Capítulo 7 7
Colei no rosto o sorriso mais falso que consegui, acenei como se fosse a maldita Rainha da Inglaterra e esperei o salão nos engolir.
“Dá pra tirar a mão da minha bunda agora?”, rosno, com os dentes cerrados.
Sem dizer nada, Yulian obedece.
E, assim, um arrepio desce serpenteando pela minha coluna. Volto a sentir frio no instante em que ele para de me tocar. Perdida. À deriva.
Por mais que eu odiasse a mão dele ali, odeio ainda mais quando ela some. É de um jeito inacreditavelmente idiota o meu corpo reagir assim. A minha própria biologia me detesta.
Mas, pensando bem, acho que ela sempre teve uma quedinha por cafajestes, né?
Quer eu gostasse, quer não.
“Melhor?”, Yulian pergunta, com o próprio sorriso perfeitamente no lugar.
“Muito.”
Enquanto uma recepcionista com roupa mínima pega nossos casacos, deixo os olhos passearem pelo lugar. Alguém claramente não economizou em nada. São pilares de mármore e lustres dourados até onde a vista alcança.
Pelo visto, gente rica gosta de recriar templos gregos nas horas vagas.
Não dá pra negar que é lindo, porém.
A voz de Yulian quebra o encanto. “Gostou do que viu?”
“Isso aqui?”, eu faço a cara virar uma carranca na hora, como se não estivesse impressionada. “Não.”
“Então é um olhar de ódio.”
Reviro os olhos. “É bonito, não me entenda mal. Mas…”
“Mas?”
“Parece que quem vai casar hoje acha que está organizando o tapete vermelho do Oscar. Como se tivesse certeza de que é importante nesse nível.”
“Talvez seja.”
“Ah, por favor. A imprensa? A garçonete vestida de coelhinha? A maldita folha de ouro nos drinks?”, eu bufo. “Ou a Kim Kardashian está partindo pra mais uma vítima, ou o casalzinho tem delírios de grandeza.”
Yulian solta um riso curto pelo nariz. “Bem preciso.”
Eu olho de novo, surpresa com o som saindo dele. O Rei do Gelo sabe rir? Quem diria?
Deixo Yulian me conduzir pelo salão. Isso aqui realmente parece um conto de fadas ganhando vida. Tirando algumas escolhas sem noção, tipo as saias das garçonetes quase na bunda, dá pra ver que quem fez isso entregou um cheque em branco pra um exército de decoradores.
Eu me pergunto de quem era o nome no cheque. Meus olhos correm pelos grupinhos conversando. Até os convidados parecem ter saído direto de uma revista de moda: descolados, bonitos, ricos. À vontade, com uma facilidade absurda, no meio de tanta ostentação.
Bem diferente de mim.
Isso me faz me sentir uma impostora. Uma pobretona burra tentando pagar de alguma coisa. Como se—
Você não é ninguém, querida.
Quem acreditaria em você em vez de mim?
“Relaxa”, Yulian murmura no meu ouvido. “Você está chamando atenção.”
“Duvido muito”, eu resmungo.
“Está, sim. Esse tipo de gente fareja nervosismo. E se acharem que você está nervosa…” Ele se inclina mais. “Vão saber que você não pertence a este lugar.”
“Bom, eu não pertenço”, eu corto. “Você sabe disso. Você literalmente me pegou na rua.”
“Você pertence aonde decidir que pertence, kotyonok.” A voz dele é tão baixa e áspera que eu sinto, como se estivesse raspando no chão. Como se ele estivesse me tocando nos lugares certos, sem levantar um dedo. “Principalmente onde eu decido. E, esta noite, você pertence ao meu braço.”
As palavras de Yulian me deixam quente e sem ar. Eu não sei o que eu odeio mais: o fato de ele estar certo — de que as pessoas realmente estão olhando?
Ou o fato de ele achar que é meu dono?
Mas é, uma voz bem pequena na minha cabeça me lembra. Hoje à noite, ele é seu dono.
Qualquer conforto que eu pudesse encontrar no que ele disse é esmagado por esse fato. Um fato simples e cruel da vida.
Ele é rico. Eu sou pobre.
Ele é poderoso. Eu não sou.
Ele é alguém, e eu não sou ninguém.
O resto da noite deixa isso ainda mais claro. Conforme Yulian me arrasta de grupo em grupo, cumprimentando gente importante sem sequer me apresentar, eu percebo que era exatamente esse o papel que eu devia cumprir: enfeite de braço.
Nada além de um acessório bem-vestido pra ele exibir.
— Viu? Ela é minha. Do mesmo jeito que este relógio é meu, este terno é meu, este mundo é meu.
Depois da quinta conversa daquele tipo, eu digo:
— Você podia pelo menos me apresentar.
Yulian me lança um olhar seco, sem emoção.
— Acho que foi você quem insistiu em “nada de nomes”.
— Certo. Mas já que você, de fato, sabe o meu nome—
— Está me parecendo, Srta. Winters, que você já está se arrependendo das próprias regras. — Ele fala com um quase-sorriso, só o suficiente para eu entender o quanto ele está se achando por causa disso.
Babaca.
Se eu tivesse uma bebida na mão, já teria jogado na cara dele. Naquela cara convencida, perfeita, injustamente atraente.
— Preciso tomar um ar — eu digo. — Vou até o bar.
Ele nem pisca.
— Quero você de volta aqui em cinco minutos. Não se atrase.
Eu engulo a vontade infantil de repetir as palavras dele com deboche e saio pisando duro.
O bar ao ar livre fica encaixado num jardim bonito e todo arrumadinho, iluminado por uma combinação estranha de potes de vidro, lâmpadas penduradas e piscas de luz. Como se três cerimonialistas diferentes tivessem brigado e um noivo sem a menor paciência só tivesse dito pra elas fazerem do jeito que quisessem.
Mas, enfim, se a noiva está feliz…
— Qual é a bebida mais forte que uma garota consegue por aqui?
O bartender dá risada. Ele é alto, tem dreadlocks e um sorriso fácil, do tipo pelo qual a Kallie se apaixonaria na hora.
— Depende do tamanho do desastre da sua noite. Numa escala de um a dez, quanto você está sofrendo?
— Onze.
Ele faz uma careta.
— Tão ruim assim, é?
— Aham. — Eu estalo o “P” com força e me jogo no balcão sem a menor elegância.
— Amiga da noiva? — ele pergunta, enquanto prepara a bebida. — Ou do noivo?
— De nenhum dos dois. Você está olhando pra um Rolex de alguém.
— Então acho que finalmente entendi por que esse tipo de coisa tem lá o seu charme.
O flerte casual no tom dele me faz sorrir. Coisas inocentes de bartender, com certeza, mas pelo menos não é aquela zombaria sem graça do Sr. Tanquinho-Ralador-de-Queijo.
Ele empurra o meu copo na minha direção. Eu dou um gole e— opa. Ok. Bem forte mesmo.
— Você acredita que essa foi a coisa mais gentil que alguém me disse a noite inteira?
— Então você precisa arrumar um encontro melhor.
— E eu suponho que esse encontro seria você?
Ele abre um sorriso como se estivesse esperando eu fazer exatamente aquela pergunta — o que, obviamente, ele estava. O bartender abre a boca para soltar a frase matadora.
Mas antes que ele consiga, alguém se coloca entre nós.
Um alguém muito grande, muito rico e muito irritado.
— Não se eu tiver algo a dizer sobre isso — ele rosna.
Minha bebida some da minha mão.
— Ei!
Eu tento pegar de volta, mas sou lenta demais. Só consigo assistir, com horror crescente, Yulian inclinar o copo, virar tudo de uma vez e, então, bater o vidro no balcão, bem na frente do bartender.
— Obrigado pela bebida — ele diz, arrastando as palavras, com um veneno contido. — Mas se eu descobrir que você serviu outra pra minha acompanhante, eu quebro esse copo e enfio os cacos na sua garganta.
O bartender fica em choque, mudo. E eu nem sei direito o que alguém diria diante de uma coisa dessas.
Porque Yulian parece que fala sério pra caralho.
Quando o silêncio se estica pelo tempo exato que ele quer, Yulian apenas faz um gesto curto com a cabeça. Depois se vira pra mim.
— Vamos.
Simples assim, ele agarra meu braço e me puxa de volta para o salão.
Assim que chegamos, eu arranco meu braço da mão dele.
— Qual é o seu problema?! — eu pergunto, furiosa. — Eu só estava—
— Flertando. Você estava flertando. — A voz dele agora queima, fogo ardendo logo abaixo das cinzas daqueles olhos cinzentos. — Eu entendo que você não faz isso profissionalmente, Srta. Winters, mas deixa eu te dar uma dica: se você quer ser paga pelos seus serviços, sair correndo com o pessoal que trabalha aqui não é a melhor forma de conseguir isso.
— Sair com…? Ai, meu Deus. — Minhas bochechas ardem de vergonha. — Eu só fui pegar uma bebida. Uma. Bebida.
— Pra mim, parecia que você estava atrás de mais do que isso.
— Nem um pouco! Ele não faz o meu tipo de jeito nenhum. Ele só estava—
