Capítulo 3

POV da Tori:

Sem ter para onde ir depois que fui solta, eu tinha voltado para a casa dos Price, mesmo sabendo que não era bem-vinda.

Os ombros frios, os olhares displicentes e os insultos sussurrados tinham se tornado tão rotina que eu mal registrava mais—era só mais uma parte da vida diária como a Ômega indesejada da família.

— Preste atenção — minha mãe, Hannah, tinha dito ontem, mexendo o café com uma precisão quase calculada.

— Se você vai morar debaixo deste teto e estudar no Colégio Moonridge, vai ter que seguir as nossas regras. — Os olhos dela finalmente se ergueram para encontrar os meus, frios e inflexíveis. — Alexander está disposto a bancar a sua educação. O mínimo que você pode fazer é demonstrar um pouco de gratidão, se comportando direito e não envergonhando ainda mais esta família.

Eu só assenti, já não me surpreendendo com a frieza dela.

Hoje, Hannah tinha mandado Lydia, a nossa governanta, “encontrar algum lugar apropriado” para eu ficar.

— Venha comigo, senhorita Sullivan — Lydia disse baixinho enquanto a gente subia a imponente escadaria.

Lydia era uma loba mais velha, com cabelos grisalhos e olhos gentis. Ela nunca tinha sido abertamente hostil comigo, o que praticamente já contava como amizade, naquela casa.

A gente tinha acabado de chegar ao patamar do segundo andar quando um cheiro familiar me atingiu — perfume cítrico sobreposto ao almíscar natural, com um fundo de amaciante de roupa caro.

— O que é que ela tá fazendo aqui?

A voz cortou o ar como uma navalha.

Mia Price estava no fim do corredor, braços cruzados sobre o suéter de grife, o cabelo loiro perfeitamente arrumado, como sempre. Ela era irmã da Fiona.

— Senhorita Mia — Lydia cumprimentou, com a deferência treinada. — A senhora Price me pediu para providenciar acomodação para a senhorita Tori.

Os olhos de Mia se estreitaram enquanto ela me avaliava, o lábio se curvando num meio sorriso de desdém.

— A assassina ainda tem a cara de pau de voltar. — As palavras eram dirigidas à Lydia, mas o olhar permanecia preso em mim, me ignorando como pessoa ao mesmo tempo em que me reconhecia como ameaça.

Mantive a expressão neutra, olhos baixos.

— A senhora Price pediu… — Lydia começou.

— Ótimo — Mia cortou, abanando a mão com desdém. — Coloca ela no quarto de canto da ala oeste.

Lydia hesitou, e o cheiro dela mudou para desconforto.

— Nos antigos aposentos do caseiro? Mas, senhorita Mia, aquilo não é devidamente mantido há anos. Até os quartos dos funcionários são melhores…

— Esta ainda é a casa dos Price, não é? — o tom de Mia ficou mais afiado. — É o meu pai que paga o seu salário, não a Hannah, e muito menos a Ômega rejeitada dela.

Ela olhou diretamente para mim pela primeira vez.

— Só porque eu aceitei a nova esposa do meu pai não quer dizer que eu tenha que aceitar você.

— A ala oeste serve — eu disse baixinho, mais para poupar Lydia do constrangimento do que por qualquer outra coisa.

Mia estreitou um pouco os olhos, um brilho de satisfação passando pelo rosto ao ver minha conformidade.

— Pelo menos você sabe o seu lugar.

Ela se virou e foi embora, liberando de propósito uma onda do cheiro dela ao passar, um comportamento instintivo de dominância que deixou a minha loba inquieta.

Lydia suspirou assim que Mia saiu do alcance da voz.

— Sinto muito, senhorita Sullivan. Talvez a gente possa falar com a senhora Price sobre um lugar mais adequado…

— Não — eu disse firme. — A ala oeste está ótima. De verdade.

Eu já sabia que era melhor não esperar que Hannah ficasse do meu lado em nada.

Os olhos gentis de Lydia se encheram de preocupação, mas ela assentiu e me conduziu por uma sequência de corredores cada vez mais negligenciados.

O carpete macio da parte principal da casa foi dando lugar ao assoalho de madeira gasto, e o papel de parede elegante foi sendo substituído por tinta descascada.

Quando finalmente chegamos à porta no fim do corredor dos empregados, Lydia tirou uma velha chave de latão que parecia pertencer a um museu, e não a uma casa moderna.

A porta se abriu rangendo, revelando um quartinho empoeirado, com uma única janela. O cheiro mofado de abandono invadiu minhas narinas sensíveis, misturado a traços de roedores e mofo.

Uma cama estreita, com o colchão afundado, ficava encostada em uma das paredes, ao lado de uma cadeira de madeira que já tinha visto décadas melhores. Uma cômoda pequena, com uma gaveta faltando, completava a mobília. O banheiro anexo não passava de um cubículo com louças antigas.

O rosto de Lydia corou de constrangimento enquanto ela examinava o espaço miserável.

— Senhorita Sullivan, isso simplesmente não serve — ela disse, retorcendo as mãos. — Por favor, deixe eu falar com alguém pra conseguir um quarto mais apropriado pra você. Até os alojamentos dos funcionários seriam...

— Tá ótimo — repeti, entrando e largando minha única bolsa de viagem no chão. — Eu já morei em lugares piores.

As celas do centro de detenção eram menores, mais frias e compartilhadas com outros prisioneiros que viam uma Ômega como presa liberada. Este quarto, apesar do estado, oferecia algo que eu não tinha há quatro anos: privacidade.

Lydia ficou parada na porta, indecisa.

— Pelo menos deixa eu trazer alguns produtos de limpeza e roupa de cama limpa.

Assenti, oferecendo a ela um pequeno sorriso que parecia estranho no meu rosto.

— Obrigada.

Quando ela saiu, sentei na beirada da cama, ouvindo as molas protestarem debaixo de mim. Pela janela encardida, eu conseguia ver a beira do bosque que cercava a propriedade dos Price — selvagem, indomado, convidativo.

Minha loba se agitou sob a minha pele, ansiando por uma corrida que a gente não podia arriscar. Ainda não. Como parte das condições da minha soltura, eu estava proibida de me transformar nos primeiros dois meses.

Como se ter ficado trancada por quatro anos já não fosse castigo suficiente.

Olhei em volta, para o que seria minha casa no futuro próximo.

Não era grande coisa, mas era um ponto de partida. E pontos de partida eram tudo que eu tinha tido na vida.

Depois de várias horas esfregando, varrendo e tirando o pó, consegui transformar o espaço de inabitável em apenas deprimente.

Minhas roupas estavam imundas, o cabelo preso num rabo de cavalo malfeito e cada centímetro de pele exposta coberto de sujeira. Meu estômago roncando me lembrou que eu não comia desde o café da manhã miserável que tinha conseguido pegar antes da bronca matinal da Hannah.

Olhei o relógio antigo na parede — quase meio-dia.

A casa principal estaria uma correria com os preparativos do almoço. Talvez eu conseguisse entrar na cozinha, pegar alguma coisa rápida e voltar pro meu refúgio antes que alguém percebesse.

Sem essa sorte.

Enquanto eu atravessava o corredor principal, vozes vinham da entrada grandiosa.

O barítono inconfundível de Alexander Price ecoava pela casa — ele tinha chegado mais cedo do trabalho. Eu congelei, pensando em voltar, quando captei outro cheiro que fez minha loba ficar em alerta imediato.

Alfa. Poderoso. Desconhecido.

Antes que eu pudesse escapar, Alexander e seu convidado dobraram a esquina. Agora não havia como fugir.

No segundo seguinte, o ar travou na minha garganta quando dei de cara com os olhos azul-acinzentados mais marcantes que eu já tinha visto.

Eram os mesmos olhos que tinham se prendido aos meus na rodoviária ontem.

Profundos como céus de inverno antes da tempestade, pareciam me puxar como uma força gravitacional. Por um momento, esqueci de tudo — onde eu estava, quem eu era, a poeira que cobria minhas roupas.

Me obriguei a desviar o olhar, o coração martelando contra as costelas.

Alexander parou de repente quando me viu, as sobrancelhas se franzindo ao notar meu estado.

— Tori? O que aconteceu com você?

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