Capítulo 3

Ponto de vista de Blythe

Vou direto para o centro médico do campus.

Procedimento padrão em caso de morte não natural: os corpos vão primeiro para o necrotério, aguardando o legista e a polícia.

Mas, quando empurro a porta do necrotério, a sala está vazia.

— Onde estão os corpos? — paro um dos funcionários de plantão.

Ele evita meu olhar. — Srta. Sinclair... o Fletcher já mandou transferir.

— Transferir para onde?

— Para o crematório. — Ele se remexe, desconfortável. — O Fletcher disse que era praticamente da família, noivo de uma das falecidas. Disse que os corpos estavam queimados demais pra manter aqui sem causar pânico, então agilizaram uma transferência emergencial. A administração aprovou.

Que noivo. Que via expressa.

Solto uma risada curta, fria.

Fletcher, você não podia esperar, podia? Eles nem determinaram a causa da morte. Um legista ainda não encostou naqueles corpos. E você já está tentando queimar as provas.

Não perco mais um segundo. Dirijo direto para o crematório.

Eu avisto Fletcher no instante em que entro.

Ele está diante do forno, mãos entrelaçadas atrás das costas, completamente calmo, como se isso fosse só mais uma tarefa qualquer. Os funcionários fazem as verificações pré-início. Kiley está grudada ao lado dele, os olhos ainda vermelhos, mas por baixo disso há algo que ela não consegue esconder direito. Satisfação.

— Parem.

Eu empurro os funcionários e me planto na frente deles.

— Fletcher, eles nem descobriram como essas pessoas morreram. Você está prestes a destruir tudo. Você entende o que está fazendo agora?

Fletcher franze a testa e levanta uma mão para os funcionários aguardarem. Depois se vira para mim, mal escondendo a irritação.

— Blythe, relaxa. — A voz dele é lisa, como se estivesse dando sermão numa criança fazendo birra. — Tudo foi resolvido do jeito certo. Cada etapa foi legítima.

— Legítima? — encaro-o. — Nenhum legista tocou naqueles corpos. Você chama isso de legítimo? Isso é obstrução da justiça.

Fletcher tira o celular do bolso e enfia a tela na minha cara. — Talvez você queira ver o que estão dizendo antes de sair jogando palavras assim.

Arranco o aparelho da mão dele e abro o fórum do campus de St. Julian’s.

O post fixado no topo me paralisa.

INCÊNDIO NO BIOMA DO CAMPUS SUL — A VERDADE: Mulheres Sinclair ADULTERAM O EQUIPAMENTO E PAGAM O PREÇO. Fletcher FEZ O QUE PRECISAVA SER FEITO.

Ele postou pela conta oficial do presidente do corpo estudantil. Um registro de equipamento falsificado, alegando que as vítimas forçaram uma substituição manual nos controles de temperatura e causaram elas mesmas o curto-circuito.

Abaixo, a declaração de Kiley: Eu ficava dizendo para eles não tocarem em nada, mas não quiseram ouvir. Eu só saí um instante para buscar ajuda e a porta trancou atrás de mim. Eu me sinto tão culpada.

Os comentários são exatamente o que ele queria.

“Quem os Sinclair acham que são? Só porque a família de vocês está no Conselho de Curadores, dá pra mexer no que quiser?”

“Tiveram o que mereciam. Quase acabaram com a instalação inteira.”

“Coitada da Kiley. Ela estava sendo legal, mostrando tudo pra eles, e a Blythe simplesmente ataca ela? Absurdo.”

“O Fletcher precisa largar ela de uma vez.”

Eu jogo o telefone de volta nele.

Ele não só destruiu provas. Ele inventou uma história completamente diferente, jogou a culpa em duas mulheres mortas e fez um campus inteiro cair em cima de gente que não pode se defender.

Fletcher, você realmente não deixou nenhuma saída pra si mesmo.

Eu me viro para os funcionários e mantenho a voz o mais firme que consigo. “Não liguem esse forno. Essas mortes ainda não foram liberadas por um legista. Se vocês fizerem isso agora, a responsabilidade vai ser de cada um de vocês, pessoalmente.”

Os funcionários trocam olhares. Ninguém se mexe.

A expressão de Fletcher endurece. Ele dá um passo mais perto e baixa a voz. “Blythe. Tudo o que você está fazendo agora é barulho. Quanto mais você insistir nisso, pior fica pra sua família. Aceite o acordo, vá embora, e isso acaba.”

“Acaba.” Eu encaro ele. “Duas pessoas estão mortas e você quer que eu simplesmente deixe pra lá?”

“Elas se foram.” Não há calor nenhum na voz dele. “Nada do que você fizer vai mudar isso. Então o que, exatamente, você está tentando provar?”

Ele ergue a mão e dá um breve aceno para os funcionários. “Podem ir. Liga.”

Um deles hesita, então estende a mão para o painel de controle.

“Espera.”

Eu entendo tudo de uma vez. Eu me ouço dizendo antes mesmo de pensar direito. “As pessoas que morreram lá dentro. Não era a minha mãe e a minha irmã. Fletcher, manda eles pararem.”

Fletcher me encara por um segundo, depois solta uma risada curta, de desdém.

“Blythe. Você está falando sério agora? Então quem foi? Os nomes delas estão na ficha de entrada. Você vai ficar aí e me dizer que não eram elas?”

Ele balança a cabeça. “Você precisa parar. Isso acabou.”

Ele sinaliza de novo.

O funcionário aperta o botão. O forno entra em funcionamento, um zumbido baixo e pesado enchendo a sala.

E então a porta atrás de mim se escancara.

Uma voz corta o ar. Clara, ofegante, alta o bastante para preencher o cômodo inteiro:

“Blythe! Eu consegui as imagens!”

O sorriso some do rosto de Fletcher.

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