Capítulo 4

POV da Scarlett

Fui arrastada bruscamente para fora do hospital da alcateia por Carson. Os membros da alcateia viram, mas nenhum deles ousou falar por mim. Nem mesmo aqueles que um dia pertenceram à alcateia do meu pai.

Quando chegamos à mansão da alcateia, percebi imediatamente que algo havia mudado.

O exterior ainda era tão grandioso e opulento quanto sempre, mas por dentro, todo o calor havia desaparecido. As empregadas que antes me recebiam com sorrisos brilhantes não estavam em lugar algum—apenas Ruby permanecia, parada na porta, pálida, com as mãos fortemente cerradas.

Ela olhou para mim com simpatia nos olhos.

Alexander tinha deixado sua decisão clara. Sua autoridade superava a minha. Eu não podia culpá-los. Culpava a mim mesma—por ter sido tão facilmente enganada desde o início.

Carson me empurrou para dentro e bateu a porta com força, me encarando friamente.

"Escute bem, Scarlett," sua voz estava carregada de ameaça e indiferença. "Ordens do Alexander: você não deve pôr os pés fora da residência do Alfa. Seus movimentos estão restritos a esta casa. E fique longe da Faye. Nada mais de confusão."

Dei uma risada amarga. "Você acha que tem o direito de me dar ordens?"

Um sorriso sombrio se espalhou pelo rosto de Carson. Ele se inclinou de repente, deixando seus dedos roçarem meus lábios com um desrespeito descarado. Seu tom se tornou zombeteiro, quase sedutor. "É melhor você se comportar, Scarlett. Você não é mais uma nobre Luna."

A fúria explodiu em mim. Dei-lhe um tapa forte, o som ecoando pela sala. "Lembre-se do seu lugar, Carson! Eu ainda sou a Luna! Tente isso de novo e eu juro que você vai se arrepender!"

Seu rosto ficou vermelho como um tomate, um lampejo de raiva em seus olhos. "Scarlett, estarei esperando por você—na fronteira da alcateia."

Ele saiu furioso, a porta batendo atrás dele como um tiro.

O silêncio caiu novamente.

Desabei na cama, consumida por uma tempestade de raiva e humilhação. Se eles iam me degradar assim, poderiam muito bem ter me jogado na masmorra e me deixado apodrecer.

Horas se passaram.

Encolhi-me na beirada da cama, meus dedos dormentes traçando a borda de um travesseiro de seda. Minha pequena loba, Kara, estava em silêncio desde o hospital. Eu me dizia que ela estava apenas descansando. Que precisava de tempo—assim como eu.

Mas à medida que a noite se aproximava, algo parecia errado.

Kara? Alcancei nossa ligação mental. Eu preciso de você.

Silêncio.

Frio. Vazio.

Meu coração batia em pânico. Tentei novamente, mergulhando mais fundo na minha alma, procurando desesperadamente por qualquer vestígio de sua presença.

Kara, por favor…

Nada.

Era como perder um membro. Não—era pior. Como perder a última parte de mim que ainda acreditava que eu poderia sobreviver a esse pesadelo. Sua ausência ecoava nos meus ossos e, pela primeira vez, me senti verdadeiramente, completamente sozinha.

A traição de Alexander não tinha apenas quebrado meu coração—tinha cortado a conexão entre minha humanidade e minha loba. O silêncio de Kara não era escolha dela. Era um castigo da própria Deusa da Lua.

As lágrimas encheram meus olhos, quentes e amargas, implacáveis.

"Não faça isso," Ruby disse suavemente, ajoelhando-se na minha frente. Sua mão calejada afastou uma mecha de cabelo do meu rosto. "Você é mais forte do que isso. Eu sei que é."

Seu toque era gentil, mas sua voz era firme. Estável. Confiança, quando eu já não tinha mais nenhuma.

Um soluço ficou preso na minha garganta. "Ela se foi, Ruby. Kara… ela simplesmente… se foi."

A tristeza cintilou nos olhos de Ruby, mas ela não recuou. "Então vamos encontrá-la. Juntas. Você não está sozinha, querida. Não enquanto eu estiver respirando."

Suas palavras atingiram algo profundo dentro de mim. A dor não desapareceu—mas suavizou. A lealdade de Ruby me envolveu como um cobertor, tecido de confiança silenciosa e todas as noites sem dormir que sussurramos no escuro. Ela não era apenas uma empregada. Ela era minha amiga. Em um mundo que me traiu, ela era meu único porto seguro.

Eu precisava sair. Eu precisava de um plano. Se eu ficasse aqui, apodreceria até virar um fantasma usando uma coroa de memórias.

Mas não ainda. Não até eu segurar em um último fio de esperança.

Não até eu perceber - eu não estava completamente sozinha.

Depois de garantir que Ruby não estava olhando, eu me esgueirei para a parte mais profunda do guarda-roupa - onde as empregadas nunca limpavam. Lá, escondido sob um fundo falso em uma velha caixa de lembranças, estava minha arma secreta: um celular descartável preto que eu havia guardado dois anos atrás durante um exercício de segurança.

Graças à Deusa da Lua, eu não o joguei fora.

A bateria estava pela metade. O sinal era fraco, mas utilizável.

Disquei o único número que havia memorizado. A única pessoa que nunca desligaria na minha cara.

"Kathleen?" Minha voz saiu rouca no momento em que ouvi o clique.

"Scarlett?" A voz dela estava confusa, depois alarmada. "Você está bem? De onde está ligando? Esse número—"

"Não tenho muito tempo," eu a interrompi, andando de um lado para o outro como uma leoa presa em uma jaula. "Preciso da sua ajuda. Estou sendo mantida aqui. Alexander quer me tirar da alcateia."

"O quê?!"

"Ele tirou tudo - minha liberdade, meu título, minha loba. Ele trouxe de volta o verdadeiro amor dele, e ela está esperando o herdeiro dele." Minha voz tremeu. "Kara se foi, Kathleen. Não consigo mais senti-la."

"Oh, minha deusa…" ela suspirou. "O que você precisa que eu faça?"

"Lucien," eu disse rapidamente. "Você pode falar com seu irmão? Ele está no conselho. Talvez ele possa me ajudar. Talvez haja uma maneira de quebrar o vínculo sem perder meu título—"

"Você quer se divorciar de Alexander?"

Eu hesitei. Mas os últimos dias se repetiam na minha mente como um filme queimando, e eu me lembrei - quando um homem tenta tirar sua voz e tudo o que você representa, ele nunca será seu.

Então eu assenti. "Sim. Eu quero sair."

Ela ficou quieta por um momento, depois suspirou. "Certo. Vou falar com Lucien. Mas Scarlett… o conselho é brutal. Mesmo com a influência dele, isso não será fácil."

"Não estou procurando por fácil. Estou procurando por possível."

"Vou arranjar algumas coisas. Mas você terá que ficar quieta. Alexander tem ouvidos em toda parte."

"Eu sei."

Depois que ela desligou, eu me sentei no chão, encostando-me ao guarda-roupa, meu olhar vazio. Kathleen sempre foi minha melhor amiga. Ela conhecia as partes mais sombrias de mim - minha ambição, meu orgulho, os anos que passei me provando. Ela também sabia sobre minha paixonite boba por Lucien.

Lucien, com seus olhos prateados e aura intocável. Sempre composto. Sempre majestoso. Ele era três anos mais velho que eu, e quando eu era uma adolescente magricela sonhando com minha primeira transformação, o lobo dele já era formidável. Eu me lembrava de observá-lo durante as visitas do conselho. Toda vez que ele olhava na minha direção, meu coração batia como louco. Claro, ele nunca realmente me notou - não do jeito que eu queria.

Mas eu não era mais uma garotinha. Eu era a Luna da Lua Crescente. Uma mulher traída. Uma prisioneira. Uma mulher sem nada.

Se alguém pudesse desfazer essa teia - era Lucien.

Ruby bateu suavemente na minha porta. "Luna, seu chá..."

Eu me apressei para esconder o telefone e me levantei. "Deixe na porta, Ruby. Preciso descansar."

"Sim, Luna."

Os passos dela se afastaram. Só quando ouvi o clique distante de uma porta se fechando, eu voltei a respirar.

Andei lentamente, tentando acalmar meu coração acelerado.

A cada passo, as paredes do quarto pareciam se fechar. O lustre acima balançava levemente, mas o ar permanecia imóvel. Fechei os olhos, buscando força na memória.

A voz do meu pai. O cheiro das florestas cobertas de neve. As primeiras palavras de Kara para mim durante minhas patrulhas.

Era tudo o que eu tinha agora.

Porque aqui, nesta prisão dourada disfarçada de palácio, eu não tinha amigos. Nem voz. Nem loba.

Mas eu tinha um fogo ainda queimando dentro de mim.

E eu usaria esse fogo para queimar as mentiras de Alexander até o chão.

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