Capítulo 4
O cheiro de sangue dos meus pais chega até mim antes mesmo de eu ver os membros da matilha formando um círculo na base de uma árvore, a tristeza se espalhando pelo vínculo. Meus passos vacilam de hesitação. Meus pais são lobos fortes, então nada deveria ter acontecido com eles, certo?
Com a determinação renovada, eu passo correndo por todos e assumo minha forma humana, parando de olhos arregalados ao ver meus pais apoiados um no outro, fraquejando. Com um leve chiado de pele queimada, meus olhos primeiro encontram o sangue escarlate pingando de um ferimento no peito do meu pai, perto do coração. A mão dele apertava a da minha mãe enquanto ela lhe dava um sorriso fraco; a outra mão segurava o próprio abdômen, e mais sangue escorria do ferimento, passando pelas pontas dos dedos dela.
— Mãe… Pai… — eu sussurro, e meus pés voltam a se mover devagar até que me vejo ajoelhada na frente deles, minhas mãos pousando sobre as mãos entrelaçadas dos dois.
— Oi, Amber. — meu pai ofega, o rosto sorridente agora voltado para mim, enquanto eu olho de um para o outro. Os ferimentos pioram com os movimentos quando eles se mexem para abrir mais espaço para mim, me deixando chegar mais perto e abraçá‑los.
— Vocês vão ficar bem, né? O médico da matilha vai curar vocês dois, não vai? — A mão da minha mãe alcança o meu rosto, e ela passa os dedos delicadamente pelas minhas bochechas, o sorriso suave carregado de tristeza. Só naquele momento eu percebo que tinha começado a chorar, e me aninho no toque quente dela.
— Me promete que vocês vão ficar juntos, todos vocês! — A voz dela é fraca, mas ainda carrega o comando e o respeito de uma das líderes da matilha. Seus olhos saem dos meus e passam por cima do meu ombro. Eu sigo o olhar dela e vejo Mia e Zack parados logo atrás de mim, com uma expressão de pesar no rosto.
— Vocês não podem deixar a gente ainda. — Mia chora, tomando o lugar ao lado do meu pai enquanto se agarra ao braço dele.
— Me desculpa, Mimi. — Ele suspira, soltando a mão da minha mãe para enxugar as lágrimas de Mia.
— Zack, promete pra gente que você vai cuidar dos seus irmãos. — minha mãe continua, terminando as palavras com uma tosse que faz o sangue escorrer pelos cantos dos lábios. Meu pai rapidamente a envolve em seus braços, e eu vejo Zack assentir, incapaz de colocar em palavras o fato de que nossos pais estão no fim da vida e nada pode impedir isso.
— Ótimo. Agora, lembrem‑se: nós amamos todos vocês. — Papai sorri, lágrimas se acumulando em seus olhos enquanto ele começa a ficar sem ar.
— Fiquem juntos e saibam que nós sempre vamos estar com vocês. — Mamãe continua, antes de soltar mais um suspiro. Eles se inclinam um para o outro, a respiração ficando cada vez mais rasa, até que seus corpos vão ficando moles e seus olhos se fecham. Eles se foram.
— Sua vadia! Isso é culpa sua! — Minha cabeça gira quando um tapa forte acerta meu rosto molhado de lágrimas. Meu corpo se espalha pelo chão da floresta, e eu me viro para olhar para minha irmã Mia, que está de pé acima de mim, as unhas se transformando em garras. Zack corre até ela e a segura. Ele mantém uma expressão neutra no rosto enquanto olha para mim, mas o desprezo e o ódio nos olhos dos dois me deixam paralisada.
“Não é culpa minha.” retruco, me levantando e esfregando a bochecha que agora está inchada.
— Se você não fosse uma loba especial, nossos pais não teriam morrido. É por causa da porra do seu pelo! — ela grita, se debatendo para se soltar do Zack, enquanto o ódio dela parece encher o ar. Eu vou recuando devagar dos meus irmãos, vendo a raiva nos olhos do Zack e me perguntando se ele também vai me atacar.
— Chega, Mia! Zack, leva a sua irmã pra casa da matilha agora — ordena o Alfa Blue, vindo se colocar na minha frente, me protegendo dos dois. Eu vejo a hesitação nos olhos do Zack antes de ele assentir de novo. Ele dá alguns passos, arrastando a Mia ainda furiosa junto com ele, até que para e se vira pra olhar pra mim.
— De agora em diante, você não é mais nossa irmã — ele declara, antes de voltar a arrastar a Mia para longe. Meu coração parece se despedaçar enquanto a escuridão vai tomando minha visão. O que era pra ser só uma corrida comum da matilha acabou me fazendo perder toda a minha família.
— Amberle? — o Alfa Blue grita, estendendo os braços pra me segurar antes que a escuridão me tome por completo junto com essa dor esmagadora.
…
Estou ao lado do Alfa Blue enquanto vejo os caixões com meus pais sendo baixados na terra, um ao lado do outro. Faz três dias desde o acidente, desde a morte dos meus pais e a perda dos meus irmãos.
— Vamos lembrar de Maxwell, nosso amado Beta, e de Carrie, nossa querida Chefe Rastreadora, enquanto eles retornam ao lado da Deusa da Lua — diz o Alfa Blue, com a tristeza marcada na voz. As palavras dele logo viram um ruído distante enquanto as covas vão sendo preenchidas de terra. Todos choram ao meu redor, mas meus olhos estão secos. Eu já não consigo mais chorar, então fico ali parada, sem expressão. Meus irmãos me renegaram três dias atrás, e ninguém da minha idade chega perto de mim, com medo de que eu também cause a morte deles. Até o Leo me ignorou, justo quando eu mais precisava do meu melhor amigo. Ele chegava ao ponto de me empurrar pra longe e gritar comigo se eu acabava encontrando ele.
Meus pensamentos se voltam pro fato de que agora sou órfã. Sou uma pária entre os lobos da minha idade e indesejada por qualquer família que me restou. Estou sozinha.
— Vamos, Amber, vamos arrumar suas coisas — o Alfa Blue me puxa dos meus pensamentos ao segurar minha mão. Meus olhos percorrem a multidão, e vejo olhares de pena dos lobos mais velhos e de desprezo dos mais novos. Muitos seguram a língua porque o Alfa assumiu pra si a responsabilidade de me criar agora e me dar proteção. Sou tirada do funeral e levada por um caminho que me é bem familiar, a floresta quieta e parada. O Alfa Blue e eu sabemos dos planos do Zack e da Mia de incendiar a casa esta noite, nos deixando com pouco tempo pra terminar de empacotar tudo. Se eu não recolher as coisas dos meus pais, elas vão se perder pra sempre.
