Capítulo 3 Capítulo 3
Ponto de vista de Aria
A entrada do meu prédio estava lotada. Não de estudantes, mas de flores. Dezenas de buquês — lírios, hortênsias, peônias — estavam amontoados contra o arco de pedra. Havia bilhetes presos neles, mas eu não precisava ler para saber que não eram para mim. Eram oferendas. Chloe e o grupinho dela estavam ali perto, olhando para a montanha floral com expressões capazes de talhar o leite.
— Você acha que é especial, é? — Chloe deu um passo à frente, os saltos de grife estalando com agressividade no calçamento. O cabelo loiro estava puxado para trás com tanta força que parecia doer. — Você acha que aquela palhaçada no refeitório te tornou uma rebelde? Aquilo te transformou num alvo, Aria.
Eu não parei de andar.
— Se você quer tanto a rosa, Chloe, vai lá e desenterra do lixo. Tenho certeza de que o Lucian deixou lá.
Ela ficou vermelha, a boca se abrindo num suspiro mudo. Passei por ela e encostei meu cartão na fechadura, com o coração martelando nas costelas. Só olhei para trás quando já estava do outro lado da pesada porta de carvalho do meu apartamento.
Encostei na madeira, soltando um ar que eu tinha a sensação de estar prendendo desde o almoço.
— Até que enfim.
Eu dei um pulo, a bolsa escorregando do meu ombro e batendo no chão com um baque surdo.
Lucian estava sentado no meu sofá.
Ele parecia confortável demais, com uma perna cruzada sobre a outra, o blazer jogado com descuido sobre o encosto da minha poltrona. Na mão, ele segurava uma pequena foto emoldurada que ficava na minha estante — eu e Drew na praia, cinco anos atrás.
— Como você entrou aqui? — exigi, com a voz tremendo num coquetel de medo e fúria. — Este é um dormitório privativo. Vou chamar a segurança.
— A segurança trabalha para o meu pai, Aria. Não desperdice saliva. — Ele devolveu a foto à estante com uma precisão clínica. Então se levantou, e a salinha de estar pareceu, de repente, ter metade do tamanho. — Precisamos estabelecer algumas regras.
— Regras? — soltei uma risada curta e áspera. — Eu disse não. “Não” é uma frase completa, Lucian. Não é um convite para negociação.
Ele veio na minha direção, devagar, de propósito. Eu queria recuar, mas a porta estava colada às minhas costas. Mantive a posição, o queixo erguido. Ele parou a poucos centímetros, e o cheiro dele — algo como couro caro e chuva fria — invadiu meus sentidos.
— Você acha que isso é sobre uma paixonite? — Ele se inclinou, a voz baixa, um veludo perigoso. — A Seleção existe por um motivo. Esta escola é um tanque de tubarões, e seus pais foram os que jogaram sangue na água. Eles fizeram muitos inimigos no tribunal, Aria. Inimigos que adorariam ver a filhinha preciosa deles quebrada.
— Eu sei me cuidar — sussurrei.
— Não, não sabe. — Ele estendeu a mão, e o polegar desenhou a linha do meu maxilar com um toque tão leve que quase foi uma carícia, e ainda assim pareceu uma marca. — Você pode bancar a pirralha desafiante o quanto quiser, mas, a partir de hoje, você pertence a nós. Pode lutar contra isso ou pode aceitar a proteção. Mas você não tem o direito de dizer não.
Ele se inclinou mais perto, os lábios roçando minha orelha. “Durma bem, Aria. Vamos te buscar para o café da manhã às sete. Não faça a gente entrar aí de novo.”
Ele se afastou, exibiu um sorriso que não alcançou os olhos azuis e gelados, e saiu pela porta.
Fiquei ali por um bom tempo, com o silêncio do quarto zunindo nos meus ouvidos. Olhei para a foto de Drew na prateleira. Ela sempre me dizia para eu ser eu mesma, para nunca deixar ninguém possuir a minha alma.
Fui até a cozinha, peguei uma cadeira pesada e a enfiei sob a maçaneta da porta, travando-a.
Aquilo não era um romance. Era um cerco. E eu não tinha a menor intenção de me render.
Eu não dormi. Cada vez que os canos antigos nas paredes do dormitório rangiam, eu me sentava de repente, completamente alerta, os olhos saltando para a cadeira presa sob a maçaneta. A ameaça de Lucian ecoava no escuro: Não faça a gente entrar aí de novo. Às 6h30, eu já tinha tomado banho e estava vestida com o uniforme padrão: saia verde-floresta e camisa branca de botões. Encarei meu reflexo. Meus olhos estavam inchados e minha pele, pálida, mas não procurei o corretivo que minha mãe sempre insistia que eu usasse. Se eu ia ser um alvo, eu seria um alvo visível.
Chequei o celular. Nenhuma mensagem da Heather. Provavelmente ela já estava na biblioteca, escondida entre as estantes, onde o drama da “elite” não alcançava. Eu a invejei.
Exatamente às 7h00, uma batida pesada e ritmada soou contra a minha porta. Não era uma batidinha educada — era uma convocação.
Tirei a cadeira, puxei o ar para conter o coração disparado e escancarei a porta.
Eles estavam todos lá.
Lucian estava na frente, bem no centro, com um ar impecável num blazer sob medida. Atrás dele, Sebastian se apoiava na parede do corredor, rolando a tela do celular, enquanto Rowan lançava uma moeda de ouro para o alto e a pegava com um tilintar metálico. Elliot se escorava no batente da porta oposta, os olhos escuros me analisando como se eu fosse uma tela que ele ainda não tinha terminado.
“Você está atrasada”, disse Rowan, abrindo um sorriso que parecia mais mostrar os dentes. “Quase entramos pra te ajudar a escolher as meias.”
“Eu não vou a lugar nenhum com vocês”, eu disse, tentando impedir que a minha voz tremesse.
Lucian não discutiu. Apenas estendeu a mão, agarrou meu pulso e me puxou para o corredor. O aperto não doía, mas era absoluto. Era o aperto de alguém que não acreditava que a palavra “não” se aplicasse a ele.
“Me solta!”, sibilei, fincando os saltos no carpete.
“Anda, Aria”, disse Lucian, sem sequer olhar para trás. “A escola inteira está olhando. Você quer que vejam a gente te carregando, ou quer manter um fiapo dessa dignidade da qual você tem tanto orgulho?”
Olhei para o corredor comprido. Ele tinha razão. Portas estavam entreabertas; cabeças espiavam para fora. A hierarquia social de All Saints se alimentava daquilo. Se eu lutasse e perdesse, eu era uma vítima. Se eu andasse com eles, eu era... o quê? Deles?
Eu parei de puxar. A mão de Lucian afrouxou, mas ele não me soltou. Em vez disso, deslizou os dedos até entrelaçar os meus. Era um gesto de romance de mentira que embrulhou meu estômago.
