Capítulo 4

Quando o professor James Thornton ergueu os olhos do notebook, quase não reconheceu a mulher parada à porta de seu escritório.

Ela usava um casaco de lã creme, um gorro de tricô e uma máscara descartável que lhe cobria quase todo o rosto.

Só a reconheceu quando ela falou:

— Professor.

James piscou, surpreso.

— Avery?

Com um leve sorriso, ela abaixou a máscara.

— Quanto tempo.

Ele se levantou na mesma hora.

— Tempo demais.

Depois de observá-la por mais um instante, balançou a cabeça e soltou uma risada afetuosa.

— Quase não reconheci você.

Avery sorriu, constrangida.

— Ultimamente, nem eu me reconheço.

A expressão de James se suavizou.

— A gravidez muda muita coisa.

Ele indicou o sofá.

— Por favor, sente-se.

James serviu uma xícara de chá quente e a colocou diante dela.

— Tome, para se aquecer.

— Obrigada.

Ele se sentou de frente para Avery.

— Você está de quantas semanas?

— Vinte e cinco.

James assentiu, pensativo.

— O programa de Stanford começa no fim de janeiro.

Avery envolveu a xícara com as duas mãos.

— Eu queria saber se seria possível adiar meu ingresso.

Ele demorou um pouco para responder. Em vez disso, perguntou em voz baixa:

— Por que Stanford?

Avery baixou os olhos.

— Porque, depois que o bebê nascer...

Ela hesitou antes de continuar:

— Adrian quer o divórcio. E eu não quero continuar em Londres depois disso. Quero recomeçar.

O silêncio tomou conta do escritório.

James se lembrou da jovem ambiciosa que tinha sido a aluna mais brilhante de sua disciplina na pós-graduação.

Ela falava o tempo todo sobre mercados financeiros. Transparência corporativa. Sobre construir uma carreira que fizesse diferença.

Até se apaixonar.

Depois disso, todo o resto ficou em segundo plano.

Ao vê-la naquele estado, James não conseguiu conter a decepção.

Não com Avery.

Mas com as escolhas que ela tinha feito por alguém que nunca soubera valorizá-la.

Por fim, sorriu.

— Fico feliz que você finalmente tenha decidido escolher a si mesma.

Avery levantou os olhos.

— Você e Adrian nunca combinaram.

Não havia crueldade no tom dele. Apenas sinceridade.

— Ele é brilhante. E você também. Mas inteligência, por si só, não torna duas pessoas compatíveis.

Ela permaneceu em silêncio.

Anos antes, James a tinha aconselhado a não aceitar o cargo na Blackwood Capital.

Avery não lhe dera ouvidos.

Naquela época, não queria nada além de trabalhar ao lado de Adrian.

Olhando para trás...

Talvez todos tivessem previsto o fim, menos ela.

Após um instante, perguntou em voz baixa:

— Que tipo de pessoa você acha que Adrian realmente é?

James refletiu com cuidado antes de responder:

— Alguém que sempre coloca o dever acima dos sentimentos. Ele faz o que precisa ser feito para alcançar seus objetivos. Não é que pessoas assim sejam incapazes de amar...

Ele hesitou.

— Elas só não deixam o amor guiar suas decisões.

Avery pensou na mulher que tinha visto na confeitaria.

Na ternura dos olhos de Adrian.

Na delicadeza que ele nunca demonstrara com ela.

Talvez...

Talvez realmente houvesse uma exceção.

Um sorriso discreto surgiu em seus lábios.

— Entendo.

James não insistiu no assunto.

— Se você tem certeza sobre Stanford, vou providenciar o adiamento por seis meses.

O alívio se estampou no rosto de Avery.

— Obrigada.

Ele deslizou alguns formulários sobre a mesa de centro, na direção dela.

— Preencha quando estiver pronta.


Assim que Avery terminou de preencher os documentos, James olhou para sua barriga já saliente.

— Você já decidiu o que vai acontecer depois que sua filha nascer?

Por instinto, ela baixou os olhos.

— A família Blackwood vai ficar com ela.

Dizer aquilo doeu mais do que esperava.

— Se eu a levar para os Estados Unidos, enfrentaremos anos de disputas judiciais. E...

Ela abriu um sorriso triste.

— Eles podem dar a ela uma vida que eu não posso.

James entendeu.

Não havia nada que pudesse dizer.

Por isso, mudou de assunto.

— Na verdade... vou ficar sem assistente no mês que vem. Não é nada glamouroso, mas, se quiser alguma coisa para ocupar a mente antes de o bebê nascer, eu agradeceria muito a ajuda.

Avery respondeu sem hesitar:

— Eu adoraria.

Desde que Avery engravidara, Adrian a transferira discretamente da área da diretoria para uma função de apoio administrativo.

Oficialmente, a mudança servia para reduzir sua carga de trabalho.

Extraoficialmente...

Todos sabiam que ela tinha sido deixada de lado.

A promoção pela qual lutara durante anos desapareceu da noite para o dia.

Trabalhar com James seria diferente.

Seria uma oportunidade de reconstruir a carreira acadêmica que quase abandonara.

E, mais importante...

Aquilo a faria lembrar que era capaz de muito mais do que ser a esposa de Adrian Blackwood.

O restante da tarde passou depressa.

Fazia meses que Avery não mergulhava em economia e análise financeira, mas recuperou o ritmo com uma facilidade surpreendente.

Ao deixar a universidade naquela noite, percebeu algo que não sentia havia muito tempo.

Propósito.

Durante meses, medira o próprio valor pela atenção que recebia de Adrian.

Naquele dia...

Lembrou-se de que, um dia, tinha sonhado com muito mais do que um casamento.

Talvez o professor Thornton estivesse certo.

O amor nunca deveria ser o único eixo da vida de alguém.


Adrian não voltou para casa naquela noite.

Raramente voltava.

Dessa vez...

Avery não ficou acordada esperando por ele.


Na manhã seguinte, antes de sair para o trabalho, imprimiu uma carta formal de demissão.

A Blackwood Capital ocupava os vinte andares mais altos de uma das maiores torres comerciais de Canary Wharf.

Adrian tinha herdado a divisão de investimentos da empresa pouco depois dos trinta anos e a transformara em uma das instituições de investimento privado mais influentes da Europa.

O motivo de seu sucesso não era mistério para ninguém.

Ele tinha uma inteligência extraordinária.

Uma disciplina inabalável.

E a disposição de tomar decisões que ninguém mais ousaria tomar.

Quando Avery entrou no saguão, um conhecido Bentley preto parou do lado de fora.

Adrian desceu do carro.

O terno azul-marinho sob medida lhe caía com perfeição.

Calmo.

Confiante.

Intocável.

— Bom dia, Sr. Blackwood.

Os funcionários o cumprimentaram com respeito enquanto ele atravessava a recepção.

Por instinto, Avery se afastou e baixou os olhos.

Adrian passou por ela sem demonstrar que a conhecia.

Exatamente como sempre fazia no trabalho.

Pouquíssimas pessoas sabiam que os dois viviam sob o mesmo teto.

Ninguém sabia que eram marido e mulher.

Assim que Adrian desapareceu no elevador executivo, Avery seguiu para a área da diretoria.

Deixou a carta de demissão sobre a mesa de Zoe Carter.

Zoe ergueu os olhos, surpresa.

Antes, Zoe havia trabalhado sob a supervisão de Avery.

Agora, as posições estavam invertidas.

Quando Avery tinha sido discretamente afastada da área da diretoria após anunciar a gravidez, o departamento inteiro ficara chocado.

Ela era uma das analistas mais promissoras que a Blackwood Capital já havia contratado.

Até Adrian havia elogiado publicamente seu trabalho mais de uma vez.

Zoe, porém, sempre suspeitara que havia outro motivo.

O olhar dela foi da carta de demissão à barriga de Avery. Então, um sorriso de deboche surgiu em seu rosto.

— Era só questão de tempo.

Avery não respondeu.

Zoe se recostou na cadeira.

— Quer um conselho? Aprenda a ficar no seu lugar.

Ela cruzou os braços.

— Você realmente achou que estar grávida do Sr. Blackwood garantiria seu futuro? Os Blackwood circulam em meios aos quais a maioria das pessoas jamais terá acesso.

Seu sorriso se alargou.

— Alguém com a sua origem nunca conseguiria se encaixar nesse mundo.

Avery sustentou o olhar dela com tranquilidade.

Se aquilo tivesse acontecido uma semana antes...

Aquelas palavras a teriam destruído.

Agora...

Mal lhe provocavam qualquer reação.

Porque ninguém na empresa sabia a verdade.

Ela não estava apenas grávida de Adrian Blackwood.

Já era esposa dele.

E, em breve...

Seria ex-esposa dele.

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