Capítulo 4

Marina tentou três senhas antes de parar.

Não porque tivesse desistido. Porque Rafael tinha uma regra: depois de três tentativas, qualquer sistema sensível bloqueava e avisava alguém. O marido dela não confiava nem na pressa da própria esposa. Principalmente na pressa.

O notebook estava sobre a mesa do escritório, ao lado de uma mancha circular de copo que ninguém tinha limpado. Marina passou o dedo pela marca seca e sentiu uma raiva estranha, quase doméstica, como se aquela água no móvel fosse a assinatura de todos que tinham invadido a vida deles.

Ela respirou.

Se Rafael tinha perdido a si mesmo, talvez o Rafael de antes tivesse previsto a perda.

Era assim que ele pensava. Não esperava confiança onde podia criar redundância. Não deixava uma porta sem chave reserva. Não guardava uma verdade importante em um único lugar.

Marina abriu o celular dele. A biometria ainda funcionou com o dedo de Rafael, enquanto ele dormia. Ela odiou fazer aquilo. Odiou mais ainda lembrar que Caio provavelmente já tinha feito.

Aplicativos de banco. Bloqueados por token.

E-mail. Caixa limpa demais.

Mensagens. Conversas apagadas com Caio e Helena.

Ela quase fechou tudo quando viu o ícone do aplicativo de controle doméstico e finanças que os dois usavam desde o começo do casamento. "Casa Azul". Nome bobo, escolhido depois de uma discussão sobre planilhas que terminou com os dois pintando uma parede da sala de azul às duas da manhã.

Marina abriu.

Lista de contas. Energia, condomínio, mercado, farmácia, fisioterapia.

Nada.

Foi até a seção de despesas antigas. Rafael arquivava tudo. Filtrou por "projeto". Nada. Por "médico". Nada. Por "Caio". Nenhum resultado.

Então olhou para a xícara azul sobre a mesa.

Alça para a janela.

A janela.

No aplicativo, havia uma aba chamada "Janelas" que eles usavam para registrar manutenção do apartamento. Marina quase nunca abria. Tocou.

Três itens:

Janela sala.

Janela quarto.

Janela azul.

O terceiro não existia.

Ela sentiu a pele arrepiar.

Tocou em "Janela azul".

A tela pediu senha.

"Data do primeiro projeto."

Marina levou a mão à boca.

Não era a fundação da Azevedo Health. Não era o casamento. Não era o primeiro beijo. Era um trabalho pequeno, mal pago, para organizar prontuários digitais de uma clínica de fisioterapia no Tatuapé. O projeto que os dois fizeram antes de qualquer empresa, antes de qualquer dinheiro, antes de Helena parar de chamar Rafael de sonhador inútil.

Marina digitou: 14082014.

A tela abriu.

Havia apenas um arquivo de vídeo e uma pasta compactada.

O nome do vídeo era: "se_a_xicara_falhar".

Marina não percebeu que estava chorando até uma gota cair no touchpad.

Ela olhou para a porta do quarto. Rafael dormia. Ou o corpo dele dormia. O homem do vídeo, fosse o que fosse, talvez ainda estivesse inteiro ali.

Ela clicou.

A imagem abriu com Rafael sentado no escritório, usando a camisa azul-marinho que Marina tinha passado numa terça-feira qualquer. Ele parecia cansado. Não doente. Cansado de carregar uma verdade sozinho.

— Mari — ele disse na gravação.

Marina prendeu a respiração.

— Se você está vendo isso, eu falhei em te convencer antes. Ou não tive tempo. A primeira coisa: não discuta com minha mãe nem com o Caio sem testemunha. A segunda: não entregue o certificado digital. A terceira: se eu estiver vivo e diferente, não confie na minha concordância.

Marina apertou a mão contra a boca.

Rafael continuou:

— Eu encontrei tentativas de acesso ao financeiro da empresa vindas de um e-mail ligado ao Caio. Depois descobri contato dele com um homem chamado Vítor Sampaio. Dívidas. Gente perigosa. Minha mãe sabe mais do que admite. Eu tentei resolver com uma condição: eles receberiam dividendos altos se ficassem longe da administração. Não aceitaram.

O vídeo tremia um pouco. Rafael devia ter gravado tarde, sozinho.

— Tem documentos com a Beatriz Lima. Advogada. Você vai encontrá-la por uma pista no repositório antigo, porque se eu colocar o contato aqui e alguém abrir antes de você, acabou. Eu sei que isso parece paranoia. Mas paranoia é só método antes da prova aparecer.

Marina riu e chorou ao mesmo tempo. Aquilo era Rafael. Inteiro. Irritante. Preciso. Vivo na forma mais dolorosa possível.

Ele inclinou o rosto para a câmera.

— Se minha mãe ou Caio pedirem procuração, contrato social, alteração contratual ou cessão de quotas, ganhe tempo. Não enfrente ainda. Primeiro, banco. Conta conjunta. Peça extrato completo dos últimos noventa dias, autorizações vinculadas e cópias de qualquer procuração usada. Você tem direito. Não aceite gerente te tratando como viúva antecipada.

Um som veio do corredor.

Marina pausou o vídeo.

Silêncio.

Ela esperou, coração batendo na garganta. Nada.

Deu play.

Rafael respirou fundo na tela.

— Se você está vendo isso, é porque eles já começaram. Não chore ainda. Vá ao banco primeiro.

A frase terminou e a tela escureceu.

Por alguns segundos, Marina ficou parada diante do reflexo do próprio rosto no monitor. O choro continuava ali, mas algo mais tinha entrado por baixo dele. Não era coragem. Coragem parecia palavra bonita demais.

Era função.

Rafael tinha deixado uma rota. E, pela primeira vez desde o acidente, Marina sabia qual era o próximo passo.

O celular vibrou.

Mensagem de um número desconhecido:

"Senhora Marina, aqui é Renata Salles, gerente da conta Azevedo. Precisamos confirmar sua presença amanhã para regularizar uma transferência já autorizada pelo senhor Rafael."

Marina olhou para o vídeo pausado, para a xícara azul e para o quarto onde Rafael respirava como um estranho.

Depois respondeu:

"Estarei aí às 9h."

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