Capítulo 6 6
Droga. Eu tinha dito pra mim mesma que não ia deixar esse cara saber nada sobre mim. Agora, ele sabe meu nome, onde eu moro, que carro eu dirijo e onde eu estudei.
Parabéns, Mia. Por que você não dá pra ele seu CPF também?
Será que ele sabe que seu tipo sanguíneo é O negativo?
E a pinta na parte de dentro da sua coxa? Por que não mostra logo pra ele, só pra completar?
— Talvez — eu digo, tentando soar casual e misteriosa e saindo mais como se eu mesma não tivesse certeza sobre a minha própria faculdade. — Talvez não.
É uma tentativa patética. Eu sei disso, o Yulian sabe—porra, até o Maksim provavelmente sabe.
Cinco minutos dentro desse carro, e eu já consegui me fazer de ridícula aos olhos de todo mundo aqui.
— Tá, eu tô decente. Você pode olhar—
Agora, era o que eu queria dizer, mas o ar trava no meio do caminho.
Porque tem mãos no zíper nas minhas costas.
E não são as minhas.
— Fica quieta — uma voz quente e rouca sussurra atrás de mim. Eu sinto a respiração dele no meu pescoço, a pressão morna de mãos fortes. — A gente não vai querer rasgar seu vestido novo, vai, Srta. Winters?
Eu odeio o jeito como ele fala meu nome.
Meu não-nome, o que eu ressuscitei do diário da minha bisavó quando o meu de verdade deixou de servir.
Mas, ao mesmo tempo, eu fico aliviada por não ser meu nome de verdade que ele está dizendo.
Mia Winters—ela é durona. Aguenta.
Euphemia Collins—o nome com que eu nasci—não aguentaria. Nem de longe.
Mas, pensando bem, Euphemia Collins não aguentava muita coisa. Por isso ela está morta e enterrada. Por isso eu sou Mia agora.
— Eu mandei você não olhar — eu rosno, odiando como minha voz treme.
— Eu não olhei. Eu virei, como você pediu — ele soa satisfeito demais consigo mesmo. — Pra janela.
Que é uma superfície refletiva. Claro. Maldição. Isso que é obedecer só pra sacanear.
— Você é horrível.
— Já me chamaram de coisas piores. — De novo, aquela respiração quente no meu pescoço, mais perto do que o pecado. — Você deveria saber—você falou várias delas.
Os dedos do Yulian puxam o zíper com habilidade, enquanto uma mão continua enfiada no meu cabelo pra ele não prender. Eu sinto meu corpo amolecer sob o toque dele, dócil, moldável. Uma massinha nas mãos dele.
Coisas que eu não me permito ser há muito tempo.
Desesperada por uma distração, eu volto a atenção pra janela. A limusine desliza macia pela Ponte do Brooklyn agora, as luzes da cidade virando um borrão conforme a gente passa.
Mas, por mais que eu tente fingir que não, eu ainda sinto o olhar do Yulian em mim.
— Então, é… que evento é esse que a gente tá indo?
— Você vai ver.
Ótimo. Obrigada. Super útil.
— Você não é muito de conversar, né?
— Eu sou um homem de ação, Srta. Winters — ele sussurra no meu ouvido. — Não de palavras.
Minha mente dispara com isso—a imagem do Yulian em ação. A pergunta do que, exatamente, esse estranho sombrio é capaz.
E isso pinta um quadro vívido, começando pelas tatuagens que eu vejo subindo pelas mãos e pelos pulsos dele.
Eu me pego pensando até onde elas vão. Como elas devem se mover e se enrolar nos músculos dele quando ele se mexe, se, por alguma mágica, o terno dele simplesmente sumisse de repente…
— Se eu ganhasse um real pra cada vez que algum babaca falasse isso pra mim, eu não tinha precisado aceitar a sua oferta idiota — eu rebato.
É meio atrevido—eu tô definitivamente mordendo a mão que literalmente tá me vestindo—mas alguma coisa me diz que esse Yulian vai gostar de um pouco de desaforo.
E, como eu imaginava, ele não se incomoda nem um pouco. Na verdade, ele solta um som baixo, no fundo da garganta, tipo o ronronar de uma onça. A vibração percorre cada centímetro da minha pele.
“O que você precisa?” ele murmura, traçando a linha da alça do meu vestido. Arrepios brotam onde ele me toca, mil alarmes minúsculos. “Pra você acreditar em mim?”
Eu quero contar pra ele.
Quero dizer exatamente como ele poderia me convencer — com a língua, as mãos, os lábios — de qualquer coisa que ele quisesse que eu acreditasse.
Meu Deus, eu quero isso tanto.
“Eu…”
E então, de repente, o celular de Yulian toca.
Ele rosna no fundo da garganta ao se afastar. “Um segundo.”
Ele olha pra tela. As sobrancelhas se juntam, e todo o calor que estava fervendo no ar some, engolido pela nuvem da irritação dele.
“Me diz que você não tá falando sério e não tá me ligando do banco do motorista, mudak.”
Como num passe de mágica, o vidro divisório desce devagar, revelando o rosto de Maksim. “Ué? Vai que você tava ocupado.”
“Eu tava.” Minhas bochechas esquentam ao pensar no que, exatamente, ele estava fazendo — comigo. “Vai falando antes que eu jogue isso na sua cabeça.”
Sem se abalar com as ameaças de Yulian, Maksim abre um sorriso. “Só uma perguntinha rápida. Os caras tão cuidando do, ah, problema Boylan. Só que o lugar de sempre pra desovar tá fora de cogitação. Parece que tem uma obra bem em cima.”
“Então derrete ele e transforma em porra de sabonete”, Yulian rosna. “Não quero saber como você vai fazer. Só garante que não fique nada pra encontrar.”
Pronto. Acabou com o clima.
Literalmente.
A ilusão se estilhaça. Meus pensamentos voltam a ficar afiados, a névoa some de uma vez.
De repente, eu lembro.
Eu lembro de coisa demais. Coisa demais mesmo.
Tem um homem em Nova York. Um CEO badalado, sempre no topo das listas da Forbes de 40 Over 40 e dos rankings de solteiro mais cobiçado.
Um homem de quem dizem que tem envolvimento com o submundo criminoso russo. Nada que alguém consiga provar, mas o suficiente pra que os sussurros já nem sejam tão sussurros assim.
E o nome dele é Yulian Lozhkin.
Yulian.
Merda. Eu não acredito. De todas as pessoas nesta cidade — de todos os babacas ricos com dinheiro pra jogar nos próprios problemas…
… Eu entrei mesmo num carro com o mais perigoso de todos?
6
MIA
Cala a boca, Mia.
Só cala a boca. Finge que não sabe de nada.
Senão você vai ser a próxima no banho de ácido, bem do lado do pobre Boyan.
Mas eu tô surtando quando o carro para.
Quando Maksim anuncia: “Chegamos.”
Quando Yulian dá a volta pra abrir a minha porta, pega a minha mão, me ajuda a sair do banco de trás.
Os olhos dele ficam cravados em mim. Mais cinzentos do que cinza, tempestuosos, atentos. Como se ele estivesse me testando.
Ela é burra a ponto de correr? De chamar a polícia?
Mas eu sei que isso não é pra mim.
Eu lutei tanto pra fugir de homens como ele. Pra deixar tudo isso no retrovisor, de uma vez por todas. Eu não vou cair de novo — nem por todo o dinheiro do mundo.
Só que, quando penso em disparar pro primeiro portão enquanto grito feito uma galinha sem cabeça, eu lembro dos sapatos do Eli.
Se eu fizer isso, amanhã cedo eu levo ele na loja.
Eu posso ver o rostinho dele se acender de novo, brilhante como luzinhas de Natal.
Tudo o que eu tenho que fazer é aguentar esta noite.
E por ele, pelo meu menino, meu anjinho, eu faço qualquer coisa.
Até fazer um acordo com o próprio diabo.
Então eu respiro fundo, olho pra Yulian, abro um sorriso e atravesso o arco enfeitado de lírios brancos da casa de festas do casamento.
Os flashes não param. A mão de Yulian permanece firme na minha lombar, me guiando pelos degraus de mármore.
Eu não gosto dela ali, em grande parte porque me deixa tonta e suada e consciente demais do quanto ele é enorme ao meu lado, do quanto ele cheira bem, do quanto ele parece intimidador.
Mas eu não posso simplesmente afastar a mão na frente desse exército de paparazzi, então eu só engulo e sigo em frente.
