Capítulo 4

POV da Tori:

Os olhos de Alexander percorreram minhas roupas cobertas de poeira com clara insatisfação.

Antes que eu pudesse responder, Lydia apareceu carregando roupas de cama limpas.

Ela ficou paralisada ao ver todo mundo reunido.

— Lydia — Alexander se dirigiu a ela imediatamente. — Por que a Tori está com essa aparência de quem andou se arrastando pelo sótão?

— Senhor, eu... — Lydia hesitou, claramente desconfortável por estar no meio de um assunto de família. — A senhorita Mia sugeriu acomodar a senhorita Sullivan nos antigos quartos da ala oeste abandonada. Ela está preparando o quarto neste momento.

Antes que a conversa pudesse continuar, Hannah surgiu na curva do corredor.

Os olhos dela se iluminaram na mesma hora ao ver Lucas Grayson, e ela se aproximou rapidamente com um sorriso ansioso, aparentemente alheia à tensão no corredor.

— Alpha Lucas! Que surpresa mais agradável — ela exclamou, alisando a já impecável blusa de seda. — Eu não fazia ideia de que o senhor viria hoje.

Lucas assentiu educadamente, a expressão cortês, porém reservada.

— Senhora Price.

Eu travei ao ouvir o nome. Lucas. Como em Lucas Grayson, Alpha da Matilha Grayson? O lobisomem mais poderoso de Moonhaven?

Lucas encontrou meu olhar e perguntou a Hannah:

— Quem é essa? Eu pensei que você só tivesse duas filhas.

Hannah piscou, finalmente notando minha presença empoeirada. O sorriso dela vacilou; um lampejo de desaprovação passou por seu rosto antes que ela se recompusesse.

— Ah — disse ela, o tom esfriando visivelmente. — Esta é a Tori, minha filha do meu relacionamento anterior.

Ela enfatizou “anterior” como se fosse uma doença.

— Ela voltou para nós recentemente depois de... um tempo afastada.

Os olhos de Hannah se estreitaram enquanto ela olhava de Lucas para mim.

— Espero que ela não tenha lhe faltado com o respeito de alguma forma, Alpha?

— De maneira nenhuma — respondeu Lucas com suavidade, embora o olhar dele permanecesse em mim com uma certa intensidade. — No entanto, parece que vocês têm alguns assuntos domésticos para resolver.

Algo perigoso brilhou nos olhos dele — uma reação primal rapidamente contida.

Ele manteve a postura de Alpha, apenas o leve dilatar das narinas traindo sua agitação.

Ele se moveu para ficar ao lado da lareira, deixando claro que pretendia observar como aquilo ia se desenrolar.

O rosto de Alexander corou de constrangimento quando ele lançou um olhar para a figura imponente ao seu lado.

Seu maxilar se contraiu.

— Encontre a Mia e traga-a aqui. Imediatamente.

O som familiar do salto de Mia ecoando no chão anunciou a chegada dela pouco depois.

— O senhor já voltou, papai? — A voz dela era doce como mel, até que me viu. Os olhos se arregalaram numa surpresa teatral. — Tori! O que aconteceu com você?

A atuação era tão convincente que eu quase aplaudi.

— Você se importaria de explicar por que a Tori está morando na ala oeste abandonada? — perguntou Alexander, em um tom cuidadosamente controlado.

A expressão de Mia mudou para uma confusão inocente.

— Ala oeste? Eu nunca disse que ela devia ficar lá.

O rosto de Lydia empalideceu.

— Mas senhorita Mia, a senhora disse especificamente...

— Eu nunca colocaria ninguém naqueles quartos velhos e horríveis — Mia a interrompeu, com os olhos bem abertos em falsa sinceridade. — Sinceramente, Lydia, como você pôde achar que eu seria tão cruel?

— Senhorita Mia, por favor — a voz de Lydia tremia de urgência. — Eu nunca tomaria esse tipo de decisão sozinha.

Mia se virou para o pai, os olhos arregalados numa inocência cuidadosamente encenada.

— Pai, você sabe que eu nunca faria uma coisa dessas!

Antes que Alexander pudesse reagir, Hannah avaliou a situação num instante e deu um passo à frente, os olhos faiscando com um instinto materno protetor — não por mim, claro, mas por Mia.

— Chega — disse Hannah, a voz afiada enquanto apontava para Lydia. — Arrume suas coisas e vá embora imediatamente. Não toleramos mentirosos nesta casa.

O rosto de Lydia se desmanchou.

Ela abaixou a cabeça e a inclinou de leve, expondo o pescoço — um gesto de submissão entre os nossos, principalmente quando um lobo de hierarquia mais alta dá uma ordem.

— Por favor, senhora Price — sussurrou Lydia, com a voz trêmula. — Eu tenho três filhotes em casa. Eu preciso deste emprego.

— Você devia ter pensado nisso antes de mentir sobre a minha filha — respondeu Hannah friamente.

Eu não tinha planejado me meter.

Mas ver Lydia — que não tinha me mostrado nada além de gentileza desde que voltei — prestes a perder o sustento por causa das mentiras de Mia acendeu alguma coisa dentro de mim.

— Ela não está mentindo — eu disse, a voz baixa, mas firme.

Todos os olhares se voltaram para mim. — Eu estava lá quando a Mia deu a instrução.

Os olhos de Hannah se estreitaram, perigosos.

— Tori, eu não gosto que você piore as coisas.

— Eu não estou tentando piorar nada — continuei, reunindo coragem. — E, sinceramente, eu não me importo com o quarto. Eu já limpei a maior parte, e ele está perfeitamente bom para o que eu preciso.

Lydia me lançou um olhar agradecido, os olhos brilhando com lágrimas que ainda não tinham caído.

— Claro que elas vão acobertar uma à outra — Mia se meteu, a voz pingando falsidade sob a aparência de inocência. — Elas claramente combinaram isso. Ela é só uma serviçal Ômega, e a Tori é...

— As câmeras de segurança — interrompeu Lydia, a voz ainda respeitosa, mas agora mais firme.

— O corredor em frente ao quarto da senhorita Mia tem uma câmera de segurança. Ela deve ter gravado a nossa conversa.

A cor sumiu do rosto de Mia.

Sua boca abriu e fechou sem emitir som, como um peixe jogado de repente em terra seca.

— Eu... isso é ridículo — conseguiu dizer por fim, mas a confiança tinha evaporado da voz. — Pai, você não pode realmente acreditar...

Alexander pigarreou, os olhos se estreitando enquanto olhava para Mia.

Ele parecia entender exatamente o que tinha acontecido, enxergando através da encenação da filha com uma clareza tipicamente paterna.

— Mia — disse ele, em um tom controlado, mas firme —, você vai pedir desculpas para a Tori agora.

A boca de Mia se abriu, espantada.

— O quê? Pai, você não tá falando sério! Eu não vou pedir desculpas pra uma Ômega! — Ela cuspiu a última palavra como se fosse veneno na língua.

— Eu tô falando completamente sério — respondeu Alexander, num tom que não admitia discussão.

Os olhos de Mia se arregalaram de indignação.

— Eu nunca vou pedir desculpas pra ela.

— Mia. — A voz de Alexander cortou a reclamação dela como uma lâmina. — Agora. Você tá de castigo por um mês. Sem pedras da lua.

Pedras da lua — a moeda que movia nossa sociedade e dava aos jovens lobos a possibilidade de comprar luxos. Para alguém como Mia, que vivia de compras e programas sociais, aquilo era uma punição devastadora.

— Isso é tão injusto! — Mia gritou, com lágrimas acumulando nos olhos. — Quem é a sua filha de verdade, pai? ELA ou EU?

Ela apontou um dedo acusador para mim antes de subir as escadas, batendo os pés.

Hannah se virou para Alexander, o rosto endurecido.

— Você está sendo duro demais com a Mia. Se alguém tem culpa aqui, é essa Ômega ingrata. — Ela gesticulou na minha direção sem nem olhar pra mim. — Ela é que devia saber o lugar dela e não causar problemas.

Senti um lampejo de ironia com as palavras da minha mãe. Mesmo quando o meu padrasto ficava do meu lado, ela ainda dava um jeito de se voltar contra mim. Hannah Sullivan jamais ficaria ao lado da própria filha.

Ela me lançou um olhar cortante e sussurrou:

— Saiba o seu lugar.

Durante toda aquela cena, eu estava dolorosamente consciente de Lucas Grayson observando tudo com aqueles olhos azul-acinzentados penetrantes, absorvendo cada palavra, cada reação, cada dinâmica de poder em jogo na casa dos Price.

Os olhos azul-gelo dele estavam fixos em Hannah, e eu quase podia sentir ondas de desaprovação emanando dele.

O lobo dele — cujo nome eu não sabia — estava claramente agitado; parecia haver um ronco baixo preenchendo o espaço entre nós, embora nenhum som saísse da boca de Lucas.

Hannah deve ter sentido aquilo também, porque de repente se endireitou, e a expressão dela mudou para uma polidez forçada.

— Alfa Lucas — disse ela, com um sorriso artificial —, por favor, aceite minhas desculpas por essa infeliz cena de família.

Ela apontou em direção à sala de estar formal:

— Vamos para um lugar mais confortável para conversar sobre os preparativos da cerimônia de união do Ethan e da Fiona. Eu preparei alguns petiscos.

Percebendo a minha chance de fugir, eu rapidamente juntei o que ainda faltava das minhas coisas.

— Eu tenho que ir pra escola — falei, ansiosa para escapar daquela tensão. Sem esperar resposta, saí pela porta em passos apressados.


Trinta minutos depois.

Eu estava em frente à secretaria do Colégio Moonridge. A senhora Sarah Blake, a professora responsável pela minha turma, me recebeu com uma cordialidade inesperada.

— Tori Sullivan —, ela disse, sorrindo enquanto analisava meu arquivo. — Seus registros acadêmicos anteriores são bem impressionantes. Principalmente em estudos de ciclos lunares.

Assenti, sem saber direito como reagir a elogios depois de tanto tempo sem receber nenhum.

O cálculo do ciclo lunar era uma habilidade muito valorizada na sociedade lobisomem — a capacidade de prever com precisão como as fases da lua afetavam nossa força e nossas habilidades podia significar a diferença entre vitória e derrota em desafios, ou a escolha do momento ideal para cerimônias importantes.

— Deixa eu te mostrar a escola — ela ofereceu, guiando-me pelos corredores do Colégio Moonridge. Outros alunos encaravam enquanto a gente passava.

Quando chegamos ao refeitório, a senhora Blake explicou o sistema do almoço:

— Você vai precisar carregar pedras lunares no seu cartão de estudante.

Hesitei.

— Eu... não tenho nenhuma pedra lunar agora.

Um lampejo de compreensão passou pelo rosto dela. A senhora Blake enfiou a mão no bolso e pressionou dez pedrinhas luminosas na minha palma.

— Isso deve dar para a primeira semana — disse em voz baixa. — A escola tem programas de ajuda para alunos na sua situação.

— Obrigada — sussurrei, apertando as pedras com força.

Hannah não tinha me dado uma única pedra lunar para despesas de vida — não que eu tivesse esperado algo diferente dela.

Ao contrário da Mia, que recebia uma mesada generosa toda semana, eu ia precisar me virar sozinha. As dez pedras que a senhora Blake me dera não iam durar muito, e eu não podia ficar aceitando caridade. Eu precisava arrumar trabalho, e rápido.

Depois de deixar fichas de cadastro em mais de uma dúzia de lugares, descobri depressa como eram poucos os estabelecimentos dispostos a contratar uma Ômega, ainda mais uma com o meu histórico.

Quando eu já estava quase desistindo, finalmente consegui uma vaga na “Moonlight Shadow”, um café na Praça do Uivo que atendia clientes de diferentes patentes.

O gerente, um lobo mais velho chamado Greg, tinha mostrado hesitação no começo, até eu demonstrar minhas habilidades de cálculo somando na hora pedidos complexos com descontos percentuais.

Ele ergueu as sobrancelhas, visivelmente impressionado.

— Uma Ômega com habilidades de cálculo como as suas é raro — ele disse, oferecendo o emprego na mesma hora. — Você vai ser útil nos horários de pico, quando o caixa fica atolado. Venha trabalhar depois da aula.

Assenti, agradecida. Era perfeito: eu podia ir à escola de dia e trabalhar nos turnos da noite até o fechamento.

Quanto menos tempo eu passasse na casa dos Price, melhor.

Ninguém lá queria minha presença mesmo, então minha ausência ia ser um alívio para todo mundo. Eu podia entrar de fininho tarde da noite, dormir algumas horas e sair antes de qualquer um acordar.

O que eu não percebia naquela época era o quão perigosas as noites podiam ser para uma Ômega sozinha.

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