambas, com o vestido vermelho amassado nas mãos, e saiu da suíte sem olhar para trás, com a sensação de que acabara de assinar, sem caneta, o resto da sua vida.

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