Capítulo 5

O ar abafado da noite pairava pesado entre eles quando o celular de Charlotte rompeu o silêncio com seu toque incômodo. O pulso dela acelerou ao ver o identificador de chamadas — a mãe de Melvin. Seus dedos finos tremiam enquanto ela atendia, dolorosamente consciente de como o tecido do vestido tinha subido um pouco pela coxa quando ela se mexera para pegar o telefone.

— Sim, a gente já está quase em casa — disse, a voz adoçada apesar da tensão que irradiava do marido. Ela lançou um olhar furtivo para o perfil rígido de Melvin — o maxilar forte que ela antes traçara com beijos famintos agora estava travado em evidente desagrado. A presença dele ao lado dela era elétrica, perigosamente intensa, despertando lembranças de noites em que essa intensidade havia sido canalizada para a paixão, e não para a raiva.

Quando a ligação terminou, Charlotte expirou suavemente, o som íntimo no espaço confinado do carro.

— Era a sua mãe — sussurrou, os lábios ainda formigando do tanto que ela os mordera nervosa durante a conversa.

O silêncio entre eles crepitava com acusações não ditas. Charlotte conseguia sentir o calor emanando do corpo de Melvin, tão perto e ao mesmo tempo impossivelmente distante. Ela se lembrou de uma época em que o silêncio entre eles era confortável, frequentemente pontuado por olhares cúmplices e mãos que vagueavam. Agora parecia um abismo que nenhum dos dois sabia como atravessar.

— Você anda falando com a minha mãe sem o meu consentimento? — Melvin perguntou finalmente, a voz em um rosnado baixo que fez um arrepio involuntário percorrer a espinha de Charlotte.

Os olhos dos dois se encontraram pelo retrovisor — os dele, escuros e fumegantes de suspeita; os dela, grandes e luminosos de apreensão. A tensão entre eles era palpável, uma força quase física pressionando contra a pele dela.

— Ela só ligou pra saber se a gente já tinha chegado — respondeu Charlotte, umedecendo os lábios sem perceber. Ela girou a aliança de casamento — o diamante que um dia simbolizara um amor sem limites agora parecia um lindo grilhão. A lembrança do pedido de casamento surgiu sem ser convidada: Melvin de joelhos, as mãos firmes segurando as dela, os olhos prometendo uma vida inteira de devoção que agora soava como uma piada cruel.

— Não foi isso que eu perguntei. — Cada palavra caiu como uma carícia envenenada. — Você conversa com a minha mãe sem o meu…

— Não converso — ela o interrompeu, a súbita coragem na voz surpreendendo os dois. O espaço entre eles pareceu se carregar de eletricidade, lembrando o início do namoro, quando cada troca de palavras era uma deliciosa queda de braço, quase sempre terminando com corpos enroscados em lençóis encharcados de suor.

— Se você não anda falando com ela, por que foi que ela te ligou? — As mãos de Melvin apertaram ainda mais o volante, as veias nos antebraços saltadas — os mesmos braços que um dia a seguraram com uma ternura tão possessiva que ela se sentira completamente tomada por ele.

Charlotte virou o rosto para a janela, observando as primeiras gotas de chuva caírem, riscadas no vidro como lágrimas.

— Ela pode ter ligado por educação, não acha? — Seu reflexo a encarou de volta — ainda bonita, mas com olhos que haviam se tornado mais sábios e mais tristes.

— Educação? — A risada áspera que escapou dos lábios dele não tinha humor algum, mas ainda assim acendeu um calor traiçoeiro no fundo do corpo dela — a risada dele sempre fora sua perdição, até agora. — Eu não acho.

A chuva se intensificou, martelando no teto do carro. Cada gota ecoava o ritmo acelerado do coração de Charlotte. O espaço fechado se encheu do cheiro do perfume de Melvin — sândalo e algo que era só dele — um cheiro que ainda assombrava os sonhos dela e permanecia nos lençóis muito tempo depois de ele sair da cama que haviam dividido.

— Por que você diria isso? — ela perguntou, mas o silêncio dele foi a única resposta, o perfil dele sendo iluminado pelos postes que passavam — lampejos de luz que destacavam a curva sensual da boca dele, agora rígida.

Quando finalmente voltou a falar, a voz dele tinha ficado mais grave, fazendo um calor involuntário percorrer as veias dela, apesar da frieza das palavras:

— Eu não quero que você tenha nenhuma conversa com a minha mãe na minha ausência. — O carro acelerou um pouco quando eles entraram na longa alameda. — E não tente ligar pra ela. Quando ela ligar pra você, dê um jeito de encontrar um bom motivo pra não atender.

Charlotte virou-se completamente para encará-lo, estudando o homem cujo corpo conhecia tão intimamente quanto o próprio, mas cujo coração continuava um enigma. A camisa branca dele estava aberta no colarinho, revelando a cavidade da garganta onde ela já tinha encostado os lábios incontáveis vezes. Mesmo na raiva dele, o desejo que sentia por ele fervia sob a indignação.

— E se não tiver nenhum bom motivo pra eu não atender as ligações dela? — A voz dela saiu rouca, desafiadora. — Você acha que eu devo ignorar?

— Eu não me importo se tem bom motivo ou não — ele rebateu, os olhos descendo por um instante até a boca entreaberta dela antes de se desviarem de novo — um momento de fraqueza rapidamente encoberto por uma nova onda de raiva. — Só dê um jeito de não falar com ela se eu não mandar. Você também não pode encontrar com ela.

— Eu jamais faria isso. Eu não estou planejando…

— Eu não acho — Melvin interrompeu, a intensidade do olhar fazendo a pele dela corar apesar de si mesma.

As sobrancelhas de Charlotte se franziram, formando um pequeno vinco entre elas que ele já tinha beijado com ternura em tempos mais afetuosos.

— O que você quer dizer com isso?

As acusações dele jorraram como uma maré escura — sobre manipulação, sobre usar o carinho da mãe dele, sobre se aproveitar das pessoas. Cada palavra a atingia como um golpe físico, e mesmo assim ela não conseguia deixar de notar como a paixão dele — mesmo na raiva — despertava algo primitivo dentro dela. Esse era o paradoxo da relação dos dois: mesmo nos momentos de dor mais profunda, a atração entre eles continuava inegável.

Ela fechou os olhos, os cílios longos projetando sombras nas bochechas, a respiração curta e entrecortada. Recolheu-se para a escuridão interior, onde vinham à tona lembranças dos primeiros tempos — as mãos de Melvin explorando o corpo dela com curiosidade reverente, as promessas sussurradas contra a pele, o peso dele a prensando em colchões, contra paredes, sobre mesas — uma paixão que tinha consumido os dois antes de a desconfiança envenenar o que os ligava.

Aquela viagem pareceu se estender para sempre até que, finalmente — e por misericórdia — o carro parou diante da casa deles. Charlotte saiu antes mesmo de o motor desligar, o ar fresco da noite chocando contra a pele aquecida. O vestido grudava no corpo à medida que a chuva aumentava, o tecido fino ficando quase transparente. Ela ficou parada diante da mansão imponente, com as janelas iluminadas por uma luz quente que prometia conforto, mas nunca cumpria.

Ela não percebeu a presença de Melvin ao lado dela até que os dedos dele roçaram seu braço — o toque mandando um choque elétrico pela pele úmida de chuva, seu corpo a traindo com a resposta imediata à proximidade dele.

— Você não vai entrar? — A voz dele tinha amolecido até virar um veludo perigoso, os olhos baixando por um instante para onde a respiração acelerada fazia o peito dela subir e descer de forma visível. — Se não vai, é melhor sair da frente e parar de encarar feito uma idiota. Isso se chama porta, não espelho.

A crueldade casual das palavras dele contrastava com o calor em seu olhar, enquanto as gotas de chuva desciam pelo pescoço dela até desaparecerem sob a gola. Charlotte saiu da frente em silêncio, observando enquanto ele desaparecia dentro da casa, o passo confiante que antes a deixara fraca de desejo agora fazendo-a arder de ressentimento.

Em vez de entrar logo em seguida, ela se deixou levar pelo jardim, a chuva encharcando sua roupa até que se tornasse uma segunda pele. A tempestade combinava com a sua confusão interna — violenta e imprevisível. De vez em quando, relâmpagos iluminavam o terreno, transformando o familiar em algo selvagem e indomado. A chuva se misturava às lágrimas que não chegavam a cair em seu rosto quando ela finalmente admitiu para si mesma que, apesar de tudo, seu corpo ainda ansiava pelo toque dele.

Quando finalmente voltou à porta, o vestido grudando em cada curva, Hannah apareceu no batente.

— Seja bem-vinda, senhora. — Os olhos da governanta se arregalaram levemente ao ver Charlotte encharcada. — Eu achei que a senhora não fosse voltar pra casa hoje.

Os lábios de Charlotte se curvaram em algo que lembrava um sorriso, enquanto a água da chuva escorria de seu cabelo pelo pescoço.

— Mudei de ideia — ela disse, ciente de como devia estar parecendo — desgrenhada e vulnerável. — Onde está o meu marido? Ele já voltou?

— O senhor Melvin chegou faz alguns minutos. Eu vi ele entrando no escritório com uns documentos.

— Obrigada — murmurou Charlotte, entrando na casa. Deixou pegadas molhadas no mármore enquanto seguia em direção ao escritório de Melvin, o vestido encharcado fazendo sons suaves contra a pele a cada passo. O corredor vazio amplificava esses ruídos íntimos, tornando-a cada vez mais consciente do próprio corpo.

A porta do escritório dele estava fechada, mas não trancada. A mão dela pairou sobre a maçaneta, o conflito travando uma batalha dentro dela. Então, quase por vontade própria, sua mão girou a maçaneta, e ela abriu a porta apenas o suficiente para espiar para dentro.

Melvin estava de costas para ela, o paletó largado de lado, a camisa branca colada aos ombros largos que ela já marcara com as unhas em noites de paixão. Com o celular pressionado à orelha, a voz dele chegou até ela, com palavras que gelaram o desejo em suas veias.

— Como você pôde confiar a ela documentos dessa importância? — O tom dele pingava desdém. — Ela não é qualificada... Não, eu revisei o trabalho dela. É medíocre, na melhor das hipóteses.

O coração de Charlotte se partiu ao perceber que ele falava dos documentos nos quais ela tinha se debruçado a semana inteira. A intimidade daquela traição era avassaladora — enquanto ela passava noites em claro, o corpo doendo de cansaço e solidão, ele estava planejando minar o trabalho dela pelas costas.

Cada comentário desdenhoso sobre as capacidades dela abria feridas novas por cima de cicatrizes antigas. Ela levou uma mão trêmula à boca, de repente consciente de como a roupa encharcada gelava até os ossos — uma manifestação física do frio que se espalhava pelo coração.

Ela se afastou da porta, e as acusações que ele fizera mais cedo sobre a própria mãe de repente passaram a fazer um sentido terrível. Ele não só não confiava nela com a família dele; ele desconfiava de tudo nela — da mente dela, das capacidades dela, talvez até da fidelidade dela, embora Charlotte nunca lhe tivesse dado motivo para duvidar.

Charlotte fugiu para o quarto, fechando a porta com um cuidado quase delicado antes de se permitir desmoronar. Escorregou até o chão, encostada na porta, o vestido molhado tornando o movimento ao mesmo tempo gracioso e desesperado. As lágrimas agora corriam soltas, misturando-se com as gotas de chuva que ainda se agarravam ao rosto.

Com as mãos trêmulas, ela começou a tirar a roupa molhada, cada gesto sendo ao mesmo tempo rendição e retomada de si mesma. Em pé, nua, diante do espelho de corpo inteiro, estudou-se à luz fraca — o corpo que antes deixara Melvin fora de si, que ele havia reverenciado com lábios e mãos e adorações sussurradas. Ela continuava bonita, ainda desejável, e mesmo assim ele olhava através dela como se fosse de vidro.

A vulnerabilidade da nudez combinava com a crueza das emoções. Ela seguiu com os dedos as curvas e linhas do próprio corpo, lembrando como era se sentir realmente vista, realmente desejada. A lembrança da paixão era quase pior do que a ausência dela — um fantasma de sensação que ainda a assombrava.

Charlotte se envolveu em um robe de seda, o tecido frio sussurrando sobre a pele. Orgulhava-se da própria força, de nunca desabar por pior que as coisas ficassem. E, no entanto, ali estava ela, desfeita pela constatação de que o homem que um dia jurara que não conseguia viver sem o gosto da pele dela agora a via apenas como um estorvo.

Ela sabia que aquilo não podia durar. Aquele momento de fraqueza era um luxo que não podia se permitir. Enxugando as lágrimas, Charlotte foi até a penteadeira. A mulher que a encarava do espelho parecia diferente — os olhos traziam uma nova firmeza sob o vermelho recente do choro, os lábios firmados em determinação.

Amanhã ela enfrentaria o mundo com a armadura bem ajustada, a vulnerabilidade escondida atrás de sorrisos treinados. Ninguém no trabalho veria as rachaduras em sua compostura. E Melvin — Melvin jamais saberia que ainda tinha o poder de fazer o corpo dela reagir à presença dele, mesmo enquanto partia seu coração com tanta desconfiança.

Enquanto se preparava para dormir, cada gesto metódico era um passo na reconstrução de seus muros. Os dedos dela demoraram sobre os lençóis de seda que os dois costumavam compartilhar — lembranças de corpos enroscados e encontros ofegantes agora manchadas pela realidade presente. A distância física entre os corpos dos dois à noite havia crescido na mesma proporção do abismo emocional que os separava.

Charlotte se enfiou sozinha entre os lençóis frios, o corpo ainda lembrando o que a mente queria esquecer. certas coisas, uma vez vividas, nunca deixam de ser sentidas. Às vezes a paixão, como a confiança, se transforma em espada de dois gumes — capaz de criar o prazer mais intenso e a dor mais profunda.

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