Capítulo 5

— Oi, Amby Bamby, como você está se sentindo? — pergunta Axel, o novo Beta, enquanto me pega no colo. Axel foi o Segundo Beta que meu pai escolheu e treinou. Ele é como um tio pra mim, e eu não consigo evitar me agarrar a ele e esconder o rosto em seu ombro.

— Eu entendo — ele suspira. Meu silêncio e minhas ações já diziam tudo, enquanto ele faz um carinho lento nas minhas costas. Axel se junta a mim e ao Alfa Blue, junto com alguns outros lobos de confiança, pra empacotar tudo antes que Mia e Zack cheguem. Fico feliz de sentir um pouco de segurança com ele por perto. Ele me carrega pelo resto do caminho até a casa conversando com o Alfa Blue, me coloca no chão perto da porta da frente e me deixa tomar a iniciativa sobre o que precisa ser feito.

— A gente pode começar pelo meu quarto? — peço, hesitando na porta aberta.

— A gente pode fazer o que você quiser, querida — Axel sorri, bagunçando meu cabelo e me dando um empurrãozinho de leve. Eu guio os lobos até o meu quarto, passando pelo da Zack e o da Mia. Os quartos vazios me lembram que agora estou sozinha, e uma pequena lágrima escorre pela minha bochecha.

Nas seis horas seguintes, nós vamos empacotando, devagar, o meu quarto, o quarto dos meus pais e tudo que eles mantinham na casa. Meu pai tinha uma coleção enorme de livros, da qual ele se orgulhava. Ele guardava tudo no escritório e sempre me deixava sentar no banco da janela pra ler ou tentar ler. Pedi pro Axel colocar os livros nas prateleiras do meu novo quarto. Tudo que não coubesse no meu novo quarto seria guardado num reboque que o Alfa Blue engatou no conversível Mustang, o xodó do meu pai. Era um modelo de 1969, e minha mãe vivia reclamando que, às vezes, ele amava mais aquele carro do que a ela. Agora ele é meu.

— Parece que está tudo embalado — diz o Alfa Blue com um suspiro, entrando no Mustang. Ele vai dirigir até um galpão que é dele, na divisa do território da matilha. Assim, tudo ficaria seguro e escondido do resto do bando.

— Eu vou levar a Amber pro alojamento da matilha. Minha companheira já deve ter terminado de organizar o quarto dela — se oferece Axel, com o olhar encontrando o meu enquanto eu me agarro a uma mala. O Alfa assente antes de ir embora, deixando Axel e eu na frente da minha casa.

— O que você tem aí, Amberle? — ele pergunta ao sentar ao meu lado, enquanto minhas mãos tentam — e conseguem — abrir a mala.

— O uniforme de Rastreadora da mamãe. Eu quero usar quando me tornar Rastreadora-Chefe como ela, um dia — minha voz sai baixa enquanto passo os dedos pelo tecido, o cheiro calmo dela me envolvendo. Logo o cheiro vai sumir.

— É uma boa ideia. Que tal eu segurar pra você enquanto a gente vai pro alojamento da matilha? — Axel sempre pergunta se pode fazer as coisas. É por isso que eu gostava de ficar com ele quando o Alfa não podia. Eu balanço a cabeça em concordância e fecho a mala, deixando que ele a pegue antes de esticar a mão para segurar a que está livre. Vamos em direção ao alojamento da matilha e subimos os muitos lances de escada até o sótão. Blue sabia que eu ia morar no alojamento com ele e alguns membros. O sótão antes servia pra guardar equipamento de festa, mas depois que fizeram espaço no porão, alguns membros da matilha se dispuseram a reformar o sótão e transformá-lo no meu quarto. Era o maior cômodo de todo o alojamento e o meu próprio mundinho particular, longe do mundo real.

Serena, a companheira do Axel, tinha passado o dia organizando as minhas coisas, que foram enviadas pra cá enquanto a gente esvaziava a minha casa antiga. Ela sorri e me envolve num abraço bem apertado assim que eu entro no quarto.

— Quer ver seu quarto novo, querida? — ela pergunta, afastando uma mecha de cabelo do meu rosto. Os olhos dela não têm aquela pena que todos os outros lobos tinham. Em vez disso, ela olha pra mim do mesmo jeito que minha mãe olhava — com olhos cheios de amor e cuidado.

— Quero, sim. — Um sorriso pequeno aparece nos meus lábios quando eu pego a mão estendida da Serena e deixo que a fêmea Beta me guie até o meu novo quarto. As prateleiras ao longo da parede do fundo já estavam cheias dos muitos livros do escritório do meu pai, com um cantinho de leitura ao lado da grande janela que deixava entrar bastante luz do sol. Minha cama ficava encaixada em outro grande vão, que me dava bastante espaço pra trocar por uma cama maior quando eu crescesse, mas eu estava satisfeita com a cama de princesa cor-de-rosa. A minha parte favorita era a escrivaninha grande, cheia de materiais de desenho, de frente pras janelas do chão ao teto. Um sorriso ainda maior floresce no meu rosto quando eu olho pro Axel.

— Seu pai vivia falando sem parar de como você amava arte e de como plantava qualquer coisa que caísse na sua mão. O Alfa não ficou nada feliz quando a gente derrubou a parede pras suas janelas, mas eu achei que isso ia ser uma boa surpresa pra você. Aqui você pode ser tão criativa quanto quiser e plantar todas as flores que quiser. — Uma expressão constrangida passa pelo rosto dele, e Serena dá uma risadinha do companheiro e o puxa pra perto pra um beijo rápido. O tour termina com a Serena me mostrando o meu próprio banheiro e o closet enorme. A ideia tinha sido dela, já que os únicos banheiros na casa da alcateia eram coletivos, então ela achou que seria bom eu ter minhas coisas privadas, longe de todos os outros lobos que moravam aqui.

Serena e Axel me ajudam a decorar o quarto pra terminar de fazer com que ele pareça mais com um lar pra mim. Os dois faziam o meu coração apertado doer menos, do jeito que estavam cuidando de mim. Eles não tinham medo de chegar perto de mim como os outros lobos tinham e ainda me faziam rir e dar risadinhas com o jeito normal como agiam.

— Deixei comida na sua mesa pra quando você ficar com fome. Se precisar de qualquer coisa, é só chamar pelo elo. — diz Serena, enquanto me coloca na cama e me ajeita entre os cobertores. Foi um dia longo, mas ter Axel e Serena aqui ajudou.

— Obrigada — eu sussurro, o carinho deles fazendo o aperto no meu peito diminuir mais um pouco, mas não por completo. O novo casal Beta vai embora depois de ter certeza de que eu sabia onde era o quarto deles na casa da alcateia. O quarto fica quieto e solene sem a presença deles. Abraçada no meu coelho de pelúcia que a mamãe tinha ganhado pra mim num festival na cidade, eu finalmente solto as lágrimas que segurei o dia inteiro e choro até não aguentar mais. Eu tenho medo de ficar sozinha, mas tenho a sensação de que, por um tempo, eu não seria nada além de sozinha. Eu preciso me esforçar mais agora que a minha família se foi. Com determinação e tristeza se misturando no meu coração, eu sinto a escuridão se aproximar enquanto eu choro até pegar no sono.

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