Capítulo 1

Ponto de vista de Blythe

É o recesso de outono, e a mamãe e a minha irmã, Della Sinclair, estão me visitando na Academia St. Julian.

O Bioma Ártico do Campus Sul é um marco que a família Sinclair financiou anos atrás. Ele é cheio das raras flores árticas que mamãe e Della sempre amaram. Toda vez que elas vêm, têm que entrar.

É quando Kiley Croft, a garota com quem Fletcher Waverly cresceu, faz o que ela chama de “uma pegadinha”. Enquanto ninguém está prestando atenção, ela tranca a porta pelo painel externo e empurra os controles de temperatura para o máximo.

As pessoas lá dentro ficam presas.

Elas morrem queimadas.

Kiley corre até Fletcher em lágrimas e, em vez de ligar para o 911, ele a puxa para perto e diz:

— Ei. Está tudo bem. Foi um acidente. A culpa não é sua.

Ele só me liga quando os caminhões de bombeiro aparecem.

— Blythe, o bioma pegou fogo. Sua mãe e sua irmã estão presas lá dentro.

Eu me viro num giro.

Della está bem ao meu lado, fungando e reclamando do frio. Mamãe está passando lenços para ela.

As duas estão completamente bem.

Então quem diabos está lá dentro?


Eu avanço três sinais vermelhos para voltar ao campus sul.

De longe, já dá para ver a fumaça subindo e se derramando no céu.

O Bioma Ártico, uma estrutura totalmente selada que custou milhões, está chamuscado de preto ao longo das paredes externas, a armação empenada pelo calor.

Sirenas ecoam pelo campus. O ar fede a fumaça e a algo pior.

Alunos se aglomeram ali perto, cochichando.

— O fogo apagou, mas as pessoas lá dentro... acho que não sobreviveram.

— Ouvi dizer que a porta estava trancada por fora e os controles de temperatura enlouqueceram. Eles foram basicamente cozidos vivos.

— Eu vi o Fletcher e uma garota correndo daquela direção bem antes de acontecer.

— Ela mexeu em alguma coisa no painel externo. Duas pessoas estão mortas. Que porra é essa.

Minhas pernas mal me sustentam enquanto eu atravesso a multidão.

Duas pessoas. Dois seres humanos de verdade.

Então eu vejo ele.

Fletcher Waverly está de pé logo do lado de fora da fita da polícia, a camisa branca impecável, com Kiley Croft apertada contra o peito. A garota que ele sempre jurou ser “só uma amiga”.

— Fletcher, eu estou com tanto medo. Eu juro que não queria que isso acontecesse. Eu não fazia ideia de que a porta ia trancar daquele jeito... — Kiley soluça no peito dele, lágrimas escorrendo pelo rosto.

Fletcher faz carinho nas costas dela, a voz baixa e firme. — Você está bem. Eu estou com você. Você está segura.

Alguma coisa gelada atravessa meu corpo.

Duas pessoas acabaram de morrer lá dentro. E o meu namorado está aqui, consolando a pessoa que matou as duas.

"Fletcher!" Eu avanço na direção dele, com os olhos ardendo. "O que aconteceu? Quem estava lá dentro? Como é que a minha mãe e a minha irmã podem estar—"

Ele me corta, com a voz fria. "Blythe. Controle-se. Você está fazendo um escândalo."

Ele se coloca na frente de Kiley. "A Kiley não tem culpa disso. A sua família estava mexendo em equipamentos nos quais não tinha nada que mexer e acabou provocando tudo. A Kiley mal tocou no painel externo. Ela não fazia ideia do que aquilo faria."

Aquele bioma é uma estrutura totalmente selada. Depois que trava por fora, não há como sair. Kiley não apenas trancou a porta. Ela começou um incêndio. E ele está chamando isso de engano?

Minha família financiou aquele prédio. Você realmente acha que elas não sabiam como os equipamentos funcionavam?

"Você está se ouvindo?" Minha voz sai trêmula. "Duas pessoas morreram e você está aqui me dizendo que a culpa é delas?"

"Se elas não tivessem entrado, nada disso teria acontecido." Ele diz isso como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, como se a irracional fosse eu. "A Kiley está arrasada agora. Será que você não pode, só dessa vez, parar de fazer tudo girar em torno de você? Ou você só vai sossegar quando destruir ela de vez?"

O completo absurdo de tudo aquilo me atinge de uma vez.

Este é o homem que eu passei três anos amando. Três anos bancando.

Ele viveu do dinheiro da minha família, usou o nosso nome e as nossas conexões para se eleger presidente do corpo estudantil.

E agora, com duas pessoas mortas, ele está aqui distorcendo a história para acobertar a pessoa que matou as duas.

O luto no meu peito se endurece e vira outra coisa.

Eu nem penso duas vezes. Puxo o braço para trás e dou um tapa na cara dele com toda a força que tenho.

A cabeça dele vira para o lado. A multidão fica completamente em silêncio.

"Qual é a porra do seu problema?" Ele leva a mão ao rosto, encarando-me como se eu tivesse enlouquecido.

"Isso foi por elas." Mal consigo firmar a voz. "Eu quero as imagens das câmeras de segurança. Agora. Quero que a polícia veja exatamente o que a Kiley fez lá fora e decida por conta própria se foi um acidente."

Eu me viro e começo a ir em direção à sala de segurança.

"Não se afaste de mim." Ele agarra o meu pulso e me puxa de volta, baixando a voz para falar perto do meu ouvido. "Eu já assinei o termo de isenção de responsabilidade em seu nome. Isso foi um acidente, e é exatamente assim que vai continuar. Se você for à polícia, se transformar isso num escândalo, se arrastar esta escola pela lama — eu prometo que você vai se arrepender."

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