Capítulo 1
Rejeição na Lua Cheia (Série Rejeição – Livro 1)
Você conhece as histórias dos lobisomens, aqueles seres que se transformam em lobo na lua cheia, sem ter escolha, quando o instinto animal assume o controle e o derramamento de sangue é inevitável? Essas histórias são verdadeiras… quer dizer, tudo, menos a parte de lua cheia, que é uma porcaria.
Meu nome é Amberle Crest. Pelo meu sangue, era para eu ser uma Beta ou Chefe Rastreadora, mas você nunca adivinharia isso só de olhar para mim. Eu venho de uma alcateia modesta, a Pata da Floresta. É um nome idiota, eu sei. Minha alcateia fica no meio da floresta, no noroeste de Ontário, perto de um lugar que os humanos chamam de Sauble Beach.
A questão da minha alcateia é que era para ser uma família; as pessoas deveriam amar você, não importa quem você é ou o que tenha acontecido. Todo mundo é família, e nós nos ajudamos nos momentos de necessidade, ou pelo menos é isso que dizem.
Eu nunca tive nenhum tipo de relação familiar depois dos onze anos. O único amor de família que eu senti na vida veio do Alfa chamado Blue. Ele me tratava como família quando não estava ocupado com reuniões ou assuntos da alcateia que envolviam viagens. Mas, quando ele estava fora do território, minha vida virava um verdadeiro inferno. Desde os onze anos, eu já sabia muito bem como uma alcateia podia se voltar contra você, mesmo numa idade tão tenra. Foi uma experiência horrível.
Depois de uma reviravolta dolorosa do destino fazer tudo desmoronar por tanto tempo, minha vida finalmente começou a melhorar quando completei dezoito anos. Mas, antes que eu me adiante, que tal eu começar do começo?
A Primeira Transformação
Eu gemo enquanto meus ossos quebram e se realinham. Lembro que acordei me sentindo mal e minha mãe e meu pai disseram que eu podia ficar em casa, sem ir para a escola naquele dia. Cerca de uma hora atrás, eu fui até a cozinha para pegar algo para beber, e foi aí que tudo começou. Meu tornozelo simplesmente quebrou sozinho, e eu soltei um grito de arrepiar, fazendo meus pais dispararem para a cozinha na minha direção. Foi então que a gente percebeu que eu estava me transformando.
— Ela só tem seis anos! Ela não devia se transformar antes dos dezesseis! — a voz da minha mãe vem carregada de medo e preocupação. Aí eu me dou conta de que a febre que eu estava sentindo desde a noite anterior não era um resfriado nem uma gripe. Meu corpo decidiu que agora seria a hora de se transformar na minha forma de loba pela primeira vez.
CRACK
Eu grito, minha voz se misturando a um uivo. Como alguém pode esperar que uma criança de seis anos aguente tanta dor de uma vez só? Eu conheço os riscos de uma transformação precoce. Meu pai fez questão de nos explicar que a primeira transformação seria um processo doloroso, mas garantiu a mim e aos meus irmãos que ficaríamos bem quando isso acontecesse aos dezesseis. Só que eu estou me transformando agora, com apenas seis anos.
Tudo o que eu quero neste momento é que o médico da alcateia venha e me ajude. Lágrimas se formam nos meus olhos enquanto eu olho, impotente, para minha mãe e meu pai, implorando por ajuda.
— Isso só significa que a nossa pequena Amber vai ser destinada a um Alfa um dia, quem sabe até a um Real — meu pai diz, orgulhoso, tentando acalmar minha mãe e garantir que tudo vai ficar bem. Ele a abraça rapidamente antes de se abaixar e encostar uma garrafa de água com canudo nos meus lábios.
— Bebe, Amberle. Vai ajudar. — Eu faço o que ele manda e bebo o máximo que consigo do líquido gelado, o mais rápido possível, apesar do canudo fininho. Ele tem razão; ajuda a aliviar a sensação de queimação por dentro. Mas minha pele parece que está pegando fogo, como quando eu queimei o pé com chá quente sem querer, só que dez vezes pior. Mais ossos quebram e estilhaçam antes de se recompor, a dor me fazendo vomitar qualquer líquido que ainda tivesse no estômago.
CRACK
Meu corpo se contorce de dor enquanto eu passo para a posição de quatro apoios, mudando de humana para loba. A dor é muito mais insuportável do que antes. As lágrimas escorrem pelo meu rosto enquanto minha mandíbula se alonga, formando um focinho, meus dentes se afiam de um jeito antinatural e pelos cobrem minha pele.
CRACK
Minha mãe sai do cômodo chorando, sabendo que a chance de eu sobreviver à transformação com essa idade é baixa. Eu posso morrer hoje, só por causa da transformação.
ROSNADO
Meu pai limpa o suor e o sangue da minha testa, causados pelos pelos que continuam a perfurar minha pele como agulhas afiadas. As orelhas, que agora se deslocaram para o topo da minha cabeça, se achatam de dor.
CRACK
GANIDO
CRACK
Depois do que parece uma eternidade de dor, eu abro os olhos devagar para uma nova sensação. A casa está silenciosa, mas eu consigo sentir meus pais no cômodo. A presença deles me chama como se fosse um sinal de GPS. Algo instintivo me diz para prestar atenção também.
— Filha, você tá bem? — a voz preocupada da minha mãe atravessa o cômodo até onde eu estava escondida. Solto um ganidinho, querendo responder, mas descobrindo que não conseguia. Demoro um instante até minha mente assimilar o fato de que eu estava em forma de loba. Meu rabo bate de leve, e deixo escapar um choramingo suave. Estava claro que meus pais estavam me dando espaço pra eu conhecer meu segundo corpo, deixando que eu testasse meus membros e me concentrasse na sensação nova de estar mais perto do chão. Criando coragem, fico de pé em pernas trêmulas, dou meu primeiro passo e, logo em seguida, caio no chão, rolando pra fora do meu esconderijo atrás da ilha da cozinha.
Meus pais engasgam num suspiro, e eu encaro o rosto deles. Os olhos dos dois se arregalam de admiração enquanto acompanham cada um dos meus movimentos. Luto pra ficar de pé de novo, e minha mãe vem rápido me ajudar, deixando que eu use o corpo dela como apoio pra me levantar.
— Amberle, você tá linda. Maxwell, pega o espelho grande no corredor pra nossa filha se ver — minha mãe exclama, toda feliz, com as mãos afundadas no meu pelo, me fazendo carinho de leve. Lanço um olhar confuso pra ela enquanto meu pai se afasta pra atender ao pedido. Depois de alguns minutos, ele volta com o espelho, com a parte de vidro virada pra longe de mim. Curiosa, acompanho os movimentos dele até minha mãe cobrir meus olhos. O barulho do espelho sendo apoiado deixa minhas orelhas em pé. Finalmente, tudo se acalma, e sinto meu corpinho sendo guiado até um lugar; a curiosidade me deixa impaciente. Quero ver como eu estou.
— Tã-dã! — minha mãe exclama, tirando as mãos dos meus olhos e saindo da frente. Encaro meu reflexo com choque e curiosidade quando uma bola de pelo fofa me olha de volta. Pelo que eu consigo ver, tenho o tamanho de um cachorro adulto de porte médio. Pareço menor que a maioria dos lobisomens na primeira transformação, mas ainda estou maior do que eu esperava. Sinceramente, eu não deveria ter me transformado por mais uns dez anos, que é quando um lobisomem é forte o bastante pra aguentar a dor da primeira mudança. A loba no espelho tem o pelo vermelho como fogo, e é esse pelo que mais me hipnotiza, enquanto meus olhos de um azul marcante se destacam nele. Como a superfície do sol, com vários tons de laranja, vermelho e amarelo, meu pelo prende minha atenção no espelho. Cada vez que eu me mexo, os fios balançam e brilham como se eu fosse uma bola de fogo viva.
Eu sou linda e eu sei disso, mesmo tendo só seis anos.
Por um tempo, eu apenas fico me encarando, mexendo o rabo e as patas pra apreciar meu pelo bonito. Meu próprio ser me fascina. As horas passam, e meus pais me deixam ali, sozinha, observando meu reflexo enquanto eu fico quieta no chão da cozinha. De vez em quando, eles me lembram de beber água ou comer a comida que colocam em potes pra mim. Eu me recuso a voltar pra minha pele humana e andar em duas pernas como uma pessoa normal.
— Chegamos! — minha irmã avisa, enquanto ela e meu irmão batem a porta da frente ao fechar. A aula deve ter acabado por hoje, porque o barulho dos passos deles anuncia a chegada na cozinha.
— Como a Amber tá… — meu irmão interrompe a pergunta quando me vê, ficando só me encarando, enquanto meu rabo abana de felicidade por ver meus irmãos. Os dois também tinham se transformado cedo: o Zack aos dez anos, e a Mia aos nove. Zack agora tem quatorze, e Mia tem onze. Eles têm mais experiência como lobos do que eu e conhecem bem a dor de uma transformação precoce. Meu irmão foi considerado um prodígio quando mudou pela primeira vez. Isso significava que a vida dele seria difícil, já que a transformação aconteceu cedo — assim como a da Mia e agora a minha.
— Essa é… a Amberle? — Mia pergunta, em puro deslumbramento, sem tirar os olhos de mim.
— É, pelo visto a febre que ela teve hoje de manhã era o começo da transformação — meu pai responde, tirando o espelho de perto de mim. Eu choramingo em protesto, mordendo de leve a barra da calça dele e lançando meu melhor olhar de cachorro sem dono.
— Desculpa, Amber, mas você já ficou na frente desse espelho quase a tarde inteira. Você precisa levantar e se mexer mais pra ir se acostumando com seu lado loba. — Choramingo de novo enquanto começo a seguir meu pai, querendo continuar me admirando. Eu sei que ele tem razão. Minhas tentativas desajeitadas de manter a imagem do meu pelo diante de mim fazem meu corpo tropeçar e escorregar no piso de madeira a cada poucos passos, até que meu pai e o espelho ficam longe demais pra eu alcançar. Ouço o suspiro surpreso dos meus irmãos e me viro pra ver os olhos deles ainda grudados em mim, no meu pelo que parece fogo. As formas de lobo deles parecem sem graça ao lado da minha. Zack é um lobo bege com uma mancha branca sobre o olho esquerdo, e Mia é uma loba marrom-avermelhada suave, com as pontas das patas pretas. Eles têm as mesmas cores dos lobos dos meus pais.
Mas eu sou única.
Eu sou diferente.
E estou decidida a continuar assim.
