Capítulo 4 Capítulo 4
Ponto de vista de Aria
Caminhamos pelo campus como uma procissão real. Sebastian e Elliot flanqueavam a gente, enquanto Rowan vinha um pouco atrás, assoviando uma melodia baixa e assombrada. Não fomos para o refeitório. Em vez disso, contornamos os prédios principais e seguimos em direção a uma SUV preta, particular, com o motor ligado, parada perto dos portões dos professores.
— Para onde estamos indo? — perguntei, uma nova onda de pânico subindo. — As aulas começam em vinte minutos.
— Você está dispensada do primeiro tempo — disse Sebastian, finalmente levantando os olhos do celular. — Vamos tomar café da manhã fora do campus. O café daqui tem gosto de ácido de bateria.
— Eu tenho um teste de Matemática — protestei.
— Não, você não tem — disse Elliot baixinho, à minha esquerda. — Rowan resolveu isso com a coordenação. Você tem uma “ausência justificada” pela manhã.
Eles já tinham apagado a minha programação. Estavam apagando a minha vida, um pedaço de cada vez, substituindo minhas escolhas pelas deles.
Rowan abriu a porta da SUV com um floreio.
— Depois de você, Princesa. E não se preocupe com o cinto. Nós temos muito cuidado com as nossas coisas.
Olhei para os quatro — os Diabos Sagrados. Não eram só garotos; eram uma força coletiva da natureza. E, por algum motivo que eu não conseguia compreender, tinham decidido que eu seria a pessoa que eles iam consumir este ano.
Entrei no carro. Não porque estivesse me rendendo, e sim porque eu precisava saber o que eles realmente queriam. Quando Lucian deslizou para o banco ao meu lado, a porta pesada bateu com um baque, nos selando no cheiro de couro caro e de desastre iminente.
— Isso não é uma seleção — sussurrei quando o carro começou a se mover. — É um sequestro.
Lucian se recostou, o perfil afiado contra o vidro escurecido.
— Em All Saints, Aria, é a mesma coisa. Você vai aprender.
O interior da SUV era um vácuo de riqueza. Silencioso demais, o ronco do motor abafado por camadas de engenharia alemã e ego. Eu estava sentada entre Lucian e Sebastian, me sentindo uma boneca sendo transportada para uma nova vitrine. Rowan foi no banco do passageiro, na frente, girando o corpo para trás para me lançar um sorriso, enquanto Elliot encarava a janela do outro lado, desenhando linhas invisíveis no vidro com a ponta do dedo.
— Você parece que está se preparando para uma execução, Aria — comentou Rowan, com os olhos verdes dançando numa espécie de brilho maníaco. — Relaxa. A gente vai te levar ao L'Aube. Os crepes deles são melhores do que qualquer coisa que o chef particular da sua mãe já tenha improvisado.
— Eu não quero crepes. Eu quero estar em Biologia — retruquei, ríspida. — E quero saber por que vocês estão fazendo isso. Tem trezentas meninas na nossa série que teriam engatinhado sobre vidro quebrado para conseguir aquela rosa. Por que escolher justamente a única pessoa que odeia até o ar que vocês respiram?
Lucian enfim virou a cabeça. O olhar dele era pesado, clínico.
— Porque essas trezentas meninas são previsíveis. Elas querem o título. Querem proteção. Querem ser vistas nos nossos braços no Baile de Inverno. Você? — Ele se inclinou, a voz descendo um tom. — Você não quer nada do que a gente tem a oferecer. Isso faz de você a única coisa interessante em todo este CEP.
— Eu sou um ser humano, Lucian. Não um passatempo para quatro herdeiros mimados — sussurrei.
— Você é os dois — intrometeu-se Sebastian, sem tirar os olhos do celular. — Mas hoje você é a garota que pertence aos Devils. Quanto mais cedo você aceitar isso, mais fácil sua vida fica. Ou não aceite. O atrito fica divertido pra gente de qualquer jeito.
A SUV parou diante de um café discreto, encaixado numa ruela de paralelepípedos a quilômetros da academia. Era o tipo de lugar que não tinha placa, porque, se você não soubesse onde era, você não pertencia ali.
Eles me conduziram para dentro. Os funcionários nem sequer pediram um nome; nos levaram direto a um terraço nos fundos, cercado por paredes de vidro. Sentei-me, com a mandíbula travada. Recusei-me a olhar o cardápio.
— Sou vegana — lembrei, com a voz lisa, sem emoção.
— Nós sabemos — disse Elliot, suas primeiras palavras desde que saímos do dormitório. — Mexido de tofu com espinafre, sem óleo, e um café preto. Já está pedido.
Um arrepio que não tinha nada a ver com o ar da manhã desceu em disparada pela minha coluna.
— Como você sabe o meu pedido?
— Nós sabemos tudo, Aria — disse Rowan, inclinando-se para a frente, apoiado nos cotovelos. — Sabemos sobre a Drew. Sabemos sobre as escolas públicas na cidade. Sabemos sobre as inscrições secretas que você mandou para Londres e Paris porque está desesperada para fugir da sombra dos seus pais.
Eu me senti exposta, como se tivessem arrancado minha pele e estivessem cutucando meus nervos. Minha vida com a Drew era a única coisa que eu tinha que parecia real, e ouvir o nome dela no tom de deboche de Rowan soou como um sacrilégio.
— Não fala dela — eu disse, com a voz tremendo de um luto súbito e cortante. — Você não tem o direito de dizer o nome dela.
A mesa ficou em silêncio. Por um segundo, um lampejo de alguma coisa — talvez arrependimento, ou talvez só surpresa — atravessou o rosto de Elliot. Mas a expressão de Lucian continuou uma máscara de mármore.
— Então nos dê outra coisa para falar — disse Lucian. — Prove que você é mais do que uma historinha trágica e um rancor no ombro. Porque pelos próximos nove meses, Aria, a sua vida é assunto nosso. Cada aula, cada refeição, cada respiração. Você é a Seleção. E a Seleção nunca termina até a gente dizer que termina.
O café da manhã foi um pesadelo embaçado de tensão. Eu não comi um único pedaço da comida que eles tinham pedido. Fiquei ali, uma estátua silenciosa de rebeldia, enquanto eles conversavam ao meu redor sobre fundos de investimento, regatas de iate e o cenário político da academia como se estivessem discutindo uma partida de xadrez que já tinham vencido.
Quando enfim voltamos para a academia, o primeiro período já tinha acabado. O pátio estava tomado de alunos se deslocando entre os prédios. Assim que o SUV preto encostou no quadrângulo principal, a multidão se abriu como o Mar Vermelho.
Lucian desceu primeiro e então esticou o braço para me puxar para fora. Ele não soltou a minha mão. Me conduziu direto em direção ao salão principal, sua presença como um aviso silencioso a qualquer um que ousasse encarar por tempo demais.
Eu vi Heather parada perto da fonte. O rosto dela empalideceu quando me viu mantida refém pelos quatro. Tentei encontrar o olhar dela, mandar um sinal de que eu estava bem, mas Sebastian entrou no campo de visão, efetivamente me cortando da única amiga que eu tinha.
— Te vejo no almoço, Aria — Rowan gritou quando me deixaram na porta da minha aula de Literatura Inglesa.
Eu não respondi. Me enfiei na sala, sentindo os olhos dos meus colegas queimando nas minhas costas como lasers. Cheguei ao meu lugar, o coração martelando um ritmo frenético contra as costelas.
Puxei meu caderno, mas minhas mãos tremiam demais para escrever. Na primeira página, com uma caligrafia que não era a minha, alguém havia rabiscado uma única frase em tinta vermelha escura:
Propriedade dos Devils. Não esqueça de sorrir.
Arranquei a página, amassei numa bola e enfiei no fundo da mochila. Era só o primeiro dia. Eu ainda tinha duzentos e oitenta dias pela frente.
Olhei pela janela, além dos portões de ferro da academia, e pensei em Drew. Eu vou sobreviver a isso, prometi a ela. Eles podem tomar o meu tempo, podem tomar o meu espaço, mas nunca, jamais vão me tomar.
