Capítulo 5 Capítulo 5
Ponto de vista de Lucian
O silêncio no lounge privativo dos Devils era denso o bastante para engasgar. O ar cheirava a couro caro, a produtos de limpeza com aroma cítrico e ao toque metálico e afiado de um ego machucado.
“Acho que é oficial. Acabamos de fazer história como os primeiros Saintly Devils a serem executados em público por um ‘não’”, disse Rowan, com a voz leve, embora os nós dos dedos estivessem brancos de tanto ele apertar a borda da poltrona de veludo.
Eu não achei graça. Lancei a ele um olhar fulminante, com um calor por trás dos olhos forte o bastante para fazer um homem inferior recuar.
“Isto aqui não é um show de comédia, Rowan. Cala a boca.”
“Ah, qual é, Gid. Foi cinematográfico”, insistiu Rowan, com um humor desesperado dançando nos olhos. Ele era o único tentando rir disso, principalmente porque Rowan usava o riso como escudo quando o chão começava a desabar sob os pés.
Para todo mundo em All Saints, Aria Vales era um fantasma. Ela não era líder de torcida; não comandava o clube de debate nem assombrava os feeds de rede social da elite. Ela só… estava ali. Uma garota com um sorriso silencioso e devastador e um corpo que não se encaixava na estética faminta e angulosa do nosso mundo.
Eu tinha reparado nela. Tinha reparado no jeito como os quadris dela se mexiam com uma confiança natural e no modo como ela olhava para o resto de nós como se fôssemos um experimento científico particularmente sem graça.
Ela tinha uma amiga — Heather. Uma bolsista que não deveria nem conseguir respirar o mesmo ar que a gente, mas que era inteligente demais para a administração expulsar. Aria tinha vindo da rede pública, um fato que os sussurros tratavam como ficha criminal. Ela não tinha sido programada pela hierarquia. Ela não sabia que, quando nós quatro parávamos diante de alguém, a pessoa deveria se curvar.
“Nunca é bom quando você começa a pensar, Will”, murmurou Sebastian, com os olhos fixos no celular, embora não estivesse rolando a tela.
“Qual é o próximo passo?”, perguntou Elliot. Ele estava perto da janela, a luz cinzenta da tarde destacando os planos afiados do rosto. Olhou para o resto retorcido da rosa sobre a mesa de centro — a flor que Aria esmagara sem pensar duas vezes. “A gente não pode simplesmente deixar isso assim. Você sabe o peso disso.”
“O que vamos fazer? Arrastar ela até o altar?”, perguntou Rowan, a voz subitamente cortante. “Eu sou um escroto, mas não sou um sequestrador.”
Eu encarei a rosa. Ela representava mais do que um encontro ou uma tradição do colégio. Era um selo. Um contrato. Cada garota naquela cafeteria tinha vibrado de esperança de ser a escolhida para caminhar ao nosso lado. Uma vez marcada pela Seleção, a garota estava protegida — e era nossa. Cada horário, cada compromisso social, cada aspecto da vida dela passaria a existir sob a sombra dos Devils.
Nós já tínhamos manipulado o sistema. Nossas aulas estavam sincronizadas com as dela. Nossas vidas deveriam convergir hoje. Mas Aria tinha rasgado o roteiro.
Meu celular vibrou no bolso. Uma vibração baixa e rítmica, que parecia um batimento cardíaco. Meu pai.
Lucas Crowes não aceitava “não” do mundo — e certamente não aceitaria do único herdeiro. Para ele, eu não era apenas um filho; eu era uma marca. Um legado. Minha mãe falhara em lhe dar uma dinastia — apenas quatro filhas e eu. Eu era o príncipe herdeiro do império Crowes, um conglomerado que engolia empresas menores como uma baleia engole plâncton.
Eu não tinha permissão para fracassar.
“Você conhece as regras”, disse Elliot, baixando a voz para uma frequência grave e perigosa. “Não existe espaço para ela recusar. Pelo bem dela, e definitivamente não pelo nosso.”
O silêncio voltou a tomar a sala. Todos nós sabíamos o que estava em jogo. Nossos pais não tinham sugerido a Seleção este ano; tinham decretado. Era uma aliança estratégica mascarada de rito de passagem adolescente.
Todos os nossos celulares tocaram ao mesmo tempo. Um coro digital sincronizado de exigências. Toquei na tela, com o nome Pai me encarando de volta como um juiz.
“Está feito?”, a voz de Lucas era como pedra moída.
Esfreguei a têmpora, com a pressão crescendo. Eu podia mentir. Podia dizer que ela tinha ficado sobrecarregada e precisava de tempo. Mas meu pai tinha olhos em todo lugar. Mentir era uma sentença de morte.
“Não”, eu disse, com a voz fria. “Ela rejeitou a oferta.”
Do outro lado da sala, ouvi os ecos da mesma confissão vindo dos outros. O silêncio do outro lado da linha era mais apavorante do que um grito.
“Você entende que isso não é um pedido, Lucian”, disse meu pai, perigosamente calmo. “Nós conversamos sobre a necessidade dessa garota. Eu preciso descer aí e te mostrar como se lida com uma mulher, ou você é capaz de executar a única tarefa que eu te dei?”
“Eu vou resolver, senhor.”
“Veja o que você faz. Da próxima vez que a gente se falar, ela pertence à unidade. Não me decepcione de novo.”
A linha ficou muda. Olhei para os outros. Eles pareciam querer atravessar as paredes com os punhos.
— Bem — disse Rowan, pegando a mochila com um movimento brusco, elétrico de cafeína. — Vou lá bancar o cafajeste charmoso. Se eu não conseguir fazer ela sorrir, meu velho vai cortar meu fundo fiduciário e me mandar pra um colégio militar no meio do deserto.
Ele saiu, com Sebastian logo atrás.
— Você tá bem? — perguntou Elliot, ficando para trás.
— Bem pra caralho — menti. — E seu pai?
— Igual. A gente tá na coleira, Gid. E curta. — Elliot suspirou. — Você acha que ela vale essa dor de cabeça toda? Eu nem tinha reparado nela até os arquivos caírem nas nossas mesas.
— Eu tinha reparado — admiti.
Elliot assentiu. Nós éramos uma unidade — quatro corpos, uma alma. Tínhamos sido criados acreditando que éramos os senhores deste universo.
— Se a gente deixar o Rowan solto, ele vai tentar subornar ela com um carro e levar um tapa — disse Elliot. — Vamos.
Fomos para o pátio. O intervalo da tarde estava a todo vapor, e o ar fervilhava de fofoca. As pessoas se afastavam do nosso caminho como se estivéssemos carregando uma praga.
Eu vi o jeito que as garotas olhavam para nós — meio medo, meio desejo. Eu já tinha usado aquilo. Passei meus anos aqui pegando o que eu queria, avaliando mulheres como gado num caderno de pontuação que a gente mantinha no dormitório. Era cruel, e eu não ligava. Era o único jeito de ficar acima da sujeira.
Mas, quando nos aproximamos da fonte, Chloe bloqueou nosso caminho. Ela era a abelha-rainha de All Saints, uma garota que passara os últimos três anos tentando se firmar como minha sombra permanente.
— Que porra é essa, Lucian? — ela exigiu, os braços cruzados com força. — A rosa? Pra ela?
— Sai da frente, Chloe — eu disse, sem nem diminuir o passo.
Ela empurrou meu peito. Foi como uma mosca batendo num para-brisa. Eu tinha passado horas demais na academia para uma garota como ela me mover.
— Você me prometeu! — ela sibilou, os olhos brilhando de lágrimas humilhadas. — Você disse que eu era a escolhida.
— Eu nunca te prometi nada além de um bom momento, Chloe. E, se eu me lembro bem, era você que tava implorando por isso. — Inclinei-me, minha voz afiada como lâmina. — Não confunda uma transa com uma coroação. Você é uma distração. Aria é a Seleção. Tem diferença.
— Você vai se arrepender — ela cuspiu. — Eu vou transformar a vida dela num inferno.
Eu ri. Foi um som escuro, oco.
— Você tá latindo pra uma tempestade, Chloe. Sai do meu caminho antes que eu decida que você não vale mais nem a distração.
Passamos por ela e chegamos à mesa onde Aria e Heather estavam sentadas. Rowan e Sebastian já estavam lá, tentando parecer casuais, mas Aria parecia pronta para fugir a qualquer momento.
Sentei, minha mochila batendo na mesa com um baque pesado. Eu era a âncora desse grupo. O que decidia quando a gente se movia e quando a gente atacava.
Heather pigarreou, um sorriso nervoso tremulando nos lábios.
— Oi, gente.
Eu não a reconheci. Meus olhos estavam presos em Aria.
— Sabe, existem dezenas de mesas vazias — disse Aria, a voz firme apesar do jeito como apertava a garrafa d’água. — Algumas ficam até em outro CEP. Por que vocês não tentam uma dessas?
— A gente precisa conversar, Aria — eu disse.
— Não, não precisa.
Senti a raiva acender — uma faísca quente e brilhante no meu peito. Quem ela pensava que era para me negar? Lancei um olhar para Heather, a bolsista que não pertencia àqueles corredores. Meu pai odiava gente como ela — casos de caridade que entulhavam o prestígio da academia.
— Você precisa ir embora — eu disse a Heather. — Isso é uma conversa particular.
Aria já estava de pé antes mesmo de eu terminar a frase. Ela se virou, os olhos faiscando com um fogo que eu nunca tinha visto em outra garota daquela escola.
— Não ouse falar com ela desse jeito — ela disparou, a voz ecoando pelo pátio. — Tem um problema? Olha pra mim. Ela não fez nada além de existir, o que aparentemente é crime no seu mundo. Quer saber por que eu joguei aquela rosa de volta? Porque eu não quero ser nada parecida com você. Vamos, Heather.
Ela foi embora, a cabeça erguida. Eu ia atrás, os músculos tensos para agarrá-la, para fazê-la ouvir, mas Sebastian pôs uma mão no meu braço.
— Pega leve — ele alertou. — Você já causou estrago o bastante por uma tarde.
— Ela precisa aprender como isso funciona — rosnei, observando as costas dela se afastando.
— Se você quer conquistar ela, Lucian, vai ter que parar de agir como um tirano e começar a agir como um homem.
Eu me desvencilhei. Aria Vales achava que era a exceção à regra. Achava que podia ir embora.
Mas eu era um Crowes. E nós não perdíamos. Eu faria ela ser nossa nem que fosse a última coisa que eu fizesse.
