Capítulo 6

Zoe Carter fechou a cara na mesma hora.

Espalmou as duas mãos sobre a mesa e se levantou de um salto.

— Avery Collins!

Avery nem sequer olhou para trás.

Simplesmente foi embora.


De volta à sua mesa, Avery tirou um espelho compacto da bolsa.

Uma linha avermelhada marcava sua bochecha, no ponto em que o canto do relatório a acertara mais cedo. O arranhão não era profundo.

Ela limpou o local com um lenço umedecido e guardou o espelho.

Mais uma pequena cicatriz já não faria muita diferença.

Seus pensamentos voltaram à jovem que tinha visto no escritório de Adrian. Havia algo estranhamente familiar nela.

Não era o nome.

Era o rosto.

Sobretudo os olhos.

Avery franziu a testa, pensativa, mas não conseguiu se lembrar de onde conhecia aqueles traços tão marcantes.


A tarde passou depressa.

No fim do expediente, quando Avery se preparava para ir embora, o celular tocou.

— Pai.

— Avery — disse Edward, carinhoso. — Daniel voltou. Chegou em casa antes do previsto e quer juntar todo mundo para jantar.

O rosto dela se iluminou.

— Daniel voltou? Achei que ele só voltaria na semana que vem.

— Ele terminou o projeto antes do prazo.

O pai riu baixinho.

— Então, se conseguir sair do trabalho no horário, venha direto para casa.

— Pode deixar. Eu vou.


Uma hora depois, Avery entrou em uma rua tranquila nos arredores de Londres, onde havia crescido.

Ao contrário da vasta propriedade rural dos Blackwood, a casa de sua família ficava em um bairro residencial e pacato.

Não era extravagante.

Mas era acolhedora. Confortável. Repleta de lembranças.

Seu pai, Edward Collins, era dono de uma pequena incorporadora imobiliária. Durante anos, o negócio proporcionara uma vida confortável à família.

Até o mercado imobiliário desacelerar.

Vários empreendimentos ficaram paralisados. Investimentos fracassaram. Em poucos meses, a empresa ficou à beira do colapso.

Quando Edward descobriu que Avery estava grávida do filho de Adrian Blackwood, nunca sugeriu que ela usasse a situação para salvar a família financeiramente.

Apenas disse a ela:

— Aconteça o que acontecer, vamos superar isso juntos.

Mas Avery viu o pai envelhecer quase da noite para o dia.

Viu Edward vender propriedades de investimento apenas para manter a empresa funcionando.

Então tomou a decisão por conta própria.

Procurou os Blackwood.

Em parte, pelo bem do pai.

Mas, acima de tudo...

Porque tinha acreditado, de maneira egoísta, que aquele casamento poderia lhe dar a vida com que sempre sonhara.

Graças ao generoso acordo de casamento, os Blackwood quitaram todas as dívidas pendentes.

Sua família sobreviveu.

Avery conseguiu exatamente o que queria.

E perdeu quase todo o resto.

Não podia culpar ninguém além de si mesma.


A porta da frente se abriu antes mesmo que Avery a alcançasse.

Helen Bennett apareceu com um sorriso, enxugando as mãos em um pano de prato. O aroma de cordeiro e legumes assados se espalhava pela casa.

— Você chegou. Estou terminando o jantar.

Avery sorriu com carinho.

— Oi, Helen.

Quando Avery tinha nove anos, seus pais se divorciaram. A mãe foi embora com o irmão mais velho, enquanto ela ficou com o pai.

Anos depois, Edward conheceu Helen.

Os dois nunca se casaram oficialmente, mas construíram juntos uma vida tranquila.

No início, Avery tinha se ressentido da presença dela. Com o tempo, porém...

Helen acabara se tornando quase uma segunda mãe para Avery.

E Daniel Bennett, filho de Helen, tornou-se o irmão mais velho que ela acreditava ter perdido para sempre.

— O papai ainda não chegou?

— Ele e Daniel passaram no escritório antes de vir para cá. — Helen sorriu. — Devem chegar a qualquer momento.

Ela observou Avery por um instante.

— Você parece exausta. Suba e descanse um pouco. Eu aviso quando o jantar estiver pronto.

— Obrigada.


Avery subiu até o quarto que o pai sempre fizera questão de manter como dela.

Mesmo depois de seu casamento com Adrian, nada ali tinha mudado.

As paredes azul-claras.

As estantes cheias de livros.

O banco junto à janela, com vista para o jardim.

Tudo continuava exatamente como ela tinha deixado.

Pela primeira vez em vários dias, Avery sentiu o corpo relaxar.

Sentou-se na cama e percebeu um álbum de fotografias antigo sobre a mesa de cabeceira. Curiosa, pegou-o.

A primeira fotografia havia sido colada com fita adesiva várias vezes.

Era um retrato de família.

Edward ainda jovem, sorrindo.

Avery aos oito anos, alegre nos braços dele.

O irmão, de catorze anos, de pé ao lado dos dois, cheio de orgulho.

E a mãe deles.

Anos antes, tomada pela raiva, Avery rasgara a fotografia ao meio.

Odiava a mãe por ter ido embora.

Por ter escolhido um filho em vez do outro.

O tempo tinha amenizado aquela raiva.

As cicatrizes, no entanto, permaneciam.

Ela virou a página com cuidado.

A fotografia seguinte lhe tirou o fôlego.

Avery, aos dezesseis anos, estava sob um magnífico carvalho nos jardins de seu colégio. Vestia um vestido branco, simples, de verão, e um chapéu de palha.

A luz do sol atravessava as folhas e iluminava seu sorriso radiante. Os longos cabelos pretos brilhavam sob a claridade da tarde.

Os traços delicados...

Os olhos vivos...

Houve um tempo em que ela era bonita sem esforço.

Tudo mudou depois que adoeceu gravemente no último ano do colégio. Os remédios de que precisou para se recuperar a fizeram ganhar muito peso.

Mesmo depois de melhorar, seu corpo nunca voltou por completo ao que era antes.

Dietas.

Exercícios.

Personal trainers.

Nada parecia funcionar.

No fim, Avery simplesmente parou de olhar suas fotografias antigas.

Mas, agora, enquanto encarava a garota que lhe sorria naquela imagem desbotada, um pensamento estranho lhe ocorreu.

Aqueles olhos.

Eram incrivelmente parecidos com os de outra pessoa.

A jovem que tinha visto na Blackwood Capital naquela tarde.

Os sorrisos eram diferentes. As personalidades não poderiam ser mais opostas.

Mas os olhos...

A semelhança era inconfundível.

Avery fechou o álbum com cuidado.

Por algum motivo que não sabia explicar, não conseguia tirar aquele pensamento da cabeça.

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