Capítulo 2

Helena não pediu licença para abrir as cortinas da sala.

— Essa casa está escura demais — disse, puxando o tecido com um movimento teatral. — Doença gosta de sombra.

A luz da manhã entrou sem delicadeza. Rafael fechou um pouco os olhos, mas não reclamou. Antes, ele odiava quando alguém mexia na posição das cortinas sem perguntar, porque a claridade batia direto na tela do notebook. Marina esperou a irritação, a frase seca, o gesto de levantar. Nada veio.

Caio já estava sentado no sofá com os tênis sobre o tapete claro.

Rafael também odiava sapato no tapete.

Marina percebeu que estava acumulando provas íntimas como quem conta hematomas. A xícara. A gota. A cortina. O tapete. Pequenas ausências que qualquer médico chamaria de detalhe e qualquer esposa reconheceria como desastre.

— Trouxe sopa — Helena anunciou, colocando uma vasilha na bancada. — Sem pimenta, sem gordura, sem essas invenções que você gosta de fazer.

Marina não respondeu.

Helena sorriu.

— Você está abatida, querida. Dormiu?

— Dormi o suficiente.

— Não parece. Precisa aceitar ajuda.

— Ajuda com Rafael, sim. Com a empresa, não.

Caio largou o celular no colo.

— De novo isso?

— Foi você que começou ontem.

— Porque é urgente. O financeiro precisa de aprovação, fornecedores estão perguntando, tem contrato com hospital esperando aditivo. Você acha que empresa de tecnologia médica funciona com sentimento?

Marina soltou uma risada curta. Sem humor.

— Eu sei exatamente como funciona. Eu montei o atendimento a clínicas, desenhei o fluxo de implantação, negociei os primeiros contratos quando vocês dois diziam que aquilo era "aplicativo de médico rico".

Helena levou a mão ao peito, ofendida por uma verdade antiga.

— Ninguém está diminuindo sua contribuição.

— Estão tentando transformar minha contribuição em lembrança.

Rafael mexeu os dedos sobre a mesa. Marina voltou os olhos para ele, esperando algum sinal. Ele parecia cansado, mas não desconfortável com a discussão. Era como se a violência da conversa passasse ao lado dele, sem tocar.

Helena se aproximou dele.

— Rafa, meu filho, você quer paz, não quer?

Ele assentiu.

— Então diga para a Marina facilitar as coisas.

Marina sentiu o estômago embrulhar.

— Não fala por ele.

— Eu estou cuidando dele.

— Você está usando o cansaço dele para conseguir documentos.

O sorriso de Helena sumiu por um instante. Foi rápido, mas suficiente.

— Cuidado com o que insinua na minha casa.

— Esta casa é minha e do Rafael.

— Tudo que ele construiu também é sangue da família Azevedo.

Marina olhou para Caio.

— Que conveniente lembrar de sangue quando o dinheiro começou a circular.

Caio levantou.

— Olha aqui...

Rafael se encolheu na cadeira.

O movimento cortou Marina mais fundo que o insulto. O antigo Rafael não se encolhia. Ele ficava mais quieto quanto mais perigoso se tornava. A calma dele antes de uma decisão difícil era quase assustadora. Agora aquele homem parecia preparado para obedecer qualquer voz mais alta.

Helena percebeu também. E gostou.

— Chega — disse, doce de novo. — Marina, querida, ninguém quer briga. Só precisamos recolher alguns documentos: contrato social, certificados digitais, senhas administrativas e procurações. O advogado da família revisa tudo.

— Qual advogado?

— Um de confiança.

— De confiança de quem?

Caio riu.

— Você sempre foi controladora assim?

Marina deu um passo na direção dele.

— E você sempre foi interessado assim?

Helena entrou entre os dois.

— Rafael não precisa desse clima. Se você ama seu marido, vai parar de transformar tudo em disputa.

Era sempre assim. Helena fazia do amor uma coleira e chamava obediência de cuidado.

Marina respirou fundo.

— Rafael — ela chamou.

Ele ergueu o rosto.

Ela caminhou até o escritório, pegou uma pasta preta qualquer e deixou sobre a mesa. Não era uma pasta importante. Dentro havia manuais antigos e notas fiscais. Na etiqueta, ela escreveu de propósito: "contratos_final_rafael".

Errado.

Completamente errado.

O padrão dele era ano, mês, projeto, versão. Rafael corrigia até etiqueta de caixa de mudança. Se visse aquilo antes do acidente, teria suspirado, pego uma caneta e arrumado sem pedir.

— Essa pasta está boa assim? — Marina perguntou.

Rafael olhou.

— Está.

Caio desviou o rosto, mas Marina viu o canto da boca dele subir.

Helena não entendeu o teste. Ou fingiu não entender.

— Ótimo, então podemos...

— Não — Marina disse.

O som saiu mais firme do que ela esperava.

Rafael piscou.

— Não?

— Não vou entregar documentos hoje.

Caio pegou o celular, irritado.

— Você está criando problema para todo mundo.

— Talvez.

Helena se aproximou tanto que Marina sentiu o perfume doce.

— Uma esposa inteligente sabe a hora de sair da frente.

— E uma mãe decente sabe a hora de não empurrar o filho inválido para assinar papel.

O rosto de Helena endureceu.

— Você vai se arrepender dessa frase.

Rafael olhou para a mãe com a obediência vaga de quem escuta comando.

— Mãe...

Helena tocou a cabeça dele.

— Está tudo bem, meu amor. A Marina está nervosa.

Marina quis gritar que não estava nervosa, estava vendo. Mas ver não bastava quando o mundo inteiro preferia uma explicação confortável.

Caio passou por ela na saída.

— A gente volta. Com calma ou com advogado.

Helena recolheu a bolsa.

— E pense no que é melhor para ele, querida. Não no que mantém você se sentindo importante.

A porta fechou.

O apartamento ficou grande demais.

Marina voltou à mesa, pegou a pasta com a etiqueta errada e colocou diante de Rafael.

— Você realmente acha que isso está certo?

Ele olhou por tempo demais.

— Se você escreveu, deve estar.

Antes do acidente, Rafael confiava nela. Mas jamais deixaria uma pasta errada passar. A confiança dele não apagava seu método. Não apagava quem ele era.

Marina sentou devagar.

— Rafa, qual foi o primeiro projeto que fizemos juntos?

Ele franziu a testa. A pergunta parecia atravessar névoa.

— A empresa?

— Antes da empresa.

Ele abriu a boca. Fechou. Procurou no rosto dela uma resposta que ela não podia dar.

Marina sentiu o choro subir, mas o segurou.

Na tela do celular, uma mensagem de Caio apareceu:

"Amanhã às 10h. Procurações, acesso bancário e contrato social. Não força a família a resolver isso por outro caminho."

Marina leu uma vez.

Depois outra.

Rafael, ao lado dela, virou a xícara azul sem perceber.

Não para a janela.

Para Helena, que já tinha ido embora.

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