Capítulo 2
Ponto de vista de Blythe
— Você assinou o termo por mim?
Quase dou risada e puxo o pulso para me soltar.
— Quem você pensa que é, Fletcher? Você não tinha o direito de assinar nada por mim.
— Eu sou seu namorado. Isso me dá todo o direito. — Ele endireita a gola, como se aquilo fosse a coisa mais sensata do mundo. — Eu fiz isso por você. Se você transformar isso num escândalo, não é só a Kiley que vai se ferrar — isso volta pra sua família também. Eu já falei com a escola. Eles estão oferecendo um acordo. Você pega o dinheiro, fica de boca fechada, e isso some pra todo mundo.
Eu encaro o rosto dele e sinto o estômago embrulhar.
Ele realmente acha que é só isso. Puxar a carta do “namorado”, jogar um pouco de dinheiro em cima e a Kiley vai embora como se nada tivesse acontecido.
Egoísta. Calculista. E completamente convencido de que está me fazendo um favor.
Então, de algum lugar no meio dos escombros, o som de passos pesados corta o barulho.
— Abrindo passagem! Macas saindo!
A multidão se cala de uma vez. Todas as cabeças se viram.
Dois corpos são carregados para fora. Carbonizados a ponto de não dar para reconhecer, encolhidos sobre si mesmos. Os socorristas se movem rápido, seguindo em direção ao centro médico do campus.
O cheiro está pior agora. Fumaça e alguma coisa por baixo dela que revira o estômago.
Algumas pessoas ali perto levam a mão à boca e cambaleiam para o lado.
Eu não consigo desviar o olhar. Fico ali, encarando o que restou de duas pessoas que estavam vivas hoje de manhã, e as lágrimas vêm antes que eu consiga impedir.
Tem algo em ver uma pessoa ser reduzida àquilo. Não é só partir o coração. É te gelar por dentro de um jeito que não vai embora.
Eu baixo a cabeça e digo, baixinho:
— Vou garantir que quem fez isso pague.
Pego o celular e mando mensagem para Della.
Aconteceu alguma coisa no Bioma Ártico do Campus Sul. Duas pessoas morreram. Dá um jeito de puxar as imagens de segurança de hoje — o mais rápido que você conseguir.
A resposta dela vem na hora.
O QUÊ. O bioma sumiu?? Eu falto UM dia por estar doente e ele simplesmente SOME?? Tô em cima. Vou te mandar tudo, eu prometo.
Guardo o celular no bolso e respiro fundo.
Atrás de mim, Kiley faz questão de apertar a mão contra o nariz, engasgando alto. O som corta o silêncio.
— Ai, meu Deus, eles estão completamente queimados. Que nojo. — Ela se encolhe ainda mais ao lado de Fletcher, com o nariz enrugado. — Eu nunca devia ter trazido eles pra cá. Agora meus sapatos estão arruinados.
Alguma coisa dentro de mim simplesmente estoura.
Eu cubro a distância em três passos, agarro um punhado do cabelo dela e a arrasto para longe dele.
Ela grita:
— Fletcher, me ajuda!
Eu não paro. Eu acerto ela uma vez, depois de novo, com tudo o que tenho, bem naquele rosto perfeitamente maquiado.
— Nojo? Arruinou seus sapatos? — Minha voz sai áspera. — Duas pessoas estão mortas. Você mesma trancou aquela porta. Você queimou eles vivos lá dentro. Você não tem o direito de ficar aqui e fingir que está enojada.
Kiley desaba no chão, com sangue no canto da boca, soluçando.
— Blythe, chega!
Fletcher se enfia no meio e me dá um tapa no rosto antes que eu consiga reagir.
Minha cabeça vira de lado. O gosto de sangue toma o fundo da minha garganta.
Ele acabou de me bater. Por causa dela.
Ele puxa Kiley para trás dele e aponta um dedo para mim.
— Você está fora de si. Eu já te disse, foi um acidente. Você quer ficar aqui fora surtando na frente de todo mundo, beleza. Mas tudo o que você está fazendo é se fazer parecer louca.
Eu viro a cabeça devagar e limpo o sangue do canto da boca.
Meu rosto arde. O resto de mim está muito além disso.
Eu olho para ele e a ficha cai de uma vez. Três anos, e fui eu que me enganei esse tempo todo.
Eu me forcei a dar tudo para ele sem pedir nada em troca. Eu me forcei a acreditar que ele e a Kiley não eram nada. Eu me forcei a aguentar o jeito como a família dele me olhava — aquele desprezo frio e silencioso que eles nem faziam questão de esconder, do tipo que entra debaixo da pele toda vez e fica lá.
Tudo isso. Por ele.
E acabou.
Não existe lealdade com alguém assim. Nunca existiu.
Quase dou risada.
— Tá bom, então.
Eu encaro ele direto nos olhos.
— Acabou, Fletcher. Seja lá o que isso foi, terminou. A partir de agora, você e eu não somos nada.
Ele pisca, e então um sorrisinho lento se espalha no rosto dele.
— Acabou? Você acha que ameaçar terminar comigo vai me fazer recuar?
— Vou deixar bem claro. Eu não me importo com o que você faça. Antes de este dia acabar, você vai pedir desculpas à Kiley. Isso não está em discussão.
Eu nem me dou ao trabalho de responder. Viro as costas e vou embora.
