Capítulo 2
Logo depois da minha primeira transformação, fui mandada para o treinamento. Lobos especiais que se transformam cedo são enviados para treinar com três focos em mente: velocidade, furtividade e autodefesa. Somos menores do que os lobos que normalmente têm a primeira transformação aos dezesseis anos, por isso nos ensinam a ser rápidos e silenciosos, mas também a nos defender. Somos considerados uma “elite de lobos”, destinados a servir a um propósito maior dentro da matilha. Aos dezesseis anos, podemos escolher se queremos ser Caçadores ou Rastreadores. Se acabarmos sendo fortes o bastante, podemos chegar a líderes da matilha, como Beta, Segundo Beta, Chefe dos Caçadores ou Chefe dos Rastreadores. Eu, pessoalmente, estou de olho no posto de rastreadora, igual à Mamãe — a Rastreadora mais rápida da nossa matilha. Eu já poderia ser considerada um talento natural. Meu corpo, apesar de pequeno, é mais rápido do que o da maioria dos lobos que se transformam aos dezesseis. Consigo facilmente acompanhar lobos mais velhos e esconder meu cheiro ainda melhor. Minha mãe sempre leva a Mia e a mim para treinos extras, porque a Mia parece ser a única que mal consegue acompanhar.
Uma vez por mês, minha família nos levava para caçar. Às vezes caçávamos na floresta, treinando nossos corpos para desviar das árvores enquanto pegamos a presa. Eu adorava a perseguição da caçada. Minhas preferidas são geralmente presas menores, como esquilos e coelhos, animais considerados rápidos demais para serem pegos. Depois de um treinamento rígido com a minha mãe, fiquei rápida o suficiente para agarrar um esquilo enquanto ele dispara subindo numa árvore e chegar antes de um coelho à toca dele. A parte difícil era deixar uma morte limpa.
Mas tem algumas habilidades que aprendemos e que são consideradas essenciais caso algum de nós se torne um Lobo Renegado. Isso inclui como saquear territórios humanos, quais ervas e plantas são comestíveis e quais fazendeiros não sentiriam falta de umas poucas cabeças de gado depois de supostos “ataques de animais”. Esta região noroeste de Ontário, no Canadá, tem muitas florestas e terras consideradas inabitáveis por causa das bruxas, mas ficamos perto o bastante de fazendas para que um simples ataque numa noite sem lua seja o suficiente. E hoje é uma dessas noites.
Meus pais mandam a gente se transformar logo na beira da mata, atrás de casa, antes de seguirmos em silêncio pelo território. Um campo de gado nos recebe logo fora dos limites do território da matilha. Bezerros mugiam e corriam de um lado para o outro, agitados demais para dormir. As mães dormiam tranquilas, sem perceber a ameaça à espreita bem atrás delas. Nossos alvos são os filhotes.
Eu vou primeiro, já que consigo distrair as criaturas com a minha pelagem; meu corpo de loba, aos nove anos, já está amadurecendo para uma adolescente rebelde. Nossa estratégia de caça é que eu distraio os animais e o resto vai para o abate. Em menos de meia hora, já temos cinco bezerros e estamos voltando para casa com o serviço feito. O fazendeiro vai ficar furioso, mas é uma cena à qual muitos acabam se acostumando, considerando os coiotes e lobos comuns que vivem na região. Amanhã de manhã, vão considerar apenas mais um ataque de animal.
Paramos no barracão de carnear, um galpão frio de concreto que meu pai construiu para poder cortar a carne e mandar uma parte para a casa da matilha, para ajudar a estocar. Essa tarefa é uma regra obrigatória imposta pelo primeiro Alfa da matilha, passada de geração em geração. Colocamos com cuidado os bezerros mortos sobre o quadrado de metal logo na porta e deixamos meu pai trabalhando. Minha mãe, meu irmão, minha irmã e eu seguimos para a floresta, abatendo alguns perus selvagens e um cervo. Nosso objetivo é ajudar a criar um estoque para quando for preciso, além de manter abastecida a casa da matilha pelas próximas semanas. Repetimos o processo de colocar os animais em outro quadrado de metal e depois entramos em casa, tomamos banho e relaxamos.
É fim de semana prolongado aqui em Ontário por causa do Dia da Família amanhã, então eu e meus irmãos podemos ficar acordados até tarde e assistir a filmes com os nossos pais. É a única época em que a gente consegue ter esse tipo de momento juntos, já que o Zack está na faculdade e a Mia no ensino médio, então meus pais não precisam mais se preocupar tanto com eles e com o que fazem agora que já escolheram o caminho e o lugar deles na matilha. Mas, como eu ainda sou nova e não escolhi um rumo como membro da matilha, meus pais ainda me tratam como criança.
Eu odeio isso.
— Então, quem quer meus famosos hambúrgueres caseiros amanhã? — pergunta meu pai, entrando todo animado na sala com um cooler, carregando o que eu suponho que seja carne pros hambúrgueres, fazendo eu e meus irmãos ficarmos atentos na mesma hora.
— A gente realmente precisa responder isso, pai? — pergunta o Zack, enquanto eu e a Mia concordamos com a cabeça. A noite continuou, com conversa sobre o que mais a gente ia comer com os hambúrgueres e sobre a diversão que a gente teria na corrida da matilha amanhã à noite. No fim, eu acabei enroscada entre meu irmão e minha irmã, dormindo profundamente.
…
— Pai, a gente já pode ir correr? A matilha já deve estar pronta pra uma — pergunto, impaciente, pulando de um pé pro outro. Nosso jantar tinha terminado horas atrás e agora é hora da Corrida do Dia da Família, que acontece todo ano. Dizer que eu tô animada é pouco. Eu amo ficar na forma de lobo e correr à noite enquanto meu pelo se mexe como se fossem chamas ao vento. Sempre deixa os lobos recém-transformados maravilhados quando eles correm com a matilha pela primeira vez, principalmente porque nunca viram meu pelo antes disso. Do jeito que alguns lobos tropeçam numa raiz por causa da distração, eu sempre acabo rolando de rir no final da corrida. Meus irmãos já se transformaram, cansados de esperar, e eu tô a um passo de entrar na forma de lobo também e sair correndo atrás dos outros membros da matilha. Mas eu sabia que meus pais iam me castigar, me prendendo só no quintal e longe de qualquer corrida da matilha, se eu saísse sem a permissão deles.
— Podemos, sim. — Meu pai ri, e essa frase curtinha é tudo o que eu precisava ouvir antes de correr pra trás de um arbusto e me transformar. Eu ganjo de dor enquanto os ossos estalam e se realinham até eu ficar em pé sobre as quatro patas. Só levou uns três minutos pra eu me transformar e alcançar meus irmãos, mas, com toda aquela dor, pareceu que tinham se passado horas. Por causa da minha idade, minha família limitava o quanto eu podia me transformar, mas mesmo assim me fazia treinar o máximo de transformações possível pra me acostumar com a dor até que virasse algo natural, sem esforço. Ainda faltam três anos pra eu poder ir pro treino de transformação, quando eu fizer quatorze, e as histórias de terror que a Mia e o Zack trouxeram de lá me deixam ao mesmo tempo nervosa e empolgada pra isso chegar logo.
Finalmente, todo mundo está na forma de lobo e correndo pela floresta. Nossa primeira parada é encontrar o resto da matilha na casa da matilha, de onde a corrida vai começar. Isso dá a todos a chance de se soltar na nossa forma mais selvagem, e qualquer lobo é bem-vindo, contanto que consiga acompanhar o grupo. As idades variam de alguns com apenas treze anos até outros com duzentos — ou talvez até trezentos — anos de idade; vantagens de ser uma criatura sobrenatural. Assim que a casa da matilha aparece entre as árvores, o Zack já se separa pra se juntar a um grupo de amigos. Depois, a Mia vai pra outro grupo. Só tem uma pessoa que eu quero ver e, no momento em que avisto o Leo, eu dou uma esfregada de focinho nos meus pais e disparo como uma bala, derrubando o garoto de treze anos no chão e prendendo o filhote mais velho embaixo de mim.
