Capítulo 5 Preparação

Dou um sorriso entusiasmado com a ideia de ir ao baile de Lady Adams, que, segundo os criados, será o baile de abertura que dará início a mais uma temporada de festas entre a aristocracia da velha Londres.

Primeiro, terei que pedir ajuda a Molly, Lucy e Matthew.

A parte mais difícil será arranjar a bendita carruagem.

Deito-me em minha pequena cama com essa ideia maluca na cabeça e, o pior de tudo, sinto-me feliz fazendo isso.

Dou um sorriso de orelha a orelha e pego no sono com esse pensamento em mente.

Acordo cedo, arrumo as cobertas da minha cama e saio cantarolando uma velha música que sempre ouvia minha mãe cantar e da qual não me recordo da letra com exatidão.

Foi a luz do mar azul refletida em seus olhos que me apaixonei...

Nos seus braços encontrei minha paz...

Meu amor... para sempre vou te amar...

Apenas estrofes embaralhadas.

Não sei por que me lembrei dessa música agora!

Minha mãe sempre sorria ao cantá-la e, logo depois, seus belos olhos azuis ficavam cheios de lágrimas, e ela se isolava com seus próprios pensamentos.

Deixo essas lembranças dolorosas de lado, desistindo de tentar entender perguntas para as quais não existem respostas.

Caminho pelos longos corredores, que parecem não ter mais fim. Não encontro Molly na cozinha nem em nenhum outro lugar.

— Matthew, onde está sua mãe? — pergunto ao filho de Molly quando o vejo entrar no estábulo com dois lindos garanhões brancos.

Fico admirada com a beleza dos animais.

Esses seriam perfeitos para ir ao baile com uma verdadeira lady — penso, imaginando como aqueles animais devem ser velozes.

— Acho que foi à feira! — diz Matthew. — São lindos, não são? Vossa Graça ganhou os dois de um tal George Beverley em uma jogada de sorte no pôquer!

— São mesmo magníficos! — digo, avaliando os lindos animais.

— Espere minha mãe na cozinha. Ela não deve demorar a chegar! — diz Matthew, com seu sorriso doce, que me faz lembrar, a todo momento, que ele vê muito além de nossa amizade.

— Obrigada, Matthew. Já vou indo! A gente se vê por aí.

Volto para a casa e me sento à mesa, esperando Molly voltar. Não demora muito, e logo vejo aquela mulher especial e amiga que é Molly, com o rosto corado e avermelhado pelo sol já bastante quente.

— Bom dia, Elizabeth. Está me esperando? — pergunta Molly, separando suas compras e guardando-as em seus devidos recipientes.

— Como sabe? Eu... eu nem falei nada a você!

— Só intuição de amiga! E, pela sua gagueira e pelo nervosismo, a coisa deve ser importante. Vamos, desembucha, menina! — diz Molly, parando o que está fazendo para me olhar nos olhos, com seu típico olhar de quem sabe de tudo.

Começo a brincar com meus próprios dedos, procurando uma explicação convincente para minha ideia maluca.

— Preciso de sua ajuda, Molly!

— Disso eu já sei, querida! Deu para perceber!

— Sei que pode ser loucura o que estou tramando, mas eu realmente preciso de sua ajuda! — digo, esfregando as mãos suadas na saia do vestido. — A abertura dos bailes da temporada é hoje, como você deve saber, já que só se fala nisso. Eu resol... eu resolvi... que quero ir ao baile de hoje.

Respiro fundo antes de continuar.

— Eu sei que não sei dançar direito ou me portar como as damas bem-nascidas, mas quero experimentar o que é ser considerada uma igual, nem que seja somente por uma noite. Hoje quero ser simplesmente Elizabeth Green, e não a serviçal sempre suja de poeira e cheirando a temperos da cozinha. Só por uma noite, Molly! Uma noite e nada mais! É só o que eu peço.

Minha voz fica embargada pelas emoções.

Ela me olha com seus pequenos olhos castanhos e brilhantes antes de responder:

— Tem certeza de que quer mesmo fazer isso? É arriscado demais para você! Mas prometo que a ajudarei no que for preciso.

Corro até ela e lhe dou um abraço apertado.

— Pensei que você me chamaria de maluca! — digo a ela.

— Maluca você é! Mas você é jovem e bonita e nunca foi a um baile. Aposto que sua simplicidade, além da sua beleza, vai conquistar muitos cavalheiros esta noite! — diz Molly, sorrindo. — Já que quer ir ao baile, o que pretende vestir?

Ela olha para meu vestido preto e meu avental branco.

— Venha comigo. Vou mostrar a você! — digo, puxando-a em direção ao meu quartinho, no final do corredor.

Entramos em meu pequeno quarto. Vou até a gaveta da cômoda e tiro a velha sacola na qual ainda guardo o lindo vestido que pertenceu à minha mãe.

— Você ainda guarda essa velha sacola! — diz Molly, lembrando-se da noite em que cheguei com ela como meu único pertence.

— Sim, eu a guardo! Ela é um dos poucos pertences que me restaram da minha antiga vida! — digo. — Mas o mais importante é isto.

Tiro o vestido de dentro da sacola e o mostro a Molly.

— É lindo! Onde o conseguiu? — pergunta ela, com os olhos arregalados.

— Pertenceu à minha mãe. Minha avó me deu quando fiz dezoito anos! — respondo.

Molly avalia o vestido cuidadosamente.

— Muito bonito. E ainda está em bom estado. Um pouco fora de moda, mas, mesmo assim, é deslumbrante! Lucy pode fazer alguns ajustes e dar um jeito nele para você. Quanto ao meio de transporte, vou falar com Matthew e ver o que ele pode fazer. Também vou chamar Lucy para inteirá-la do que ela deve fazer.

Dizendo essas palavras, ela se vai.

Fico eufórica, com um sorriso bobo estampado no rosto, de orelha a orelha.

Tudo está indo muito bem.

Devo deixar o duque ir primeiro, para poder também sair sem levantar suspeitas.

Quanto à máscara, não sei onde irei arranjar uma. Com certeza, Lucy dará um jeito, pois, além de ter mãos ótimas para a costura, também é muito criativa.

Sapatos também não tenho.

Terei que dar um jeito! Nem que, para isso, eu tenha que ir descalça.

Estou tão envolvida em meus pensamentos que nem percebo a entrada de Lucy.

— Molly pediu para que eu viesse ajudá-la com o vestido! — diz Lucy, com sua voz meiga e paciente.

— Obrigada por vir, Lucy. Veja o que você pode fazer. Estive pensando em ir a esse baile, mas vejo que faltam muitas coisas. Não tenho sapatos nem máscara. Não sei se poderei ir — digo, quase desanimada. — O vestido está meio fora de moda, mas é somente o que tenho!

Entrego o vestido a Lucy.

Ela o observa por alguns segundos e abre um grande sorriso.

— Acho que temos tudo de que você precisa para ir a esse baile! Venha comigo.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo