Capítulo 5

POV do Lucas:

Enquanto eu observava Hannah Sullivan bajular a Mia e tratar a Tori com um desprezo escancarado, meu lobo, Duke, rosnou fundo dentro da minha consciência.

Ela trata a própria filha como se valesse menos que lixo.

Eu reprimi a vontade de intervir mais. Embora Alexander tivesse mostrado certa justiça ao disciplinar a filha mimada, Mia, o jeito como Hannah tratava Tori fazia meu sangue ferver.

Ainda assim, essa não era a minha briga — pelo menos não por enquanto.

— Alfa Lucas — disse Hannah, com aquele sorriso artificial ao qual eu já estava acostumado há anos —, por favor, aceite minhas desculpas por essa cena de família tão desagradável. Vamos para um lugar mais confortável pra conversar sobre os preparativos da cerimônia de acasalamento do Ethan e da Fiona.

Tori pareceu perceber a chance de escapar.

— Eu… eu vou pra escola — disse depressa, juntando as coisas.

Ninguém protestou quando ela saiu, fechando a porta com cuidado atrás de si.

No instante em que a porta clicou, alcancei minha xícara de chá com calma.

— Sua filha parece um pouco mimada demais — comentei, em um tom deliberadamente casual, enquanto tomava um gole.

Hannah assumiu automaticamente que eu falava de Tori.

— Eu concordo totalmente, Alfa Lucas — ela disse, assentindo. — Aquela garota precisa de orientação de verdade depois de tanto tempo fora. Garanto que vou ser bem mais rígida com o comportamento dela daqui pra frente.

Meu olhar ficou de gelo quando eu a encarei de um jeito que a fez engolir em seco.

— Eu estava me referindo à Mia — corrigi, com a voz perigosamente suave.

Hannah se enrijeceu, a coluna ficando rígida.

— Bem, a Mia só é muito espirituosa e…

— Hannah. — A voz de Alexander a cortou, enquanto ele pousava uma mão de aviso em seu braço.

Como bom homem de negócios, Alexander entendeu imediatamente o que eu queria dizer.

— O senhor tem toda razão, Alfa Lucas — disse ele, em tom fluido. — Vou garantir pessoalmente que a Mia entenda as consequências dos atos dela. E — acrescentou, lançando um olhar significativo para Hannah — que todos os membros da nossa casa sejam tratados com o devido respeito.

Quando Ethan e Fiona finalmente chegaram, nós mudamos o assunto para a cerimônia de acasalamento. Notei os ombros tensos do meu sobrinho e o jeito como o sorriso dele parecia forçado.

A família Price, especialmente Hannah, dominou a conversa sobre a cerimônia, enquanto Ethan permanecia visivelmente calado.

Sempre me considerei um especialista em esconder emoções, mas a distração do Ethan era gritante. Não era o comportamento de um homem ansioso para reivindicar a fêmea que escolheu.

Depois que terminamos de discutir os detalhes da cerimônia e voltamos para o meu carro, observei:

— Você está estranhamente quieto.

Liguei o motor com mais força do que o necessário.

— Se você vai seguir em frente com esse acasalamento, ao menos tenha a decência de parecer interessado nos preparativos.

Ethan encarava a paisagem pela janela, o reflexo no vidro mostrando um jovem em conflito.

— Tio Lucas — ele disse por fim, com a voz tensa. — Eu acho que cometi um erro. Esse noivado com a Fiona…

— Chega. — Cortei antes que ele terminasse. — Isso não é brincadeira, Ethan. Se você aceitou esse acordo, tem que ir até o fim. Se não queria, não devia ter concordado desde o início. Voltar atrás no meio do caminho não é uma opção.

— Mas…

— Não existe “mas”. — Meu tom não dava espaço pra discussão, embora uma lembrança insistisse em me incomodar.

Richard havia mencionado a ex-namorada do Ethan — alguém que tinha sido presa por algum crime. Na época, Ethan chegou a implorar pela minha ajuda, mas eu me recusei a me envolver. Agora fazia sentido por que Richard estava empurrando essa cerimônia de acasalamento com tanta urgência: ele devia ter previsto a hesitação do Ethan assim que a ex fosse solta.

Estudei o perfil abatido do meu sobrinho, genuinamente intrigado. O que havia nessa mulher que deixava Ethan tão obcecado? Ela tinha ido pra prisão, pelos Deuses da Lua. Como é que uma mulher com esse tipo de passado podia valer tamanha devoção?

— Seja lá no que — ou em quem — você está pensando, esquece — acrescentei friamente.

Ethan se calou, os ombros desabando em resignação. O resto do caminho seguiu em um silêncio tenso.


De volta à propriedade dos Grayson — a vasta casa ancestral da Matilha da Lua Cinzenta, que servia tanto de residência quanto de sede da matilha —, Ethan voltou pro quarto rapidamente, com uma expressão sombria.

Eu mal tinha descido do carro quando Morgan Baker, a filha da nossa governanta, surgiu pulando pela garagem, chegando da escola.

"Boa tarde, Alfa Lucas!", ela chamou com o entusiasmo de sempre, os olhos se iluminando ao me ver.

Normalmente eu só teria feito um aceno de cabeça e seguido meu caminho, mas algo chamou minha atenção — o uniforme escolar dela. O blazer azul-marinho com acabamento prateado me pareceu familiar, idêntico ao que a Tori estava usando de manhã. Eu parei, olhando de novo.

"Morgan", eu disse, interrompendo meus passos.

Ela congelou no meio do movimento, os olhos se arregalando de surpresa. Por um instante, olhou por cima do ombro, como se quisesse confirmar que eu estava mesmo falando com ela e não com outra pessoa.

"S-sim, Alfa Lucas?", gaguejou, claramente desconcertada com a atenção inesperada.

"Esse uniforme — é de que escola?"

"Moonridge High, Alfa." A expressão dela era confusa.

"A escola recebeu uma aluna nova recentemente? Tori Sullivan?"

O rosto da Morgan se iluminou. "Sim! Ela tá na minha turma. Parece que ficou fora por quatro anos. Todo mundo só fala dela."

Os olhos dela se estreitaram um pouco, curiosos. "O senhor conhece ela, Alfa Lucas?"

Eu não respondi à pergunta, mantendo a expressão impassível. Em vez disso, perguntei: "Como ela tá se adaptando à escola?"

"Bem..." Morgan começou, visivelmente contente em poder compartilhar alguma informação, "ela fica mais na dela. Quase não conversa com ninguém." Ela passou a mochila pro outro ombro. "Também reparei que ela arrumou um emprego no Café Moonlight Shadow, depois da aula. Deve ser puxado equilibrar escola e trabalho."

Eu processei essa informação em silêncio, sentindo a testa franzir antes que eu conseguisse controlar. Por que uma estudante do ensino médio, morando com a família Price, precisaria trabalhar? A propriedade deles talvez não se comparasse ao território dos Grayson, mas ainda assim era grande o suficiente pra que uma adolescente não precisasse de um emprego depois da aula pra se virar.

A frieza da Hannah com a Tori veio à minha mente — o tom displicente, o desprezo mal disfarçado. Se ela tratava a própria filha daquele jeito na frente de um Alfa convidado, como devia ser quando não tinha ninguém importante olhando?

Depois de um momento de hesitação, eu disse: "Quero que você cuide dela na escola."

"Cuidar dela?", Morgan repetiu, surpresa.

"Garanta que ela se adapte bem", esclareci, mantendo o tom cuidadosamente neutro. "Ajuda se ela precisar."

Os olhos de Morgan brilharam de interesse, cheios de perguntas que ela não ousaria fazer. Ela sabia que não era inteligente insistir em explicações com um Alfa. Em vez disso, apenas concordou com entusiasmo.

"Claro! Vou adorar ajudar ela", disse, quase pulando de animação.

"Morgan", eu alertei, "isso fica entre nós. Ela não pode saber que eu pedi pra você fazer isso."

Ela assentiu com seriedade, apesar dos olhos ainda brilharem. "Pode deixar, Alfa. Segredo total."

"E eu quero atualizações", acrescentei, baixando a voz. "Regulares. Como ela tá se adaptando, com quem tá falando e qualquer problema que aparecer."

"Eu não vou decepcionar o senhor", garantiu, endireitando a postura como se eu tivesse confiado a ela uma missão de extrema importância.

"Ótimo", eu disse com um aceno curto, já me virando em direção à casa principal.

Peguei o celular e mandei uma mensagem para Matthew Howard: Drinks hoje. Distrito Moonlight. 20h.

Matthew era o curandeiro mais talentoso da matilha, conhecido tanto pelas habilidades excepcionais de cura quanto pela habilidade igualmente excepcional de arrancar informações enquanto fingia bater papo casual.

Ele era meu amigo desde a infância, uma das poucas pessoas em quem eu realmente confiava para assuntos pessoais.

A resposta veio quase na mesma hora: Olha só, essa é rara. O grande Lucas Grayson chamando alguém pra beber?

Ignorei a piada. Só aparece.

O bar oferecia uma visão estratégica do nível inferior da Howling Plaza. Eu tinha escolhido nossa mesa com cuidado — posicionada perto da janela, de onde eu podia observar a Tori sem ser notado de imediato.

Ela se movia com uma eficiência graciosa entre as mesas, equilibrando bandejas enquanto desviava de atenções indesejadas de alguns clientes. Mesmo com o uniforme padrão do café, ela mantinha uma dignidade tranquila.

"Lucas? Você tá me ouvindo?"

Matthew Howard passou a mão na frente do meu rosto, quebrando minha concentração. Eu tinha bloqueado tudo ao redor.

"O quê?", perguntei, sem me dar ao trabalho de esconder a irritação.

Matthew acompanhou meu olhar até o café lá embaixo, e as sobrancelhas dele se ergueram quando viu o que — ou melhor, quem — tinha prendido minha atenção.

"Olha, olha", disse ele, com um sorriso de canto de boca, cheio de malícia. "O que será que deixou o famoso ‘Rei de Gelo’ tão fascinado? Uma pequena Omega garçonete?"

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