Capítulo 1

Ponto de vista de Elowen

Passei o pano no balcão do Red Wolf, o suor escorrendo pela minha nuca. O lugar fervia de calor naquela noite. A despedida de solteira da Cindy lotou a casa. Como melhor amiga dela, eu tinha que brilhar. Mas eu também sou só uma atendente de meio período aqui. Minha vida é uma bagunça de papéis, sempre me virando para equilibrar quem eu deveria ser.

Casper e Cindy são filhos de Alfas da Matilha Thornwood. Eu sou Elowen Hartley, a amiga de todas as horas da Cindy. Casper também tem um gêmeo, o Cassian. Eles são poder e privilégio. Eu? Sou filha de um Beta, sempre deixada de lado. Ainda assim, esse bar às vezes é minha fuga.

Casper entrou com passos firmes vindo dos fundos. Meu coração deu um baque. Aqueles olhos âmbar me atravessaram. A cicatriz na sobrancelha direita se destacava. O cabelo castanho-avermelhado brilhava sob as luzes de neon. Duas lobas se penduravam nele. Odiava as risadinhas delas na mesma hora. A camisa dele marcava o peito, justa. Cada músculo se contraía quando ele se movia. Um fogo acendeu sob a minha pele. Meu Deus, por que tinha que ser ele?

— Está tudo pronto, lobinha? — ele perguntou.

A voz dele cortou o barulho. Grave, áspera e perigosa. Meu estômago virou. Ele se inclinou mais sobre o balcão. O cheiro dele — pinho e fumaça — me atingiu com força. Precisei segurar no tampo para não perder o equilíbrio.

— Sim, chefe. Tudo certo! — respondi, animadinha.

Eu soei fraca pra caramba. Aff, por que eu sou assim?

Então Drake Reid, meu namorado, apareceu. Veio direto até mim. Os lábios dele pressionaram minha bochecha com força.

— Noite cheia hoje, minha lobinha? — ele murmurou.

Senti olhares em cima da gente. O olhar de Casper queimava da área VIP. O maxilar dele latejou, os lábios apertados. Ele não gostou daquele beijo. Nem um pouco! A mão dele se fechou no corrimão. Os nós dos dedos ficaram brancos.

— Só o turno de sempre — respondi, tentando manter a voz firme. — Nada de especial planejado.

Antes que Drake pudesse dizer mais alguma coisa, Cindy surgiu como um furacão e agarrou meu braço.

— Vem, gata! Hora do intervalo! — Ela praticamente me empurrou em direção à sala de descanso, com aquela energia contagiante de sempre.

Olhei por cima do ombro e vi Casper na seção VIP, a expressão indecifrável. Drake ficou junto ao bar, distraído por alguém chamando seu nome.

Já na sala de descanso, Cindy me jogou no sofá gasto. Casper ficou por perto, parado junto à porta. Ela tirou uma caixa de veludo com um floreio. Os olhos azuis dela brilhavam de travessura, e a saia prateada cintilava sob a luz fraca.

— Veste isso, amiga! — ela guinchou. — O Drake vai pirar!

Juno, meu espírito-lobo, rosnou dentro de mim. É bom mesmo, ou eu tô fora!

— Cindy, sério — suspirei. — Do que se trata isso, afinal?

— É tradição, garota! — ela riu. — Mostra o seu poder! O Drake anda distante ultimamente. Faz ele implorar hoje!

Revirei os olhos.

— Ele mal me nota.

— Então acorda ele! — ela retrucou. — Você é gostosa, El. Assume isso!

Espiei dentro da caixa. Um vestido verde-floresta me encarou. Quase não tinha tecido nenhum! Sexy, ousado, com runas da matilha bordadas. Minhas bochechas arderam.

— Cindy, isso é loucura! — eu ofeguei. — Eu não posso vestir isso!

— Pode e vai! — ela insistiu. — Para de diminuir o quanto você é gostosa!

Juno concordou na minha cabeça. Mostra pra eles o seu poder!

Minutos depois, eu o vesti. Casper entrou bem nessa hora. Os olhos dele se arregalaram, me percorrendo de cima a baixo. Eu me senti nua sob aquele olhar. Minha pele formigou quando ele se aproximou. A respiração dele bateu no meu pescoço. Perto demais, droga!

— Caralho, lobinha — ele rosnou. — Você é muito mais gostosa do que naquela época.

Meu rosto pegou fogo. Eu me lembrava de ter uma queda enorme por ele. Na escola, eu adorava o Casper. Mas nunca contei. Sempre tinha lobas demais ao redor dele. Agora, eu só gaguejei.

— O-obrigada, Casper — murmurei.

— Nada de uniforme hoje — ele ordenou. — Só esse vestido.

A voz dele baixou, rouca. Um arrepio desceu por mim. Os olhos âmbar escureceram, famintos. Minhas coxas se contraíram por instinto. Eu odiava o que ele fazia comigo!

Cindy assentiu, abrindo um sorriso enorme.

— Viu? Não subestima seu charme!

Eu me senti exposta, mas poderosa. A festa rugia lá fora. A música martelava no meu peito. Eu servi bebidas, com as pernas bambas. Os olhos de Casper me seguiam por toda parte. Mais tarde, ele se encostou no bar. O braço dele roçou no meu. Um tranco, como eletricidade, atravessou meu corpo. Quase derrubei um copo!

“Cuidado, lobinha”, ele murmurou. “Não quebre nada.”

O sorriso torto dele me matou. Eu queria gritar! Mas Drake não parava de sumir. Onde ele estava? Meu estômago se revirava de dúvida.

Horas se passaram, e eu bebi demais. O licor âmbar queimou minha garganta. Minha cabeça rodava feito louca, e a náusea embrulhava meu estômago. Eu queria vomitar, com aquele gosto azedo subindo pela minha garganta. Eu precisava que Drake me visse. Este vestido abraçava cada curva. Meus seios pressionavam a seda. As coxas apareciam a cada passo. Eu precisava dos olhos dele em mim! Cambaleei pela multidão. Minha visão embaçou um pouco.

Mas Juno sentiu que tinha algo errado. O cheiro dele tá estranho... segue isso, droga! Eu arranco a garganta dele se ele estiver fazendo merda!

Cambaleei para fora pela porta dos fundos. O ar fresco da noite me atingiu. O luar iluminava a trilha na floresta. Meus sentidos de loba gritavam alto. Todo som parecia mais nítido agora. Meus olhos foram ficando dourados, devagar. O almíscar de Drake me puxou mais para dentro. Meu coração disparou de pavor, a bile subindo outra vez.

Então eu ouvi. Gemidos baixos, arfadas molhadas. Carne batendo em carne. Meu coração despencou direto pro inferno. Eu me aproximei, silenciosa. A clareira revelou traição pura. Meu pior pesadelo se desenrolou.

Drake tinha uma loira presa no chão. Os corpos deles eram uma bagunça emaranhada e borrada sob a luz da lua. O ritmo doentio dos movimentos martelava nos meus ouvidos, cada som como uma adaga no meu peito. Os gemidos agudos dela cortavam o ar, arranhando meus nervos. O ar fedia a traição, um odor amargo e sufocante que fez meu estômago revirar com violência. Minha visão nadava em lágrimas, reduzindo os dois a um contorno feio e indistinto. Meu coração parecia ser rasgado a cada colisão repugnante de carne. Eu não conseguia respirar, não conseguia pensar — só sentir a dor crua, ardente, de tudo aquilo.

“Mais, Drake, acaba com sua filhotinha de lobo!” ela gritou.

Meu sangue ferveu! A raiva arranhou meu peito. Como ela ousava distorcer meu apelido daquele jeito? Ouvir aquilo na boca dela, o nome que Drake sussurrava pra mim… me cortou mais fundo do que qualquer coisa. Ela tinha ouvido dele? Fuçou pra achar alguma coisa só pra me ridicularizar? Doeu pior do que a própria traição.

“Porra, isso, aguenta!” ele rosnou. A voz dele estava grossa, perdida. Os gemidos dela viraram gritos, cada um uma ferida nova. Eu não conseguia desviar o olhar, mesmo com a náusea arranhando minha garganta. Era revoltante. Era devastador.

Eu dei um passo para a luz. O vestido verde cintilou. Minha respiração engasgou, alta. Drake congelou, os movimentos travando. Os olhos verdes dele encontraram os meus. O medo atravessou o rosto dele. A loira deu um guincho, se atrapalhando para se levantar. Ele se afastou, a cena ainda queimando na minha mente.

“Elowen, porra, espera—” ele engasgou.

As lágrimas arderam nos meus olhos. Eu não conseguia falar. A dor me rasgou por dentro. Minhas pernas pareciam que iam ceder, minha força escorrendo embora. A náusea veio mais forte agora, meu estômago revirando com bebida e traição. Como ele pôde fazer isso? Comigo? Depois de tudo? Então uma sombra se ergueu atrás de mim.

Casper.

O cheiro dele me acertou em cheio. Pinheiro, fumaça, pura dominância. O peito dele subia e descia, a camisa aberta. O calor irradiava dele. Meu corpo reagiu, uma onda de calor que eu me odiei por sentir. A presença dele me ancorou. Mas também me queimou.

“Não olha, lobinha”, ele murmurou. A mão dele bloqueou minha visão. “Isso vai sujar seus olhos.”

A voz dele era suave, mortal. Os dedos dele roçaram minha bochecha. Minhas lágrimas molharam a pele dele. Drake se atrapalhou, a voz tremendo. “Amor, eu posso explicar! Não é o que—”

“Cala a boca!” eu rosnei, enfim. Minha voz quebrou feio. As lágrimas derramaram quentes, sem fim. O calor de Casper me manteve parada. A outra mão dele agarrou minha cintura. Me firmando, me reivindicando. Meu mundo se despedaçou sob o luar. Juno uivou por dentro, pura fúria. Eu vou arrancar o coração desse desgraçado, desse imundo! E agora? Meu Deus, e agora?!

Drake deu um passo à frente, desesperado. “El, por favor, só me escuta!”

Casper rosnou baixo. “Recua, Reid.” O tom dele era gelo. Drake congelou, empalidecendo rápido. Eu não conseguia parar de tremer. A traição ardia mais fundo do que garras. Meu peito doía em carne viva. O aperto de Casper em mim se intensificou. O calor dele lutava contra o meu frio. Eu queria desabar.

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