Capítulo 2
Quando o sol escaldante se pôs no horizonte, lançando longas sombras pela paisagem, Eva relutantemente iniciou sua jornada de volta. Um pequeno sorriso contente adornava seu rosto, sua mente tendo se aliviado durante uma meditação pacífica no abraço da natureza. Esses momentos de solidão tinham uma maneira mágica de reacender sua apreciação pela vida, permitindo-lhe redescobrir as bênçãos que muitas vezes tomava como garantidas: saúde, uma família amorosa, amigos excepcionais e as qualidades inatas que a conectavam ao seu lado primal, animal.
Caminhando ao seu lado estava Helin, o enorme lobo cinza-escuro, uma presença formidável que era mais alta do que a maioria das lobas.
No entanto, a tranquilidade deu lugar ao caos quando o cheiro acre de fumaça e o rosnado feroz de Herculi chegaram aos seus sentidos. Sem hesitar, Eva se transformou em sua forma de lobo prateado claro, seu coração batendo acelerado no peito. Ela correu pela floresta, em direção à casa da matilha, com um crescente senso de pavor.
Logo, gritos e fumaça densa perfuraram as copas das árvores. A clareira em frente à casa da matilha havia se transformado em uma cena de completo pandemônio. Membros da Lua Cheia engajavam-se em combates brutais com intrusos implacáveis. Humanos lutavam contra humanos, seus punhos nus desferindo golpes selvagens, enquanto lobos batalhavam contra lobos, suas presas afiadas e garras rasgando peles e carne. Aqueles poucos humanos que ousavam desafiar os lobos encontravam um fim rápido e brutal. Mulheres de todas as idades gritavam em desespero, tentando proteger bebês e crianças aterrorizadas dos atacantes que arrancavam os pequenos de seus braços.
Guerreiros da Lua Cheia trabalhavam incansavelmente para resgatar o máximo que podiam, mas alguns dos agressores conseguiam fugir com crianças chorando em seus braços, ou pior, com os pequenos presos entre seus dentes.
Eva observava em puro horror enquanto um enorme lobo fugia com uma menina choramingando presa em suas poderosas mandíbulas. Sem hesitar, ela deu início à perseguição, os gritos dolorosos da menina cortando a noite. Eva saltou nas costas do lobo, caindo no chão junto com a menina enquanto o agressor perdia a presa. A criança ferida jazia chorando na grama, tentando segurar suas entranhas no lugar.
Quando o lobo avançou sobre Eva, tentando cravar seus dentes nela, um lobo colossal apareceu de repente, colidindo com o agressor com uma força tremenda. O atacante foi lançado pelo ar, caindo com um gemido lastimável. Um Herculi enfurecido rosnava ameaçadoramente.
Então algo surpreendente aconteceu. O lobo inimigo fixou os olhos em Helin por um momento, abaixando a cabeça e emitindo um gemido submisso.
Eva voltou seu olhar para seu companheiro furioso. Antes que pudesse reagir, ele avançou sobre o lobo derrotado, que não fez nenhuma tentativa de se defender ou retaliar.
Toda a cena era surreal, um pesadelo inimaginável tornado realidade. Depois que o invasor ficou sem vida, Helin não mostrou sinais de satisfação, continuando a despedaçar os restos e espalhá-los ao redor.
"Ei, Hel—" Eva começou, aproximando-se dele, mas seu suposto lobo de estimação se virou abruptamente para ela, rosnando com um olhar selvagem, seu focinho manchado de sangue.
Eva ficou paralisada de terror. O que havia acontecido com seu leal companheiro?
"Ev!" Uma figura alta, vestindo apenas boxers e com vários cortes no peito largo, correu em sua direção.
"Você está bem?" Ele a examinou cuidadosamente, seus olhos cheios de preocupação, e então verificou o corte em sua cabeça.
"Sim, Richy," ela o tranquilizou, abraçando seu melhor amigo. Richard, filho do Gamma da Lua Cheia, cuidava dela desde que eram crianças, agindo como seu guardião pessoal e confidente querido.
"O que acabou de acontecer aqui? Parece um pesadelo de açougueiro," Richy murmurou, com o olhar fixo na cena horrível. Órgãos, ossos e membranas estavam espalhados em uma poça de sangue.
"Vamos voltar, Richy," Eva murmurou, apoiando-se no braço dele.
Os números da Lua Cheia eram numerosos, e seus membros bem treinados. Em pouco tempo, a maioria dos invasores jazia sem vida no chão.
Os refugiados e seus filhos restantes receberam os cuidados necessários. Alguns haviam perdido membros enquanto tentavam proteger seus filhos. A visão era de partir o coração.
Um grande lobo prateado chegou com duas crianças pequenas agarradas ao seu pescoço peludo. O pai de Eva havia salvado pelo menos essas duas almas afortunadas.
Suas mães correram para pegá-los. "Muito obrigada, Alpha!" elas choraram, curvando-se e soluçando.
"Alpha, três mulheres morreram, vários guerreiros estão feridos, e cinco crianças foram levadas, todas meninos," o Beta relatou ao Alpha Grate, seu rosto marcado pelo cansaço.
Naquela mesma tarde, os refugiados começaram a chegar, e alguns infiltrados se esconderam entre eles, fingindo asilo. Sua única esperança de sucesso contra a Lua Cheia havia sido um ataque surpresa.
Ainda não estava claro se esses agressores eram apenas renegados tentando sequestrar bebês ou se tinham ligações com a matilha de Lord Skull. Christian, o Alpha de Lord Skull, havia declarado publicamente que não se importava com as decisões daqueles que deixavam sua matilha. Mas alguém poderia confiar em um Alpha enlouquecido que havia perdido sua companheira?
Teorias da conspiração circulavam dentro da matilha, sugerindo que a Crescent Black e seu possível envolvimento haviam criado o caos na Lua Cheia e enfraquecido a matilha.
"Eva!" Seu pai a abraçou apertado, quase esmagando-a. "Por que você está coberta de sangue?" ele perguntou, seus olhos escurecendo.
"Não é meu," ela o tranquilizou com um sorriso, o estranho episódio envolvendo Helin momentaneamente esquecido.
"Eu já te disse várias vezes para não se envolver nessas lutas," seu pai começou, lançando-se em uma bronca severa.
"Quantas vezes eu tenho que—" A bronca continuou por um tempo que parecia uma eternidade, até que ele parecia satisfeito por ter cumprido seu dever paternal. Alpha Grate então começou a dar ordens.
"Encontre-me no meu escritório, Beta. Temos telefonemas a fazer e planos a formular," ele instruiu, afastando-se e lançando um último olhar escrutinador na direção de sua filha.
"Vá para a cama cedo. Amanhã, há uma longa jornada pela frente."
À medida que a poeira da batalha assentava e o brilho pálido da lua perfurava a escuridão, uma inquietação persistente tomou conta de Eva. Os eventos daquela noite fatídica levantaram mais perguntas do que respostas. O que havia levado Helin, seu leal companheiro, a um estado tão frenético e sedento de sangue? E o que estava por trás das enigmáticas teorias da conspiração envolvendo a Crescent Black e seu suposto papel no ataque à Lua Cheia?
Com a diretiva de seu pai para se retirar cedo, os pensamentos de Eva eram um turbilhão de confusão e medo. O sono era esquivo enquanto sua mente corria, tentando entender o caos que havia se abatido sobre sua matilha. Ela sabia que a jornada que a aguardava no dia seguinte traria seus próprios desafios e revelações.
Inquieta e com um senso de desgraça iminente, Eva olhou para a noite, sua determinação de descobrir a verdade queimando mais forte do que nunca. Os capítulos dessa história sombria estavam longe de terminar, e os segredos mais obscuros de seu mundo ainda estavam por ser revelados.
