Capítulo 2
POV do Lucas:
A pasta de couro nas minhas mãos continha todos os detalhes da próxima cerimônia de acasalamento.
Estudei os termos uma última vez enquanto meu carro esportivo deslizava pelas ruas.
Minha família tinha me encarregado de finalizar os arranjos entre meu sobrinho Ethan e Fiona Price.
— Devemos chegar na propriedade dos Price em quinze minutos, Alpha — anunciou meu Beta, Jack Green, do volante, os olhos encontrando os meus rapidamente pelo retrovisor.
Assenti e voltei aos documentos.
A aliança entre Ethan e Fiona não tinha sido ideia minha — o pai de Ethan, Richard, tinha organizado tudo, acreditando que isso fortaleceria as duas famílias.
Como Alpha e tio de Ethan, eu só tinha sido encarregado de acertar os detalhes e representar os interesses da nossa família nos preparativos da cerimônia.
Minha mãe, Elizabeth Grayson, tinha sido particularmente insistente para que eu cuidasse disso pessoalmente, um lembrete nada sutil da impaciência crescente dela.
“Até o Ethan já encontrou o caminho pro acasalamento.” As palavras da minha mãe, na nossa ligação de manhã, ecoaram na minha mente.
“Lucas, você tem trinta e um anos. Já passou da hora de encontrar a sua Luna. Todo Alpha da sua idade já tem filhotes correndo pelo território.”
Engoli o suspiro. Ela nunca perdia a chance de lembrar do meu fracasso em encontrar uma parceira.
A maioria dos Alphas encontrava suas Lunas por volta dos vinte e poucos anos.
Aos trinta e um, eu era uma anomalia — algo que minha mãe achava cada vez mais preocupante.
— O conselho já começou a comentar — ela ainda tinha dito. — Um Alpha sem Luna é visto como incompleto.
Mas eu tinha permanecido firme na minha solidão, para frustração de toda a família.
Ao contrário de outros Alphas, que escolhiam suas parceiras por vantagem política ou linhagem compatível, eu tinha esperado pela única loba que a Deusa da Lua tinha escolhido especificamente pra mim. Minha companheira destinada.
Eu me recusava a aceitar um arranjo conveniente que me deixasse eternamente imaginando se ela estava em algum lugar por aí, me procurando, assim como eu procurava por ela.
O carro esportivo diminuiu a velocidade quando nos aproximamos de um semáforo na saída de Moonhaven.
Então aconteceu, de repente.
Uma onda violenta explodiu no meu peito, como nada que eu tivesse sentido em três décadas de vida.
Meu coração batia contra a caixa torácica com tanta força que achei que fosse atravessá-la. Meu lobo, Duke, despertou de repente com uma ferocidade que me deixou atônito, uivando e tentando tomar o controle.
LUNA. COMPANHEIRA.
Os pensamentos primais não eram meus, mas de Duke, inundando minha consciência com uma intensidade que fez minha visão embaçar. Meus dedos apertaram involuntariamente a borda de couro da pasta, garras surgindo parcialmente sem a minha permissão.
— Para o carro. — Minha voz saiu num comando gutural, carregada do timbre de Alpha que não admitia desobediência.
Jack reagiu na hora, encostando com eficiência treinada.
— Alpha? Tá tudo bem?
Eu não consegui responder de imediato. Estava lutando pelo controle contra a revolta sem precedentes do meu lobo.
Duke sempre fora disciplinado, quase tão controlado quanto eu. Essa reação ia contra tudo que eu sabia sobre a nossa existência em comum.
ENCONTRE-A. REIVINDIQUE-A. PROTEJA.
Respirei fundo, tentando me recentrar.
Foi então que o cheiro dela me atingiu — notas delicadas de dama-da-noite e geada de inverno, com uma doçura por baixo que eu não conseguia identificar. Aquilo passou por cima de qualquer pensamento racional, despertando algo primitivo e antigo.
“Alfa?” A voz preocupada de Jack finalmente rompeu minha névoa.
“Eu tô bem.” A mentira teve um gosto amargo na minha língua. “Tem alguém naquele ponto de ônibus. Você tá vendo ela?”
Os olhos de Jack seguiram a direção do meu olhar até onde uma jovem estava sozinha.
Mesmo àquela distância, eu conseguia sentir o desconforto dela, a postura rígida de quem tenta parecer mais forte do que realmente se sente.
“A garota de roupa desbotada? Sim, senhor.”
A descrição displicente me irritou de um jeito inexplicável. Ela não era só “a garota de roupa desbotada”. Ela era... tudo.
A constatação me atingiu com uma clareza surpreendente: aquela reação só podia significar uma coisa. Depois de trinta e um anos, eu tinha encontrado a minha parceira destinada.
Observei o ônibus encostar no ponto, as portas se abrindo com um chiado.
Pouco antes de ela subir, virou a cabeça na minha direção. Os olhos prateado-acinzentados dela pareciam encontrar os meus sem hesitar.
Aquele único olhar — que não durou nem um segundo — lançou um raio de confirmação elétrica por todo o meu ser. Duke uivou vitorioso dentro de mim, e eu apertei o apoio de braço com tanta força que o couro rachou sob meus dedos.
PARCEIRA. NOSSA. FINALMENTE.
Duke rosnava e rondava dentro de mim, o impulso primitivo de saltar do carro e reivindicá-la sendo avassalador.
MARQUE-A. MOSTRE A TODOS QUE ELA É NOSSA.
Mas meu lado racional reagiu com a mesma intensidade.
Eu tinha esperado trinta e um anos por esse momento — não ia estragar tudo com uma demonstração grosseira em público que a deixaria apavorada. Não, quando eu a reivindicasse, não seria num encontro às pressas num ponto de ônibus.
Ela viria até mim de bom grado, completamente. Eu possuiria o corpo dela, a mente dela, a confiança dela — tudo. E, pra isso, eu precisava de paciência.
Assisti ao ônibus se afastar da calçada, sumindo na esquina com a minha parceira lá dentro.
Cada músculo do meu corpo se retesou com o esforço de não ordenar que Jack o seguisse. Os uivos frustrados de Duke ecoavam na minha mente, mas eu me obriguei a permanecer composto.
“Jack”, falei, com a voz cuidadosamente controlada apesar da tempestade dentro de mim, “descubra quem é aquela garota.”
“Sim, Alfa.” Jack não questionou a ordem, embora a curiosidade emanasse dele. “E a reunião com os Price?”
Olhei para as minhas mãos, onde as garras tinham se estendido por completo.
“Remarca”, ordenei, flexionando os dedos com esforço pra retrair as garras. “Diz pro Alexander Price que surgiu algo urgente. Vamos nos reunir amanhã.”
“Claro, Alfa.” O tom de Jack continuou profissional, mas eu peguei o olhar preocupado dele pelo retrovisor.
“Me leva pra casa. Eu preciso... recuperar a compostura antes de lidar com os assuntos da alcateia.”
