Capítulo 5 5

YULIAN

A minha oferta deixa ela zonza.

Vou dizer do que eu preciso e por que você é perfeita pra isso e, quando você disser que sim, eu vou colocar uma boa quantia em dinheiro na sua mão, e você vai me agradecer pelo dinheiro mais fácil que já ganhou na vida.

O rosto dela passa por todas as cores do arco-íris. Eu praticamente vejo as engrenagens no cérebro dela girando no limite. Fazendo as contas das contas a pagar. Das roupas pra comprar. Sonhando com umas férias, talvez, pela primeira vez na vida exaustiva dela.

É como se tudo que ela é estivesse escancarado diante de mim. Eu quase sinto o gosto das lágrimas dela, as de madrugada, desesperadas, as que ela não tem coragem de mostrar pra ninguém. Eu sinto o aperto devastado dos punhos dela fechando quando o mundo frustra ela de novo e de novo.

Ela apanhou muito da vida.

Isso aqui é uma chance que ela aprendeu, faz muito tempo, a nunca esperar.

— Eu preciso de uma acompanhante — digo, direto. — A minha acompanhante está… indisposta, de última hora. Você vai ficar no lugar dela.

— Eu não sou prostituta — ela sibila, com as bochechas vermelhas.

— E eu não pago por sexo. — Envio minha localização para o Maksim, para ele vir me buscar e buscar a minha nova acompanhante aqui. — Dez mil. Essa é a minha oferta final.

Os olhos azuis dela se arregalam. — D-dez…?!

— Dez mil dólares. Por uma noite do seu tempo. Você seria burra de não aceitar.

Eu vejo mais emoções se chocando no olhar dela. Orgulho contra praticidade.

É fácil saber qual vai ganhar.

— Eu tenho condições — ela diz com cuidado.

— Diga.

— Nada ilegal — ela solta de uma vez. — Nada sexual. E nada de nomes.

Os limites dela me divertem. Como se ela fizesse ideia de como é o perigo de verdade.

Ao entrar no meu mundo nem que seja por uma noite, ela já está mais fundo do que imagina.

Mas não me custa nada alimentar isso. Fingir que os limites dela significam alguma coisa.

— Claro, Enfermeira Winters.

O olhar dela vai rápido até o crachá. Eu me pego gostando do rubor que vai subindo cada vez mais pelas bochechas dela. Não consigo evitar pensar se a pele abaixo da clavícula dela tem o mesmo tom escarlate delicioso.

— Olha—

— Eu não tô nem aí — eu interrompo. — Você tem quinze minutos pra ficar apresentável. Vai, ou o acordo acabou.

Eu percebo que ela quer retrucar mais, mas deve entender o quanto está correndo contra o relógio.

Com um último olhar fulminante pra mim, ela dispara escada acima.

No segundo em que ela some, eu pego o celular de novo.

— Maks. Sou eu. Puxa uma ficha completa de uma “Enfermeira Winters” que mora em Brownsville, bem perto do pino que eu acabei de te mandar.

Ajusto as abotoaduras e sinto um sorriso se abrindo devagar no meu rosto. Músculos que eu quase nunca uso, agora esquentando de novo.

A atitude daquela enfermeira, a recusa total em baixar a cabeça…

Isso me dá vontade de ver até onde eu consigo empurrar ela antes que ela quebre.

5

MIA

Meu salto bate nervoso na calçada.

Eu ainda estou tentando processar a loucura da última meia hora. Eu nem consegui me explicar direito pra Kallie e pro Eli. Só tomei o banho mais rápido da história e corri de volta pra baixo com meus saltos Cavallini de terceira mão.

Aí vem os sete minutos e meio mais constrangedores da porra da minha vida.

O Sr. Tanquinho Ralador de Queijo é impaciente.

Muito impaciente.

Ele fica checando o celular, rosnando pros carros que passam, passando pelos cinco estágios da raiva e depois voltando pro começo e repetindo tudo.

Seja lá quem está fazendo ele esperar, eu não queria estar no lugar dessa pessoa.

Mas você quer estar no lugar do par dele?

Em resumo: nem a pau.

Mas ele tem razão numa coisa: eu preciso do dinheiro.

Lá em cima, meu filho tem um par de tênis de basquete cheio de buracos — e eu posso comprar outro se eu fizer isso. Minhas contas, meus empréstimos… eu poderia colocar tudo em dia por um mês ou dois.

Eu podia respirar.

Eu só preciso aguentar essa noite.

O ronco de um motor me tira dos meus pensamentos. Uma limusine preta, elegante, encosta e para bem na nossa frente.

“E aí, Yulian!” Um brutamontes com tatuagens no rosto e um sorriso malandro acena do banco do motorista. “Como é que tá, novata? Eu sou o Maksim.”

“Mia”, eu solto, no impulso, antes de lembrar que a gente não era pra falar nomes. Merda. “Quer dizer—”

“Entra.” O homem — Yulian, pelo visto — escancara a porta do carro. “Agora.”

É, sem dúvida, o jeito menos cavalheiresco que alguém já segurou uma porta pra mim. Alguém devia ensinar pra ele o que significa “por favor” ou o que é “sorrir”.

Mas grana é grana, então eu cerro os dentes e deslizo pra dentro da limusine.

Yulian não senta na frente. Em vez disso, pra meu horror crescente, ele senta bem do meu lado.

“Dirige”, ele rosna pro Maksim.

O carro entra de volta no trânsito. Eu encaro, com saudade, meu Honda surrado sumindo à distância, pensando se ainda dá tempo de voltar atrás.

“Veste isso.”

Eu me assusto com o item nas mãos do Yulian. “O que é isso?”

“Seu vestido.” Os olhos cinzentos dele percorrem meu modelo evasê azul meia-noite. “Um que não veio de brechó.”

“Ei! Ele é de segunda mão.”

“É um desastre. Troca.”

Eu fico olhando, sem entender, pro saco opaco de roupa que ele enfia nas minhas mãos.

O conflito aperta meu peito. Eu posso precisar desse dinheiro, mas ninguém falou nada sobre eu ter que ficar pelada num carro com um desconhecido pra conseguir.

Na verdade, eu deixei bem claro que isso não ia acontecer.

Mas o Yulian continua me encarando, olhos cinzentos frios como pedra, os dedos tamborilando impacientes na coxa. “Vista, Srta. Winters. A não ser que você queira desistir do nosso acordo.”

Engolindo em seco, eu abro o zíper da capa. “Tá. Mas você vai virar de costas. E—ah.”

As palavras morrem na minha garganta.

Seda azul-clara, fria e pálida, cintila nas minhas mãos, escorrendo pelos meus dedos como água. Eu nunca vi nada tão bonito — quanto mais toquei.

O tecido, o acabamento… é impecável. Um abismo de distância de qualquer vestido “de segunda mão” que eu já tive.

Essa peça nunca foi usada antes.

Eu sou a primeira.

“E?”

Eu pisco, voltando pro presente. “O quê?”

“Você disse ‘e’.” Um meio sorriso desenha os lábios do Yulian. Ele tá se divertindo horrores me vendo me contorcer. “Eu vou virar de costas e…?”

A mesquinhez acende dentro de mim. “E eu vou ficar com o vestido”, eu retruco. “Agora faz a sua parte, Olhos Claros. Vira pra lá e fica quieto.”

Com aquele sorrisinho presunçoso bem firme no rosto, Yulian obedece.

Yulian.

Eu saboreio o nome dele na língua enquanto tiro a roupa.

Ele soa muito mais doce do que o homem a quem pertence.

Minhas mãos atrapalham tudo, do começo ao fim. A limusine pode ser grande, mas não é tão grande assim. Nenhum carro é grande o bastante pra alguém tirar a roupa do lado de outra pessoa sem rolar um esbarrão acidental. Cada quase-toque nele faz meu coração saltar pra garganta.

Eu engulo o nervosismo e faço a única coisa que me vem à cabeça pra tornar isso suportável: puxar conversa.

“Então, é… você faz isso com frequência?”

É uma piada fraca, no melhor dos casos, mas o Yulian nem finge entrar na brincadeira. “Você vai ter que ser mais específica.”

“Subornar mulheres pra serem seu par”, eu devolvo, ácida. “Isso é uma sexta-feira típica pra você, ou às vezes você consegue sem a ajuda dessa carteira gorda e recheada?”

Eu quase juro que percebo o menor indício de riso dançando na beirada da voz dele. “Nada disso é típico. Bem, não exatamente. Você está longe de ser a primeira mulher a ficar pelada no meu carro. Mas é a primeira que está nele porque mandou guinchar o meu.”

Meu rosto esquenta. Eu não disse nada sexual, mas já faz meia hora desse cenário absurdo e eu tô nua, ele tá falando de todas as mulheres com quem dorme, e nós dois provavelmente estamos imaginando coisas que definitivamente não deveríamos.

“Pra ser justa”, eu murmuro, “você mereceu.”

“Eu achei que enfermeiras não deviam causar dano.”

“Tenho certeza de que seu carro tá perfeitamente bem. E ninguém na NYU me disse que carro entrava no Juramento de Hipócrates.”

“Então foi lá que você se formou”, ele comenta, pensativo. “NYU.”

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