Capítulo 1 Começo
— Vamos, menina! Esse chão não vai se limpar sozinho se você continuar almejando o impossível!
Molly é a cozinheira, uma mulher ruiva, rechonchuda e muito famosa por ser a melhor cozinheira da região. Ela é uma boa amiga. Deu-me seu maior e melhor prato de comida quando, suja e faminta, bati à porta da mansão do duque de Northumberland, pedindo emprego e um lugar para ficar. Desde então, tornamo-nos amigas, e ela conseguiu com a governanta o ofício de criada para que eu pudesse permanecer ali — dizendo que uma mãozinha extra era sempre bem-vinda na hora de limpar, lavar, passar e ajudar na cozinha.
— Você agora lê meus pensamentos? — digo a Molly, que mantém as mãos na cintura, tentando parecer séria.
Ela é a única pessoa que sabe da minha paixão impossível pelo duque. Desde que descobriu meus sentimentos, não perde uma oportunidade de me lembrar da realidade.
— Não gaste sua vista almejando o impossível! Lembre-se de que nobres não se casam com plebeias.
Já ouvi essa frase tantas vezes que poderia repeti-la de olhos fechados. Ainda assim, por mais que eu soubesse que Molly tinha razão, meu coração parecia não compreender as diferenças que existiam entre nós.
Mas o que fazer se meus pensamentos me levam a imaginar o quão bom seria se eu tivesse uma única noite ao seu lado? Não como uma plebeia, não como uma criada, mas como uma igual.
Era apenas um sonho. Um daqueles sonhos que eu deveria guardar bem escondido, onde ninguém pudesse encontrá-lo.
Volto a limpar o chão de mármore da mansão, que se prepara para receber o proprietário, que chegará à sua residência em Londres para mais uma temporada.
Já o vi várias vezes e, mesmo depois de tanto tempo, ainda não consigo evitar que meu coração acelere quando ele passa por algum dos corredores.
Seu jeito é uma combinação perfeita de um homem incrivelmente belo, alto e musculoso, com cabelos negros e levemente ondulados na altura dos ombros. Seus incríveis olhos verdes destacam-se na pele levemente morena, tornando impossível não reparar nele.
Sua fama de libertino faz as mulheres desejarem-no ardentemente. Eu o vi voltar para casa várias vezes acompanhado por mulheres da alta sociedade londrina e sei que não era para uma visita casual.
Certa vez, ouvi, atrás da porta do escritório, gemidos ofegantes, como se as mulheres estivessem sendo torturadas.
Confesso que minha curiosidade venceu o bom senso.
Perguntei o que Vossa Graça fazia de tão mal para torturar as pobres mulheres, mas Molly quase deixou cair a colher que segurava quando ouviu minha pergunta.
Lembro-me perfeitamente do que ela sempre diz:
— Lembre-se sempre: somos cegos, mudos e surdos aqui! Você nunca vê nada, não ouve nada e não fala nada! Não somos pagos para isso.
Talvez seja por isso que Molly seja tão boa em sobreviver naquela mansão. Ela sabe exatamente quando falar e, principalmente, quando permanecer em silêncio.
Termino de limpar o chão e aproveito para trocar as velhas cortinas. Penso em pedir ajuda com a escada a Matthew, filho de Molly, mas não o encontro em lugar nenhum.
Matthew é um rapaz alto e ruivo, não muito mais velho do que eu. Ele sempre me olhou com outros olhos, mas o que posso fazer se só o vejo como amigo?
Nunca quis alimentar esperanças que não poderia corresponder. Matthew é um bom rapaz, e eu não queria machucá-lo apenas porque meu coração insistia em pertencer a alguém que jamais poderia ser meu.
Olho no relógio de parede e vejo que estamos atrasados com o serviço. O duque chegará a qualquer momento.
O pequeno irmão de Matthew chega correndo e me diz que seu irmão não está em casa, pois foi comprar algumas coisas para a despensa.
Olho para o menino. Ele é pequeno demais para ajudar com as tarefas mais complicadas. Não posso esperar por Matthew, e também não quero incomodar os outros criados, pois cada um está ocupado com suas próprias tarefas.
Então vou eu mesma buscar a escada.
Aquela é a minha função, afinal.
Arrasto a escada pelo salão até colocá-la o mais perto possível das janelas laterais. O esforço faz meus braços doerem, mas não paro. Começo colocando cada cortina em seu devido lugar, deixando por último a que será posta perto da porta de entrada.
O trabalho parece interminável.
Já estou suada e suja de poeira quando subo a escada para colocar a última cortina. Estico o braço, tentando alcançar o suporte, mas ele parece estar alguns centímetros além do meu alcance.
Tento novamente.
Nada.
— É ruim ser baixinha demais! — penso, enquanto fico na ponta dos pés sobre o último degrau.
Estico-me o máximo que consigo.
Só mais um pouco.
Meus dedos finalmente quase alcançam o suporte.
Então tudo acontece muito rápido.
A porta se abre com um estrondo.
O barulho me assusta, fazendo meu corpo perder o equilíbrio. Meu pé escorrega e, por um instante, sinto apenas o vazio sob mim.
Tento me segurar.
Minhas mãos apenas tocam o ar.
O coração dispara.
Antes que eu me esborrachasse no chão, mãos fortes me seguram.
Meu corpo é puxado contra um peito musculoso, coberto apenas por uma camisa branca de tecido fino, aberta em vários botões, revelando a pele morena.
Fico completamente imóvel.
Não consigo entender o que aconteceu.
Então levanto os olhos.
Dou de cara com os olhos mais verdes que já vi.
São os mesmos olhos que tantas vezes observei de longe, escondida atrás de portas, corredores ou qualquer lugar onde uma simples criada pudesse olhar sem ser percebida.
Mas agora estão diante de mim.
Muito mais próximos do que eu jamais poderia imaginar.
Seus lábios cheios e sensuais estão tão perto que esqueço completamente como respirar. Seu queixo másculo, marcado pela barba por fazer, parece ainda mais perfeito daquela distância.
Volto a olhar em seus olhos e me perco naquele olhar.
Já não sei quem sou.
Não sei onde estou.
Não sei sequer por que estou nos braços dele.
A única coisa que sei é que não quero mais sair daqueles braços.
Por alguns segundos, o mundo parece desaparecer. Não existe mansão, não existem criados, não existem diferenças de classe. Existe apenas aquele homem me segurando como se fosse a coisa mais natural do mundo.
E eu, completamente perdida, permito-me imaginar que talvez aquele fosse o único instante em que meu sonho impossível poderia se tornar realidade.
Sua voz profunda e suave me tira do meu devaneio.
— A senhorita está bem?
A realidade bate à minha porta como a chuva que apaga o fogo, deixando apenas fumaça.
Ele é um nobre.
Um duque.
Um aristocrata.
Eu sou uma criada.
Meu lugar não é em seus braços, e sim lavando, passando e ajudando nos serviços gerais.
Molly tem razão.
Perco muito tempo almejando o impossível.
A diferença entre nós está diante dos meus olhos, ainda que seus braços continuem ao redor do meu corpo. Eu não pertenço àquele mundo. Nunca pertenci.
Seria tolice querer tanto quando aquela fonte era destinada apenas a mulheres dignas e de classe.
Sinto meu coração apertar diante da realidade.
Lamento profundamente por cada um dos meus sonhos infundados, como dizia Molly.
Talvez eu devesse ter escutado seus conselhos desde o começo.
A vida era injusta demais.
Uns tinham tanto e outros, nada.
Foi o que me perguntei enquanto mergulhava pela última vez naqueles olhos verdes.
Ele refaz a pergunta, dessa vez com um leve sorriso nos lábios:
— A senhorita está bem?
Como poderia estar depois que uma salada de sentimentos inundou meu coração?
Ele dá um leve sorriso, e seus olhos tornam-se brincalhões.
Meu rosto esquenta como brasa.
Sinto o rubor tomar conta da minha face e tenho certeza de que ele percebe.
Tudo o que quero é sair correndo.
Quero desaparecer antes que ele consiga descobrir o quanto sua presença me afeta.
Mas continuo ali, presa entre seus braços e meus próprios sentimentos, sem saber como me afastar daquele homem que passei tanto tempo admirando de longe.
E, pela primeira vez, o impossível estava perto demais para que eu pudesse fingir que não o desejava.
