Capítulo 3
Ponto de vista de Elowen
Uma batida. A porta se abriu. Luna Ella entrou — mãe da Cindy, a Luna da Matilha Thornwood. Elegante, cabelo escuro preso para trás, olhos gentis que viam tudo.
Meu pai morreu antes que eu pudesse andar. Minha mãe, a Beta Jessica, sempre foi fria. Luna Ella foi quem me deu bolinhos de mel, trançou meu cabelo e me chamou de sua.
“Meninas”, ela disse baixinho. “Está tudo bem? Ouvi choro.”
Cindy olhou para mim. Eu assenti. Ela podia contar.
“A Elowen terminou com o Drake”, Cindy explicou. “Ele traiu ela. Ela precisa de um lugar pra ficar.”
A expressão de Luna Ella endureceu. “Aquele garoto nunca mereceu você.” Ela se aproximou. Sentou do outro lado de Cindy. “Você é bem-vinda aqui, Elowen. Qualquer membro da nossa matilha que tenha sido ferido sempre vai encontrar abrigo nesta casa.”
Minha garganta apertou. “Obrigada, Luna.”
“Nós protegemos os nossos”, ela disse, firme. “Drake Reid vai responder pelo que fez. Eu prometo.”
O peso diminuiu um pouco. Eu não estava sozinha. Eu tinha Cindy. Tinha o apoio da Luna. Talvez eu conseguisse sobreviver a isso.
“Agora”, Luna Ella se levantou. “Vão descansar. As duas. Amanhã é um grande dia.”
Certo. O casamento. O casamento da Cindy. Eu quase tinha esquecido.
“Me desculpa”, eu disse depressa. “Esse é o seu momento especial. Eu não devia—”
“Para.” Cindy me interrompeu. “Você é minha melhor amiga. Você vem em primeiro lugar. Sempre.”
Luna Ella sorriu. “Boa noite, meninas.”
Ela saiu. Fechou a porta com cuidado. Cindy se virou para mim. Abriu um sorriso.
“Viu? Eu disse que minha mãe é a melhor.”
Eu consegui um sorrisinho. “É. Ela é.”
Conversamos por mais uma hora. Sobre o Drake. Sobre o casamento. Sobre tudo. Cindy me emprestou um pijama. Subimos juntas na cama enorme dela. Ela pegou no sono rápido. Eu encarei o teto. Minha mente disparada.
Eu estava livre do Drake. Livre do controle dele. Das mentiras dele. Das traições dele. Mas e agora? Onde eu me encaixava? Nessa matilha. Nesse mundo.
Você se encaixa com a gente, Juno murmurou, sonolenta. Somos lobas. Somos fortes. Vamos dar um jeito.
Eu esperava que ela estivesse certa.
Na manhã seguinte, acordei com a luz do sol. Cindy tinha sumido. Um bilhete no travesseiro dizia que ela tinha coisas de noiva para fazer. Eu me levantei. Encontrei o banheiro. Tomei banho. A água quente fez bem. Lavou as lágrimas da noite passada. O toque do Drake. Tudo.
Vesti roupas limpas da minha bolsa. Um vestido de seda — a única coisa que eu tinha pegado que parecia minimamente apresentável. Usá-lo me fez me sentir menos como uma vítima e mais como alguém que ainda tinha controle. Prendi o cabelo num rabo de cavalo. Encarei meu reflexo no espelho. Meus olhos âmbar pareciam mais brilhantes, de algum jeito. Menos turvos. Talvez ter deixado o Drake já tivesse me mudado.
Uma batida na porta me fez dar um pulo.
“Srta. Hartley?” Uma voz de mulher. “Luna Ella solicita sua presença para o café da manhã.”
Ai, meu Deus. Café da manhã com a família. A família do Alfa. Eu queria me esconder.
“Já vou!”, eu gritei.
Abri a porta. Uma funcionária da casa sorriu para mim. Meia-idade. Rosto gentil.
“Por aqui, por favor.”
Ela me conduziu pelos corredores. A casa da matilha era linda à luz do dia. Janelas enormes. Claridade por toda parte. Entramos numa sala de jantar formal. Meu fôlego travou.
O Alfa Austin estava sentado na cabeceira. Imenso. Imponente. O cabelo escuro riscado de prata. Luna Ella ao lado dele. Casper de um lado. E Cassian do outro.
Todos os olhos se voltaram para mim.
Eu congelei na entrada. Isso foi um erro. Eu não pertencia ali.
“Elowen.” Luna Ella indicou uma cadeira vazia, entre os gêmeos. “Por favor, junte-se a nós.”
Eu caminhei com as pernas bambas. Me enfiei na cadeira. Casper sorriu para mim. Caloroso. Tranquilizador. Os olhos azul-gelo de Cassian me observaram. Me analisaram. Eu me senti presa sob aquele olhar.
“Bom dia, lobinha”, Casper disse baixinho. A mão dele roçou na minha sobre a mesa. Breve. Elétrica.
Eu me afastei. "Bom dia."
"Dormiu bem?", Cassian perguntou. A voz dele era suave. Mel frio. Nada parecida com o calor de Casper.
"Sim, obrigada." Mantive os olhos no meu prato.
Os funcionários trouxeram a comida. Ovos. Bacon. Frutas frescas. Tudo parecia maravilhoso. Eu não estava com fome. Meu estômago estava cheio de nós.
"Então", Alpha Austin falou. Sua voz profunda encheu o cômodo. "Cindy me disse que você deixou o jovem Reid."
Engoli em seco. "Sim, Alpha."
"Ótimo." Os olhos dele encontraram os meus. Afiados. Avaliadores. "Ele nunca foi digno de você."
Minha boca ficou seca. "Obrigada, senhor."
"Meu filho me disse que Reid foi... infiel." O olhar de Austin se voltou para Casper. "Isso é verdade?"
"Sim." O maxilar de Casper se contraiu. "Eu vi com os meus próprios olhos."
"E você interveio?"
"Eu a protegi." A voz de Casper estava firme. "Como qualquer membro da alcateia faria."
A sobrancelha de Austin se arqueou. "Hmm."
O ar parecia denso. Tenso. O que estava acontecendo ali?
"Drake não vai incomodar você de novo", Cassian disse de repente. Os olhos dele se prenderam aos meus. "Nós vamos garantir isso."
"Ele a ameaçou", Casper acrescentou. A mão dele se fechou em torno do garfo. "Disse que arruinaria a posição dela na alcateia."
"Foi mesmo?" A expressão de Alpha Austin escureceu. "Vamos ver isso."
Luna Ella tocou o braço do companheiro. "Não vamos discutir isso durante o café da manhã. Elowen precisa de paz agora."
"Claro." Austin assentiu. "Elowen, você pode ficar aqui pelo tempo que precisar. Esta é a sua casa."
"Obrigada, Alpha." Minha voz saiu pequena.
O café da manhã continuou. Os gêmeos discutiam sobre assuntos da alcateia. Algo sobre patrulhas de fronteira. Fiquei quieta. Comi pequenos bocados. Tentei desaparecer.
A coxa de Casper pressionou a minha por baixo da mesa. Quente. Sólida. Eu não me afastei. A presença dele me ancorava. Fazia eu me sentir segura. Eu não deveria depender disso. Mas, Deus, eu precisava.
Depois do café da manhã, todos se dispersaram. Alpha Austin foi para o escritório. Luna Ella foi cuidar dos preparativos do casamento. Fiquei parada no corredor. Perdida.
"Elowen."
Eu me virei. Casper estava perto. Perto demais. Os olhos âmbar dele estavam suaves. Preocupados.
"Você está bem?", ele perguntou.
"Eu não sei", admiti. "Isso tudo é... demais."
"Você é mais forte do que pensa." A mão dele se ergueu. Segurou meu rosto. O polegar roçou minha pele. Gentil. "Você sabe disso, não sabe?"
Minha respiração falhou. O cheiro dele me envolveu. Pinho. Fumaça. Algo mais escuro. Minha loba se agitou. Interessada. Interessada até demais.
"Casper, eu—"
"Você está linda hoje", ele murmurou. Deu um passo mais perto. O peito dele quase tocou o meu. "Você sabe disso?"
O calor inundou meu rosto. Meu coração disparou. Isso era errado. Eu tinha acabado de deixar Drake. Não deveria me sentir assim. Não tão rápido.
Mas, Deus, eu sentia.
Os olhos dele baixaram para os meus lábios. Escureceram. O dourado se espalhou pelo âmbar. O lobo dele estava perto da superfície.
"Eu deveria ir", sussurrei. Não me mexi.
"Deveria?" A voz dele saiu rouca. Baixa.
Beije-o, Juno instigou. Reivindique o que é nosso!
Nosso? O que aquilo queria dizer?
Passos ecoaram. Nós nos afastamos num pulo. Cassian apareceu. Os olhos azul-gelo dele passaram de um para o outro. O maxilar se contraiu.
"Irmão", ele disse friamente. "Mamãe precisa de você."
"Certo." Casper recuou. Passou a mão pelos cabelos. "Vejo você depois, Elowen."
Ele foi embora. Me deixou sozinha com Cassian.
O silêncio se alongou. Pesado. Incômodo. Mudei o peso de um pé para o outro, de repente consciente de como o corredor parecia estreito. Cassian não tinha se mexido. Só estava ali, me observando com aqueles olhos azul-gelo que nunca piscavam.
Minha pele se arrepiou. Algo tinha mudado no ar — mais denso, carregado, perigoso.
"Você também deveria ir", eu disse. Tentei soar casual. Falhei.
"Deveria?" Ele repetiu as palavras do irmão. Mas, enquanto a voz de Casper tinha sido mel quente, a de Cassian era geada de inverno. Ele deu um passo à frente.
Eu dei um para trás. Minhas costas bateram na parede.
