
Psicopata
Déborah Natália · Concluído · 154.7k Palavras
Introdução
Mais uma obra feita por mim espero que gostem, um beijo Nat.
Capítulo 1
INÍCIO
Apaixonar-se por alguém que mal percebe a sua existência já é doloroso. Mas e quando esse alguém é um homem capaz de tudo para conseguir aquilo que deseja?
Jordam não era apenas mais um morador da comunidade. Ele ocupava uma posição importante no comando, sendo o gerente e um dos homens mais temidos daquele lugar. Frio, calculista e acostumado a ter tudo sob controle, escondia uma obsessão que crescia silenciosamente dentro do peito. Havia uma única pessoa capaz de despertar sentimentos que ele não sabia administrar: Clarice.
Para Jordam, ela era muito mais do que uma simples garota. Era o desejo que não conseguia afastar da mente, a tentação que colocava sua paciência à prova e a única mulher capaz de fazê-lo perder o controle. Ele estava acostumado a conseguir tudo o que queria, mas Clarice ainda não fazia ideia do perigo que representava para o coração daquele homem.
Do outro lado, Clarice tentava sobreviver a uma realidade que nunca escolhera.
Aos dezoito anos recém-completados, a jovem carregava responsabilidades que jamais deveriam ter sido suas. Filha de pais dependentes químicos, aprendera cedo que nem sempre o lar era um lugar de proteção. Em vez de viver os primeiros anos da vida adulta despreocupada com o futuro, precisava lidar com problemas que pareciam não ter fim.
Seu emprego como garçonete em uma lanchonete, distante o suficiente de casa para lhe oferecer alguns momentos de tranquilidade, representava uma pequena esperança. Cada salário recebido era uma oportunidade de guardar dinheiro, construir uma vida diferente e, quem sabe, conquistar a liberdade com que tanto sonhava.
Mas havia um problema que ameaçava destruir seus planos: as dívidas de seus pais com o tráfico.
Clarice tentava juntar dinheiro para resolver aquela situação antes que as cobranças se transformassem em algo ainda pior. Ela sabia que estava entrando em um caminho perigoso, mas também sabia que não conseguiria simplesmente abandonar as pessoas que, apesar de todas as decepções, ainda eram sua família.
O que não imaginava era que o verdadeiro perigo talvez não estivesse apenas nas dívidas.
Jordam tinha ao seu lado o dono do morro, um homem tão imprevisível quanto ele. Juntos, os dois eram conhecidos pela personalidade difícil, pelas decisões extremas e pela capacidade de transformar qualquer situação em um problema. Na comunidade, muitos os chamavam de dupla dos infernos, e não era difícil entender o motivo.
Quando o destino de Clarice se cruzasse definitivamente com o de Jordam, sua vida deixaria de seguir os planos que ela havia traçado.
Porque algumas paixões não chegam para trazer paz. Algumas surgem como tempestades, derrubando certezas, despertando medos e prendendo a gente a sentimentos dos quais parece impossível escapar.
Às vezes, o medo de perder alguém que amamos nos leva a tomar decisões absurdas. Decisões que destroem sonhos, enterram esperanças e nos fazem desejar que a dor pudesse ser transferida para os nossos próprios ombros, poupando aqueles que queremos proteger.
Clarice descobriria que uma promessa feita a um homem do tráfico poderia custar muito mais do que imaginava. Para salvar algumas pessoas, talvez precisasse abrir mão da própria liberdade. Para proteger outras, teria de enfrentar escolhas que jamais pensou ser capaz de fazer.
E Jordam?
Ele precisaria descobrir até onde estaria disposto a ir para manter Clarice ao seu lado. Afinal, existia uma diferença entre amar alguém e acreditar que essa pessoa lhe pertencia. Uma diferença que um homem obcecado talvez não conseguisse compreender sem antes perder tudo.
Entre ameaças, segredos, encontros inesperados e sentimentos perigosos, Clarice e Jordam seriam obrigados a enfrentar as consequências de suas próprias escolhas.
Haveria lágrimas, perdas e feridas difíceis de cicatrizar. A felicidade poderia até encontrar um caminho para os dois, mas isso não significava que permaneceria para sempre.
Porque, quando a obsessão se mistura ao amor, nem sempre é possível distinguir o desejo da destruição.
E algumas promessas, depois de feitas, não deixam espaço para voltar atrás.
Jordam narrando
Lá vinha ela, caminhando pela comunidade com aquele jeito desconfiado, como se quisesse atravessar as ruas sem ser notada por ninguém.
Clarice.
Todo mundo ali a conhecia. Nascida e criada no Morro do Dendê, ela sabia muito bem como as coisas funcionavam naquele lugar. Ainda assim, fazia questão de manter distância das pessoas, respondendo apenas o necessário e evitando conversas que não fossem importantes.
Às vezes, eu me perguntava se aquela postura era apenas o jeito dela ou se tinha vergonha da própria família. Afinal, os pais nunca tinham sido um exemplo de responsabilidade. As escolhas deles haviam transformado a vida da filha em uma sequência de dificuldades que ela tentava esconder atrás daquele silêncio.
Enquanto as garotas da idade dela frequentavam os bailes, namoravam e aproveitavam a juventude, Clarice passava boa parte do tempo em casa. Agora, pelo menos, tinha conseguido um emprego como garçonete em uma lanchonete na pista, a uns três quarteirões da entrada da comunidade.
Eu sabia disso porque sabia muito mais sobre ela do que deveria.
Não era orgulho. Era uma mania que tinha crescido dentro de mim até se tornar algo difícil de controlar.
Eu era louco por aquela mulher.
E não tinha sido de ontem para hoje.
Bastava vê-la atravessando a rua para que minha atenção abandonasse qualquer outra coisa que estivesse fazendo. Eu podia estar no meio de uma conversa importante, resolvendo algum problema do comando ou ouvindo as reclamações dos homens ao meu redor. Bastava alguém mencionar o nome dela para que eu prestasse atenção.
Já tinha perdido a cabeça por muito menos.
Certa vez, um sujeito resolveu dizer, na frente de outras pessoas, que Clarice ainda seria dele. Falou como se ela fosse um objeto que pudesse conquistar e guardar para si.
Eu não gostei.
A discussão terminou de maneira trágica para aquele homem, e a lembrança ainda servia para deixar claro que eu não aceitava qualquer um falando dela daquela forma.
Talvez eu fosse possessivo demais. Talvez houvesse algo errado comigo.
Mas nunca fui um homem acostumado a reconhecer os próprios defeitos.
Desde os quinze anos, eu ocupava uma posição importante no comando. Chegar até ali não tinha sido fácil. Apanhei, enfrentei situações que quase me fizeram desistir e aprendi, muito cedo, que demonstrar fraqueza naquele ambiente poderia custar caro.
Aos poucos, fui me transformando no homem que todos conheciam.
Frio quando precisava ser. Desconfiado por natureza. Impaciente com quem tentava me desafiar.
E completamente incapaz de esquecer Clarice.
As mulheres que se aproximavam de mim sabiam que eu não era um sujeito simples de lidar. Algumas gostavam do perigo que enxergavam na minha personalidade; outras preferiam manter distância. Eu não prometia sentimentos que não tinha e não fazia questão de fingir ser um bom homem.
Ainda assim, nenhuma delas conseguia ocupar o espaço que Clarice tinha conquistado sem sequer tentar.
O problema era que ela não me enxergava da mesma maneira.
Para Clarice, eu era apenas Jordam, o gerente do comando. Um homem que ela conhecia de vista, alguém de quem provavelmente preferia manter distância.
Ela não fazia ideia do quanto eu já tinha pensado nela.
E eu não pretendia revelar tudo de uma vez.
Os pais dela deviam uma quantia considerável ao movimento. O chefe já tinha deixado claro que não pretendia esperar para sempre pelo pagamento. Quando a cobrança chegasse ao limite, alguém teria de responder por aquela dívida.
Eu disse que cuidaria da situação.
O chefe me conhecia bem o suficiente para desconfiar das minhas intenções. Não fez muitas perguntas, mas aquele olhar que lançou na minha direção deixou claro que ele imaginava o que estava passando pela minha cabeça.
Eu não era ingênuo. Sabia que, se me aproximasse de Clarice de maneira direta, ela provavelmente se fecharia ainda mais.
Ela não era como as mulheres que se impressionavam com dinheiro, influência ou promessas bonitas. Clarice tinha aprendido a desconfiar das pessoas, e eu suspeitava que boa parte dessa cautela vinha de tudo o que já havia enfrentado dentro de casa.
Por isso, decidi não apressar as coisas.
Eu queria que ela viesse até mim por vontade própria.
Pelo menos, era assim que eu justificava meus planos.
A verdade era que eu estava acostumado a encontrar soluções para qualquer problema, mas Clarice não era um problema que pudesse ser resolvido com uma ordem. Ela tinha vontades, sonhos e limites que eu ainda não conhecia por completo.
E talvez fosse justamente isso que me deixasse tão obcecado.
Eu queria descobrir o que ela escondia por trás daquele olhar cansado. Queria saber por que nunca aceitava ajuda, por que parecia carregar o peso do mundo nos ombros e por que insistia em enfrentar tudo sozinha.
Queria que ela olhasse para mim e enxergasse algo além do homem que os outros temiam.
Só não sabia se conseguiria oferecer a ela alguma coisa diferente daquilo que conhecia.
Naquela noite, já passava das dez quando a vi subindo o morro.
Eu estava perto de um dos pontos de encontro dos homens, resolvendo algumas questões pendentes, quando reconheci a silhueta dela no meio da rua.
Clarice caminhava com a cabeça baixa, segurando a bolsa junto ao corpo. Parecia cansada. O uniforme da lanchonete ainda estava visível sob a blusa que vestira para voltar para casa, e alguns fios de cabelo escapavam do penteado simples.
Por alguns segundos, esqueci completamente o que estava fazendo.
Acompanhei seus passos com os olhos.
Ela não percebeu minha presença.
Ou percebeu e preferiu fingir que não.
Eu conhecia aquela expressão. Havia preocupação no rosto dela, uma tensão que não combinava com a tranquilidade que tentava demonstrar. Os pais estavam desaparecidos havia algum tempo, e ninguém parecia saber exatamente onde tinham se metido.
Aquilo só podia significar uma coisa.
A dívida continuava crescendo, e Clarice estava prestes a descobrir que não poderia ignorar aquela situação para sempre.
Passei a língua pelos lábios e soltei o ar devagar.
O chefe queria uma solução. Os credores queriam receber. E eu tinha acabado de perceber que a garota por quem era obcecado estava caminhando diretamente para o centro de um problema muito maior do que imaginava.
Poderia simplesmente deixá-la seguir o caminho dela. Poderia procurar os pais, descobrir onde estavam e tentar resolver a situação sem envolver Clarice.
Seria a escolha mais sensata.
Mas eu nunca fui conhecido por fazer apenas aquilo que era sensato.
Observei quando ela parou diante de uma casa simples, procurou as chaves e entrou sem olhar para trás.
A luz da sala se acendeu alguns segundos depois.
Fiquei ali, pensando no que faria a seguir.
Eu queria protegê-la das consequências dos erros dos pais. Essa era a parte que repetia para mim mesmo, a justificativa que tornava meus planos um pouco menos difíceis de aceitar.
Mas também queria que ela precisasse de mim.
Queria ser a primeira pessoa a quem recorreria quando o mundo parecesse desabar. Queria que entendesse que, naquela comunidade, poucos teriam coragem de enfrentá-la, mas que ninguém ousaria ameaçá-la enquanto eu estivesse por perto.
O problema era que proteger alguém e controlar sua vida não eram a mesma coisa.
Eu sabia disso.
Só não estava disposto a pensar muito sobre o assunto.
Passei a mão pelo rosto e voltei a atenção para os homens que me aguardavam. Havia trabalho a fazer, decisões a tomar e uma dívida que precisava ser resolvida antes que o chefe perdesse a paciência.
Clarice ainda não sabia, mas nossos caminhos estavam prestes a se cruzar de uma maneira que nenhum dos dois conseguiria ignorar.
Eu não tinha certeza de como ela reagiria quando descobrisse o que estava acontecendo com os pais. Também não sabia se, depois daquela noite, ela me enxergaria como uma possibilidade de salvação ou como mais um homem de quem deveria fugir.
Mas uma coisa eu sabia.
Eu não pretendia continuar sendo apenas o gerente que ela cumprimentava de longe.
A dívida dos pais poderia ter colocado Clarice no meu caminho, mas não seria suficiente para conquistar sua confiança. Se eu quisesse que ela permanecesse perto de mim, teria de enfrentar uma verdade que nunca gostei de admitir.
Não bastava conseguir aquilo que eu desejava.
Eu precisava descobrir se era capaz de merecer.
E, pela primeira vez em muitos anos, não tinha a menor ideia de como fazer isso.
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