Capítulo 1 Capítulo 1
Ponto de vista de Aria
—Confira suas malas mais uma vez. Tem certeza de que não esqueceu nada? —a voz da minha mãe era tão afiada e polida quanto o tailleur que ela vestia.
Eu nem me dei ao trabalho de olhar para ela. A gente fazia esse teatrinho todo mês de setembro — a peregrinação anual para a gaiola dourada conhecida como All Saints Academy. Chamar aquilo de escola era uma mentira generosa. Era uma panela de pressão da elite, um lugar onde os herdeiros do mundo eram lapidados até ficarem afiados o suficiente para cortar qualquer um abaixo deles.
E, embora meus pais fossem os advogados mais implacáveis do estado, vindos de uma linhagem de “dinheiro velho” capaz de comprar e vender a cidade, aqui eu era considerada a última da cadeia alimentar. Eu era a falha no sistema perfeito deles.
A ironia não passava batida. Meus pais herdaram um império e contrataram estranhos para administrá-lo, para poderem passar a vida num tribunal. Eles quebravam todas as regras “reais” que os fundadores da academia tanto veneravam. Sinceramente? Por essa única coisa, eu os respeitava. O resto desse lugar podia pegar fogo, por mim.
—O baú foi enviado ontem à noite, mãe. Provavelmente já está no meu quarto —eu disse, com a mão pairando sobre a maçaneta da porta. Eu estava louca para escapar do cheiro caro do perfume dela.
Era isso — o último ano. A reta final antes de eu poder sumir. Meus pais já sonhavam com legados da Ivy League, mas não sabiam que eu tinha passado o verão me candidatando a universidades na Europa e em cidades litorâneas minúsculas a três mil milhas de distância. Eu queria ir embora.
Eu não era como as bonecas de plástico que lotavam aqueles corredores. Eu não me importava com a hierarquia social nem com qual senador o pai de quem “possuía”. Essa firmeza eu tinha ganhado da Drew, a babá que de fato me criou enquanto meus pais estavam ocupados vencendo processos. Ela foi a única mãe que eu realmente conheci.
Ela já tinha partido havia dois anos, levada por uma doença que não estava nem aí para quanto dinheiro você tinha. Desde o funeral dela, minha mãe passou a cultivar esse ritual movido a culpa de me deixar pessoalmente, fingindo ser o tipo de mãe que prepara lancheira e dá beijo na testa.
Ela não era. Ela era um tubarão que por acaso tinha uma filha. O casamento dos meus pais era menos romance e mais um acordo jurídico de longo prazo, nascido de uma rivalidade do ensino médio. Eles se odiaram, depois se desejaram, e então tiveram a mim.
Bati a porta do carro e encarei o campo de batalha.
Quando eu era mais nova, Drew tinha me colocado escondida numa escola pública por alguns anos. Eu amei. Lá, eu era só uma menina, não uma “Elite”. Mas quando meus pais descobriram a “traição”, as consequências foram nucleares. Drew foi demitida na hora, e eu fui arrastada, esperneando e gritando, para os corredores vazios de All Saints.
Eu fui inimiga pública número um desde o primeiro dia. Eu não usava as marcas certas, eu não ligava para os jogos de poder deles e me recusava a me encolher para caber nas definições estreitas de beleza que eles impunham.
—Aria!
Um sorriso de verdade finalmente abriu no meu rosto. Heather vinha correndo na minha direção, com os rabos de cavalo gêmeos característicos balançando. Ela era bolsista — um gênio literal que a academia só tolerava porque as notas dela inflavam o ranking nacional.
A gente se encontrou num abraço. Meu verão tinha sido um borrão de galas sociais forçadas e consultas de “manutenção de beleza” que minha mãe fazia questão. Heather era meu elo com a realidade.
— Está acontecendo hoje — sussurrou Heather enquanto caminhávamos em direção aos dormitórios.
Eu gemi. — Não me diga que você também acredita nessa porcaria supersticiosa.
— A Seleção não é um mito, Aria. Eu vi os arquivos.
A lenda dos Demônios Santificados. Todo ano, os quatro garotos mais poderosos do último ano escolhiam uma garota. Os boatos eram sombrios e variados — alguns diziam que ela virava a rainha deles, outros diziam que virava o brinquedo deles. De um jeito ou de outro, ela se tornava intocável. Ninguém podia olhar para ela, falar com ela ou respirar perto dela sem a permissão deles.
Lucian, Rowan, Sebastian e Elliot. Eles eram os Quatro Cavaleiros desse buraco.
Lucian Crowes era o líder não oficial — um deus em forma de homem, com olhos azul-gelo e um temperamento à altura. Rowan Hale era o caótico, o engraçadinho que escondia uma veia cruel atrás de um sorriso desleixado, de cabelo ao vento. Sebastian Knox era o garoto de ouro, só músculo e rebeldia loira, com cara de quem preferia estar surfando a sentado numa sala de reunião. E então tinha Elliot Ashford. O quieto. O “artista” que vivia rabiscando no fundo da sala. Eu tinha notado as manchas de carvão nos dedos dele mais vezes do que gostaria de admitir.
— Eles vão escolher a Chloe ou uma das clones dela — eu disse, revirando os olhos quando chegamos ao meu quarto. — Eles gostam de garotas fáceis de controlar.
— Acho que você está subestimando o apelo do “nerd gostoso” — brincou Heather.
— E eu acho que o mundo não está pronto pra uma garota com curvas que realmente come o almoço — retruquei.
Na escola pública, eu tinha sofrido bullying por causa do meu peso. Passei noites encolhida sobre um vaso sanitário até a Drew me pegar. Ela não me deu bronca; ela me ensinou. Me ensinou que meu corpo era um templo, não um enfeite público. Desde que ela morreu, eu visto minhas curvas como armadura. Minha mãe que continuasse tamanho zero; eu preferia ser inteira.
Troquei de roupa e coloquei o uniforme — a saia verde-floresta era ridiculamente curta, então usei por cima de uma meia-calça preta grossa. Dispensei o blazer; o ar estava pesado demais hoje.
A assembleia foi o de sempre: um tédio esmagador. A diretora fez o mesmo discurso que fazia desde o início dos tempos. Depois, Heather e eu nos separamos. Minha primeira parada: Matemática.
Eu odiava Matemática. Era uma linguagem de regras rígidas que não permitia erro humano. Sentei na primeira fila, esperando que a proximidade do Sr. Brick me mantivesse concentrada.
A sala foi se enchendo com o burburinho de sempre, quase todo sobre “A Rosa”. Se a Seleção acontecesse, uma única rosa vermelha seria entregue à garota escolhida.
Quase deixei a caneta cair quando o clima da sala mudou.
Lucian Crowes não entrou andando; ele dominou o espaço. Para o meu horror absoluto, ele deslizou para o assento diretamente ao meu lado. Sebastian e Elliot ocuparam a fileira atrás da nossa, e Rowan se encostou na janela, com o olhar fixo na parte de trás da minha cabeça.
Eu estava cercada.
— Sr. Hale, sente-se — suspirou o Sr. Brick.
— Eu aprendo melhor de pé, senhor — disse Rowan, exibindo um bilhete que claramente lhe dava permissão para fazer o que quisesse. Ele largou um livro na minha carteira com uma piscadela. — Pra você, Aria.
Eu não disse uma palavra. Encarei o quadro-negro até meus olhos arderem. Eles estavam me observando. Eu conseguia sentir o peso da atenção deles como uma pressão física contra a minha pele. Parecia uma armadilha.
