Capítulo 1
POV da Tori:
— Sullivan! Arrume suas coisas. Seus quatro anos acabaram.
A voz do guarda Beta ecoou pelo corredor de concreto do Centro de Detenção Presa de Prata.
Ele mal levantou os olhos da prancheta quando me aproximei do portão de segurança, a indiferença dele um último lembrete do meu status ali.
Fiquei imóvel enquanto ele escaneava a pulseira do presídio no meu pulso, o material prateado projetado especificamente para suprimir as habilidades já limitadas de uma Ômega.
— Alguma pergunta antes do processo de liberação? — ele perguntou de forma mecânica, claramente repetindo um script que já tinha recitado inúmeras vezes.
— Não — respondi baixo, sabendo que era melhor não dizer mais nada.
Perguntas vindas de Ômegas raramente eram bem-vindas.
As narinas do guarda se dilataram levemente — um gesto instintivo de lobo, avaliando meu cheiro em busca de submissão. Satisfeito com o que sentiu, ele assentiu de forma brusca.
— Dirija-se ao processamento. E Sullivan? — Os olhos dele finalmente encontraram os meus, com um leve tom de aviso. — Não faça a gente ver você de novo. Quem cai aqui pela segunda vez não sai.
Vinte minutos depois, depois de trocar para minhas roupas de civil e receber meus poucos pertences, as pesadas portas de metal do Centro de Detenção Presa de Prata se fecharam atrás de mim com um estrondo definitivo.
Respirei meu primeiro ar de liberdade em quatro anos, deixando o vento frio de outono de Moonhaven encher meus pulmões.
Liberdade, ao que parecia, era um conceito superestimado quando você voltava para um mundo que nunca tinha te querido em primeiro lugar.
Ajustei a mochila surrada com meus poucos pertences — algumas roupas gastas, um livro de matemática todo amassado e o pingente de prata que minha avó Eileen tinha me dado antes.
O peso da mochila não era nada comparado ao peso das lembranças que eu carregava.
Minha loba — Tracy — se remexeu inquieta dentro de mim, sentindo o meu desconforto.
Depois de quatro anos sendo reprimida pelos tratamentos obrigatórios de acônito do centro de detenção, ela queria desesperadamente se soltar, correr pelas florestas que cercavam Moonhaven.
Eu a forcei para baixo. Ainda não. Agora a gente precisa ter cuidado.
A cena que me esperava nos portões do centro de detenção fez meu estômago se contrair.
Um SUV preto e brilhante estava estacionado na calçada, e ao lado dele duas figuras que eu tinha rezado para nunca mais ver.
Fiona Price e Ethan Grayson.
Fiona estava impecável em um vestido dourado-claro que destacava seu status nobre e os tons dourado-acastanhados da pele dela.
Ao lado dela, Ethan vestia um terno grafite perfeitamente ajustado, o azul-acinzentado dos olhos dele um lembrete gritante da herança da Matilha Grayson.
Ver os dois juntos fez uma dor aguda atravessar meu peito.
Quatro anos atrás, eu tinha confiado cegamente em Fiona como minha confidente mais próxima, sem imaginar que essa confiança mal colocada me levaria à prisão.
Eu não tinha visto os sinais — como ela secretamente nutria sentimentos por Ethan, como faria qualquer coisa para me tirar do caminho.
Se eu não tivesse sido tão ingênua, tratando ela como a irmã que eu nunca tive, talvez tivesse percebido a determinação implacável dela em tê-lo só para si.
E o Ethan... ele tinha sido meu primeiro amor, a única pessoa em quem eu achava que podia confiar, não importasse o que acontecesse.
Eu tinha me enganado sobre os dois.
Quando me viram, as expressões deles mudaram.
O rosto de Fiona se compôs numa máscara de preocupação ensaiada, enquanto os olhos de Ethan brilharam com algo mais complexo — culpa, talvez, ou arrependimento. Nenhuma dessas emoções ia me ajudar agora.
— Tori! — chamou Fiona, a voz carregando a doçura artificial que um dia já me enganou. Ela deu alguns passos na minha direção, o salto de grife estalando no asfalto.
— Você finalmente saiu! A gente veio especialmente pra te buscar.
Minha loba, Tracy, rosnou baixo na minha mente, um aviso de que eu nem precisava.
Cada instinto de Ômega que eu tinha gritava para eu manter distância dessa fêmea que tinha se mostrado mais perigosa do que qualquer Alfa.
Fiquei em silêncio, o rosto cuidadosamente neutro. Anos na detenção tinham me ensinado a esconder minhas emoções.
— Você está... nada mal — continuou Fiona, os olhos castanhos‑dourados me examinando de cima a baixo, avaliando o jeans barato e a camiseta desbotada que eu usava.
— Errar não tem problema, contanto que você tenha aprendido a lição lá dentro.
O tom de condescendência na voz dela era inconfundível.
Na cabeça dela, eu tinha realmente cometido o crime do qual fui acusada — matar Noah Morris a sangue-frio.
Um crime para o qual ela tinha ajudado a me incriminar.
Ethan estava um pouco atrás de Fiona, a postura alta e rígida de tensão. Quando nossos olhares se encontraram, ele deu um passo à frente.
— Tori, por favor, deixa a gente te levar pra casa — ele disse, a voz mais grave do que eu lembrava. — É o mínimo que eu posso fazer.
Estudei o rosto dele — o rosto que um dia eu tinha decorado em detalhes amorosos — e não senti nada além de um vazio gelado. Quatro anos na detenção tinham queimado qualquer sentimento que eu já tivera por ele. Onde antes havia amor e desejo, agora só existia a lembrança oca da traição.
— Não, obrigada — respondi, seca. — Prefiro o ônibus.
Continuei andando, a cabeça erguida apesar do peso dos olhares deles.
Atrás de mim, ouvi o estalo dos saltos de Fiona quando ela avançou, claramente insatisfeita com a minha reação controlada. Ela tinha vindo esperando lágrimas ou raiva — alguma confirmação de que tinha vencido.
— Tori! — ela chamou, a voz artificialmente animada e deliberadamente alta o suficiente pra todo mundo por perto ouvir. — Ah, eu esqueci de te contar — o Ethan e eu vamos ter nossa cerimônia de acasalamento semana que vem. A união das famílias Grayson e Price. Você devia ir — vai ser o evento da temporada!
As palavras dela eram adagas calculadas, cada uma feita pra perfurar qualquer armadura que eu tivesse construído. Eu conseguia sentir o olhar de Ethan queimando minhas costas, intenso o bastante pra deixar marca.
Mas isso não importava mais.
— Parabéns — falei sem me virar, a única palavra caindo entre nós como gelo.
Eu não tinha nenhuma ilusão sobre o meu lugar nesta cidade.
Como uma Ômega com ficha criminal, eu existia no degrau mais baixo de uma sociedade que já era estratificada pelas hierarquias de lobos.
O ponto de ônibus estava vazio quando cheguei, o quadro de horários mostrando que eu ainda tinha quinze minutos de espera. Fiquei de costas retas, apesar do cansaço se infiltrando pelo meu corpo.
Uma súbita mudança no ar fez os pelos da nuca se arrepiarem.
Minha loba ficou alerta na mesma hora. Um Alfa estava por perto — e não era qualquer Alfa. A aura poderosa que irradiava na minha direção falava de força e status excepcionais.
Olhei pela rua acima e vi — um carro esportivo preto como a meia-noite, de linhas elegantes, vidros escurecidos, o design personalizado e as placas especiais marcando sem dúvida que pertencia a um Alfa de alta patente.
O veículo passou pelo ponto de ônibus em velocidade deliberadamente lenta, o motorista invisível atrás do vidro escuro.
Minha loba instintivamente baixou a cabeça em submissão, mesmo enquanto eu lutava pra manter a postura desafiadora.
O ônibus finalmente dobrou a esquina, os freios rangendo quando encostou na calçada.
Quando estiquei a mão para segurar o corrimão e subir, um movimento na minha visão periférica chamou minha atenção.
O carro preto ainda não tinha ido embora.
Nesse instante, o vidro escurecido do passageiro desceu só o suficiente pra eu vislumbrar um par de olhos me observando. Mesmo àquela distância, eu conseguia sentir a intensidade deles — penetrantes, calculistas e absurdamente profundos, como olhar para um lago congelado à meia-noite.
Minha respiração prendeu involuntariamente, e por um segundo desorientador, o resto do mundo pareceu desaparecer.
A tosse impaciente do motorista quebrou o feitiço.
Subi apressada, as portas se fechando atrás de mim com um chiado hidráulico que pareceu me selar longe de quem quer que estivesse me observando com um interesse tão perturbador.
