Capítulo 6
POV do Lucas:
— Ela não é uma Omega qualquer — respondi, sem tirar os olhos da Tori. Havia algo nos movimentos dela — decididos, mas discretos — que prendia minha atenção mais do que qualquer espetáculo chamativo conseguiria.
Matthew se inclinou para a frente, apertando os olhos enquanto olhava para o café. Depois de alguns segundos observando com cuidado, ele se recostou, dando de ombros.
— Não vejo nada de especial. Só uma Omega de olhos prateados trabalhando em atendimento — comentou, tomando um gole da bebida. — Mas isso eu admito: ela é bem bonita.
Não respondi. Meu foco se aguçou quando vi dois lobos se aproximando da mesa da Tori. A postura deles gritava encrenca.
Matthew soltou um suspiro irritado.
— Inacreditável. Você me arrasta pra beber, coisa que acontece talvez uma vez por década, e depois me ignora completamente pra ficar encarando uma garçonete.
Levantei de repente, a cadeira arrastando pelo chão de madeira com um som áspero.
— Lucas? — a voz do Matthew chegou distante, enquanto ele me encarava, a confusão nítida na expressão.
— Ela está em apuros — avisei, seco, já me movendo em direção às escadas.
— O que está acontecendo? — A irritação dele mudou instantaneamente para preocupação quando seguiu a direção do meu olhar. — Ah. Confusão à vista, aqueles caras não parecem amigáveis.
— Eu vou descer lá — declarei, já seguindo para a saída.
— Espera, eu vou junto — Matthew chamou atrás de mim, apressando o passo para me alcançar enquanto eu descia as escadas dois degraus de cada vez.
Quando chegamos à entrada do café, a situação já tinha piorado. Tori estava diante dos dois, a postura firme apesar de estar claramente em desvantagem física. Fiquei nas sombras, do lado de fora, avaliando a cena.
— Vou dizer só mais uma vez — a voz da Tori estava controlada, mas firme. — Vocês precisam pagar a conta.
O mais alto dos dois torceu o lábio em desprezo.
— E o que exatamente você vai fazer se a gente não pagar, ô Omega?
O companheiro dele riu, um som que arranhou meus nervos.
— Talvez ela planeje chamar a patrulha de Guerreiros. Como se eles fossem se incomodar com reclamação de Omega.
Tori não vacilou.
— Há câmeras de segurança e seguranças por toda a Howling Plaza. Se vocês se recusarem a pagar, vou ser obrigada a pedir ajuda.
O rosto do mais alto se contorceu de raiva.
— Você ousa me ameaçar, Omega? — rosnou, levantando a mão. — Vou te ensinar qual é o seu lugar!
O braço dele começou a descer em direção à Tori, mas antes que pudesse encostar nela, segurei o pulso dele com um aperto de ferro.
— Quem diabos ousa interferir? — ele rosnou, se virando com a agressividade ainda queimando nos olhos. — Quer bancar o herói por uma Omega vad…
As palavras morreram na garganta assim que nossos olhos se encontraram. O reconhecimento o atingiu como um golpe, e observei, com uma satisfação fria, toda a cor sumir do rosto dele. Os joelhos vacilaram visivelmente, e o cheiro do medo começou a exalar dele em ondas.
— A-Alpha L-Lucas — gaguejou, a coragem de antes evaporando na hora.
— Algum problema? — perguntei, com a voz perigosamente fria.
— N-não, Alpha — o mais alto balbuciou, se atrapalhando para pegar a carteira. — Só um mal-entendido. A gente já ia pagar.
Eles jogaram dinheiro na mesa às pressas — muito mais do que o valor da conta — e tentaram sair rapidamente em direção à porta.
— Parem. — Minha ordem cortou o ar, fazendo os dois congelarem no lugar.
Semicerrei os olhos e emiti um comando mental pelo vínculo de matilha que todos os Alphas compartilhavam com os seguranças do território. Em poucos segundos, dois guardas Betas uniformizados surgiram na entrada do café, respondendo ao meu chamado silencioso.
— Alfa Lucas — disseram em uníssono, inclinando levemente a cabeça.
— Levem esses dois para o centro de detenção — ordenei, minha voz ecoando pelo café agora silencioso. — Processem-nos de acordo com a lei da matilha por ameaçar uma Ômega e perturbar a paz.
Enquanto os guardas imobilizavam os dois, ergui um pouco mais a voz, garantindo que todos nas proximidades ouvissem minhas próximas palavras.
— Que isso sirva de lembrete a todos os membros da matilha — anunciei, deixando meu olhar varrer os curiosos. — Nossas leis se aplicam igualmente a todos, independentemente de posto ou status. Assédio não será tolerado no meu território, principalmente contra aqueles que vocês consideram mais fracos do que vocês mesmos.
A mensagem estava clara, e vi vários lobos desviarem o olhar em submissão enquanto os guardas escoltavam os encrenqueiros para fora.
Voltei minha atenção para Tori. Ela permanecia calma, seus olhos prateados encontrando os meus com uma compostura impressionante. Não havia sinal da intimidação típica que a maioria dos lobos demonstrava ao encarar um Alfa do meu nível.
— Você está bem? — perguntei, suavizando deliberadamente o tom de voz.
Ela pareceu surpresa com a gentileza na minha voz.
— Sim. Obrigada pela ajuda, Alfa Lucas.
Notei a distância formal que ela mantinha na forma de falar comigo. Sem dizer mais nada, apenas assenti e me virei, indo de volta para o bar onde Matthew me esperava.
Matthew passou a caminhar ao meu lado enquanto subíamos as escadas.
— Que foi aquilo? Desde quando o grande Lucas Grayson intervém pessoalmente em briga de café?
Não respondi de imediato, ainda com a mente na Ômega de olhos prateados lá embaixo.
— Você está estranho hoje — Matthew insistiu, estudando meu rosto atentamente.
Ele lançou um olhar de relance para o café e depois para mim de novo, e eu vi a ficha cair em sua expressão.
— Pera aí... isso é por causa dela? Você finalmente está pronto pra arrumar uma parceira?
A voz dele foi ficando cada vez mais animada.
— É isso! Você finalmente encontrou alguém que te interessa! Graças à Deusa da Lua! Eu já estava começando a achar que você era gay e que estava secretamente apaixonado por mim todos esses anos.
Lancei-lhe um olhar fulminante que faria a maioria dos lobos se encolher.
Matthew imediatamente ergueu as mãos em rendição.
— Brincadeira! Claramente brincadeira. — Ele pigarreou. — Mas falando sério, o que é tão especial nessa aí?
Hesitei apenas por um instante antes de decidir ser direto:
— Ela é minha companheira destinada.
Matthew, que acabara de dar um gole na bebida depois que voltamos para a mesa, engasgou feio. Quando conseguiu se recuperar do acesso de tosse, ficou me encarando com os olhos arregalados.
— Sua O QUÊ? Sua COMPANHEIRA DESTINADA? Tipo, escolhida-pela-Deusa-da-Lua, laço-mágico-uma-vez-na-vida companheira destinada? — A voz dele subiu tanto de tom que vários clientes das mesas ao lado se viraram para olhar.
Fixei nele um olhar impassível.
— Quer aproveitar e anunciar pra matilha inteira? Acho que o pessoal dos Territórios do Norte ainda não te ouviu direito.
Os olhos de Matthew se arregalaram de horror ao perceber o quanto tinha falado alto. Ele levou a mão à boca e se encolheu na cadeira, olhando ao redor desesperado para ver quem poderia ter escutado.
— Foi mal — murmurou por entre os dedos, com uma expressão que misturava constrangimento e choque persistente. — Mas você não pode simplesmente soltar uma bomba dessas e esperar que eu fique calmo. Isso é... isso é gigantesco!
