Capítulo 3

O neurologista falou com a voz de quem já tinha acalmado muitas famílias e acreditava que isso o tornava imune ao desespero de qualquer uma delas.

— Alterações de personalidade são comuns depois de trauma cranioencefálico — explicou, olhando a ressonância no monitor. — Principalmente quando há lesão frontal. Apatia, baixa iniciativa, dificuldade de planejamento, sugestionabilidade. Tudo pode melhorar com reabilitação.

Marina segurava a bolsa sobre o colo.

— Doutor, não é só apatia. Ele não reconhece padrões que eram obsessivos para ele. Ele concorda com qualquer coisa. Ele não consegue responder perguntas simples sobre a nossa vida.

— Memória afetiva também pode ser afetada.

— Mas ele lembra nomes.

— Nome é uma coisa. Vínculo funcional é outra.

Rafael estava sentado ao lado dela, quieto, olhando para as próprias mãos. Helena ocupava a cadeira do outro lado com postura impecável. Caio ficou em pé, perto da porta, como se tivesse pressa de sair dali para algo mais importante do que o cérebro do irmão.

— Então ele não deveria assinar documentos — Marina disse.

O médico ajeitou os óculos.

— Depende do documento. Para atos complexos, o ideal é avaliação neuropsicológica e, em alguns casos, laudo específico de capacidade.

— E para atos de empresa?

Helena soltou um suspiro audível.

— Marina, por favor. Estamos numa consulta médica, não num escritório.

Marina não tirou os olhos do médico.

— Para atos de empresa?

— Eu recomendaria cautela — ele disse. — Mas não posso impedir a família de organizar cuidados ou providências administrativas.

Família.

Outra vez aquela palavra útil.

Caio cruzou os braços.

— Ouviu? Providências administrativas.

Marina se levantou.

— Ouvi "cautela".

Helena também se levantou, mais devagar.

— O que todos ouvimos é que você está transformando sintomas neurológicos em teoria de conspiração.

O médico tossiu, desconfortável.

— Senhora Helena...

— Não, doutor, me desculpe. Mas alguém precisa dizer. Meu enteado quase morreu. A esposa dele, em vez de se dedicar à recuperação, está obcecada com controle de empresa, banco, documento. Parece até que tem medo de perder alguma coisa.

Marina sentiu o golpe acertar porque era público. Havia uma recepcionista do lado de fora, dois pacientes no corredor e uma enfermeira com prontuários na mão. Helena sabia escolher palco.

— Eu tenho medo de que usem Rafael.

Caio riu alto.

— Usar? A mãe dele?

— Madrasta — Marina corrigiu.

O rosto de Helena se contraiu.

— Criei Rafael desde os doze anos.

— E ele sustentou sua casa desde os vinte e oito.

O corredor ficou quieto.

Rafael levantou os olhos, assustado com o silêncio. Não com a frase. Com o silêncio.

Helena levou a mão à boca, como se Marina tivesse cuspido no chão.

— Você está mostrando quem é.

— Finalmente.

Caio avançou meio passo.

— Você não tem respeito.

— Tenho memória.

O médico pediu que todos se acalmassem. Marina quase riu. Os homens de jaleco sempre pediam calma quando uma mulher começava a falar com precisão.

Helena mudou a estratégia. Seus olhos encheram de lágrimas na velocidade de quem treinou diante do espelho.

— Eu só quero que meu filho seja protegido.

Marina respondeu baixo:

— Eu também.

— Então pare de se colocar entre ele e a família.

— Eu sou a família dele.

Caio ergueu o celular.

— Vou mandar o endereço do escritório. Dez da manhã, como combinado. Leva procuração, token bancário, certificado digital e a pasta societária. O jurídico está esperando.

— Que jurídico?

— O que resolve coisas quando alguém decide atrapalhar.

O médico se levantou.

— Isso não deve ser discutido aqui.

— Concordo — Marina disse. — Por isso não vou discutir.

Ela pegou a mão de Rafael.

Ele deixou. Não apertou de volta.

No estacionamento, o sol batia no asfalto com violência. Marina abriu a porta do carro para Rafael. Ele entrou sem perguntar para onde iam. Esse era outro detalhe. Antes, Rafael sempre perguntava o trajeto, o trânsito, a rota alternativa. Não para controlar Marina, mas porque a cabeça dele calculava caminhos como se respirasse.

Helena parou atrás dela.

— Você pode atrasar, mas não pode impedir.

Marina fechou a porta do passageiro.

— Impedir o quê?

— Que Rafael seja cuidado por quem entende o peso do sobrenome dele.

— O sobrenome dele não pagou a primeira folha de funcionários. Eu paguei, com meu limite estourado.

Helena se aproximou, voz baixa agora, sem plateia.

— Você foi útil. Não confunda utilidade com direito.

A frase entrou limpa, sem disfarce. Marina guardou. Algumas violências são tão perfeitas que viram documento, mesmo sem gravação.

Caio apareceu ao lado da mãe.

— Última chance, Marina. Amanhã, dez horas. Se não entregar, a gente protocola a alteração contratual com o que já temos.

Marina sentiu o ar ficar fino.

— Que alteração?

Ele sorriu.

— A que o Rafael assinou.

Rafael estava dentro do carro, olhando para frente.

Marina olhou para ele através do vidro.

— Quando?

Caio deu de ombros.

— Ele é sócio majoritário. Pode decidir.

— Ele mal consegue decidir o almoço.

— Isso é opinião de esposa emocional.

Helena tocou o braço do filho, fingindo freio.

— Vamos, Caio.

Mas os olhos dela diziam que a frase tinha cumprido seu papel.

No caminho de volta, Marina não ligou o rádio. Rafael ficou em silêncio. Perto de casa, ela fez uma pergunta que odiou precisar fazer.

— Rafa, você assinou algum documento para o Caio?

Ele demorou.

— Acho que sim.

— O que era?

— Ele disse que era para ajudar.

— Você leu?

— Eu confio nele.

Marina quase perdeu o controle do volante.

Rafael nunca confiara em Caio com uma senha de streaming.

Em casa, ela ajudou o marido a deitar. Quando saiu do quarto, encontrou outra mensagem de Caio:

"Procurações e acessos amanhã. Se você sumir com os papéis, a gente pede sua remoção formal da administração. Você não é indispensável."

Marina leu a palavra remoção.

Depois abriu o computador de Rafael.

A senha antiga não funcionou.

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