Capítulo 5
— Quero a análise financeira da Hawthorne Technologies na minha mesa antes do almoço.
Zoe Carter deu a ordem sem sequer levantar os olhos.
Avery pegou o arquivo.
Embora tivesse sido transferida para uma função de apoio administrativo meses antes, Zoe vivia passando para ela tarefas que caberiam a analistas seniores.
Avery nunca reclamava.
Naquela época, ainda acreditava que, se continuasse se esforçando, Adrian acabaria voltando a notá-la.
Agora, já sabia que não.
Ao meio-dia, o relatório estava pronto. Avery enviou a versão final por e-mail para Zoe e deixou uma cópia impressa sobre a mesa dela.
Depois, pediu comida.
A Blackwood Capital tinha uma sala de jantar executiva e um café para os funcionários, mas Avery quase nunca ia a nenhum dos dois.
Preferia comer sozinha.
Onde havia muita gente, surgiam perguntas.
E, com elas, vinham os olhares de pena.
A última coisa que ela queria era ser alvo da compaixão alheia.
Pouco depois, várias colegas voltaram do almoço conversando com entusiasmo.
— Você viu a mulher lá em cima?
— Vi.
— Então é ela a namorada do Sr. Blackwood?
— Ela parece muito jovem.
— Vinte e poucos anos, com certeza.
— E é simplesmente deslumbrante.
— E o jeito como ele olhou para ela...
Uma das mulheres soltou um suspiro dramático.
— Trabalho aqui há quatro anos e nunca vi aquele homem sorrir assim.
— Eu nem sabia que Adrian Blackwood era capaz de sorrir.
As risadas morreram assim que perceberam Avery sentada em silêncio diante do computador.
Um silêncio constrangedor tomou conta do escritório.
Todas se lembravam de quem Avery tinha sido.
Houve um tempo em que ela trabalhava diretamente ao lado de Adrian.
Agora...
Mal falava com alguém.
O celular vibrou.
Seu pedido tinha chegado.
Avery foi buscá-lo na recepção. Quando atravessava o saguão na volta, viu dois funcionários do hotel The Savoy empurrando um elegante carrinho de refeições em direção aos elevadores executivos.
Taças de cristal.
Flores frescas.
Uma garrafa de Château Lafite Rothschild.
Bastou ver o rótulo para saber que só aquela garrafa custava mais do que muita gente ganhava em um ano.
Avery baixou os olhos para a embalagem que carregava.
Carne com arroz.
Era o bastante.
Às duas em ponto, Zoe parou ao lado da mesa dela.
— O Sr. Blackwood quer ver você.
Avery sentiu o estômago afundar.
Aquilo não acabaria bem.
O escritório de Adrian parecia ainda mais frio que o normal.
Ele estava diante das janelas do chão ao teto, com vista para Canary Wharf.
Sem dizer nada, atirou uma pasta sobre a mesa.
Ela deslizou pela madeira polida, bateu na beirada e espalhou as folhas pelo chão, aos pés de Avery.
— Foi você quem fez isso?
A voz dele estava perigosamente calma.
A borda de uma das folhas cortou de leve sua bochecha.
Com todo o cuidado, Avery se agachou para recolher os papéis, mantendo uma das mãos sobre a barriga.
Franziu a testa quase de imediato.
Aqueles não eram os números que ela tinha colocado no relatório.
Vários dados importantes tinham sido alterados.
Ela ergueu os olhos.
— Sr. Blackwood... este não é o relatório que eu entreguei.
— Não quero ouvir desculpas.
O tom cortante dele atravessou a sala.
Avery apertou as folhas entre os dedos.
Adrian conhecia perfeitamente a qualidade do trabalho dela. Se tivesse gastado trinta segundos comparando os arquivos, teria percebido que havia algo errado.
Mas nem se dera ao trabalho.
Ela respirou fundo.
— Eu salvei uma cópia de segurança. Posso enviar para o senhor agora. Se o erro tiver sido meu, assumo toda a responsabilidade.
Pela primeira vez, Adrian a encarou.
Sua expressão endureceu.
— Você acha que está sendo tratada injustamente?
Avery não desviou os olhos. Quando respondeu, a voz permaneceu firme.
— Acho que todos merecem uma chance de se explicar.
Ele não hesitou.
— Você já teve mais chances do que a maioria.
As palavras a atingiram como um golpe.
Avery empalideceu.
Antes que qualquer um dos dois pudesse voltar a falar, uma porta se abriu atrás de Adrian.
Uma jovem saiu da sala privativa anexa ao escritório.
Vestia uma das camisas brancas enormes de Adrian, com as mangas arregaçadas até os antebraços. Os longos cabelos escuros caíam soltos sobre os ombros.
Sua beleza parecia natural, sem esforço.
— Adrian?
A voz era suave, quase sonolenta.
Ela observou Avery com curiosidade.
A expressão de Adrian mudou no mesmo instante.
Não se tornou exatamente calorosa, mas suavizou de forma perceptível.
— Volte para dentro.
A firmeza em sua voz vinha da preocupação, não da raiva.
Avery baixou os olhos.
Não precisava ouvir mais nada.
— Desculpe pela interrupção.
Virou-se e saiu.
Quando a porta do escritório se fechou às suas costas, ouviu a risada baixa da jovem.
Pouco depois...
A voz de Adrian também se suavizou.
Avery seguiu direto para a escada de emergência.
Só ali, longe dos olhos de todos, permitiu que as lágrimas caíssem.
Apoiou as duas mãos no corrimão. O peito doía de tão apertado.
Não era apenas ciúme.
Era luto.
Oito anos.
Ela tinha passado oito anos amando um homem que nunca a escolhera. Nem uma única vez.
Esquecê-lo...
Seria como arrancar uma parte de si mesma.
Mas ela sobreviveria.
Precisava sobreviver.
Quando voltou ao andar de cima, já tinha recuperado o controle.
Assim que entrou no corredor, alguém surgiu na direção oposta.
Era a jovem que estava no escritório de Adrian.
Ela tinha trocado de roupa e agora usava um elegante casaco de grife em tom camel. Tudo nela — da bolsa à confiança que irradiava com tanta naturalidade — indicava que crescera cercada de privilégios.
Oliver Grant, o assistente executivo de Adrian, caminhava ao lado dela.
Ao ver Avery, a jovem abriu um sorriso caloroso.
— Ah... ainda bem que encontrei você.
Ela parou diante de Avery.
— O Adrian já se acalmou. Você não precisa se preocupar.
Em seguida, abriu a bolsa e tirou um pequeno saquinho de veludo para joias.
Dentro havia um pingente com uma pérola dos Mares do Sul perfeitamente redonda.
— Eu queria que você ficasse com isto.
Antes que Avery pudesse recusar, a jovem depositou o pingente com delicadeza na mão dela.
— E...
Ao notar o pequeno arranhão na bochecha de Avery, sua expressão se encheu de preocupação.
— Você deveria pedir para alguém dar uma olhada nisso. Seria uma pena se deixasse cicatriz.
A preocupação parecia genuína.
A gentileza, natural.
Naquele instante, Avery entendeu por que Adrian olhava para ela daquela maneira.
Ela era tudo o que Avery não era.
Radiante.
Elegante.
Confiante.
Oliver limpou a garganta.
— Você não vai agradecer à Srta. Anya Ashford?
Então...
O nome dela era Anya.
Anya sorriu.
— Tudo bem. Precisamos ir.
Os dois seguiram pelo corredor até desaparecerem de vista.
Avery continuou parada no mesmo lugar.
A pérola repousava na palma de sua mão.
Bela.
Perfeita.
Quase tão impecável quanto a dona.
Só uma pergunta continuava martelando em sua mente.
Será que Anya sabia...
que Adrian Blackwood já tinha esposa?
De volta à sua mesa, Avery imprimiu a cópia de segurança intacta do relatório financeiro e a colocou diante de Zoe.
Zoe mal deu uma olhada no documento.
Nenhum sinal de culpa apareceu em seu rosto. Em vez disso, ela soltou um sorriso de escárnio.
— Agora você já viu quem ela é. Aquele é o tipo de mulher que tem lugar ao lado do Sr. Blackwood.
Avery sustentou o olhar dela e posicionou o relatório bem no centro da mesa.
— Então nenhuma de nós tem lugar ali.
O sorriso de Zoe desapareceu.
— Você adulterou meu relatório. E sabe disso.
A voz de Avery continuou calma.
— Mas sabotar o trabalho dos outros não vai tornar você indispensável.
Ela se virou para sair, mas acrescentou antes de se afastar:
— Você tem talento suficiente para construir a própria carreira. É uma pena ter escolhido gastar sua energia tentando destruir a de outra pessoa.
Sem esperar resposta, Avery foi embora.
Pela primeira vez desde que entrara na Blackwood Capital...
Ela percebeu que já não se importava com o que qualquer pessoa dali pensava a seu respeito.
