Capítulo 6
Quatorze anos de idade
Solto um gemido enquanto as batidas na minha porta continuam ressoando pelo quarto. Eu sabia que não era o Blue porque ele estava em uma viagem de negócios, e não podia ser o Axel porque ele e a Serena também tinham ido nessa mesma viagem. Hoje também é sábado, então claramente não tem nada importante por agora. Até o treino foi cancelado hoje, já que os membros de Elite da alcateia estavam fora. Eu só queria dormir o dia inteiro. Finalmente, as batidas param e eu reencontro o conforto da minha cama quente no silêncio absoluto. Logo, volto a dormir em paz.
Desperto num sobressalto, arfando por ar, quando o choque de água gelada como gelo me arranca do mundo dos sonhos. Meu pijama gruda na pele enquanto meus olhos procuram freneticamente o culpado, até que vejo a Mia rindo a poucos passos de distância, com o Leo sorrindo de lado ao lado dela. Um dos capangas deles — um Caçador em treinamento chamado Adam — está aos pés da minha cama, rindo e segurando um balde de onde eu presumo que veio a água gelada.
“Claro que eles iam começar a encher o saco”, não consigo evitar de pensar.
— Levanta essa bunda e vai lavar o meu carro, sua desgraçada. — Mia grita, a mão dela agarrando meu pulso com força de ferro enquanto me puxa da cama e me joga no chão. O estrondo alto do meu corpo batendo no piso de madeira parece ser o sinal para o grupo, porque mais lobos logo se amontoam no meu quarto e jogam roupas rasgadas e uma lista de tarefas em cima de mim, ameaçando me espancar ou coisa pior se eu não fizesse tudo a tempo. Não era justo eu ser tratada como saco de pancadas e faz-tudo deles no momento em que o Blue e a Elite saíam. Tudo o que eu queria era uma manhã de sábado tranquila, dormir até tarde e ver filmes.
— Você ouviu o que a gente disse, sua idiota!? — Garras arranham meu rosto e me arrancam dos meus pensamentos depressivos enquanto eu encaro a Mia com ódio nos olhos. Eu sabia que, se retrucasse, ela faria pior do que arranhar meu rosto. Ela já tinha feito pior antes. Eu balanço a cabeça em resposta, esperando ela sorrir, satisfeita, antes de o grupo ir embora. Por um instante, fico sentada no quarto agora vazio, depois me visto e tiro os lençóis molhados da cama. Se eu não começasse a lista agora, não ia conseguir almoçar.
…
Quinze anos de idade
Grito de dor quando o chicote estala nas minhas costas. A pele já tinha se rompido cinco chibatadas atrás, e o sangue quente escorre pelas minhas costas. Dois dias atrás, o Blue e os outros tiveram que viajar de novo a trabalho. Ontem os anciãos resolveram fazer um passeio pras fontes termais. Isso deixou o Leo, o Zack e a Mia no comando, o que significava que eu tinha ficado sozinha pra me virar.
Mais uma chicotada me puxa dos meus pensamentos, e as lágrimas escorrem pelo meu rosto. Meus pulsos estavam em carne viva, de tanto as correntes roçarem na pele. As correntes eram a única coisa me mantendo de pé, já que minhas pernas tinham cedido umas sete chibatadas atrás.
— Já entendeu o seu erro agora, sua inútil!? — Leo pergunta, a mão agarrando o meu cabelo e me obrigando a encará-lo. O erro de que ele falava era ter derrubado a travessa de nachos que eu tinha assado pra ele e pros amigos dele.
— Leo, solta ela, pelo amor de Deus. Não foi nada sério! — Uma voz implora, e meus olhos se voltam pro lobo que está sendo contido. Maverick Night, o futuro Alfa de Crest Haven e primo do Leo, me olha com preocupação enquanto os lobos da nossa idade zombam e riem de mim. Mas o Maverick tinha razão. Se isso continuasse, eu sabia que o meu fim estava perto. Faz dois dias que eu não como nada e, pra uma loba com um metabolismo absurdamente acelerado, isso é péssimo. Eu estou morrendo de fome, e nem o treino é tão pesado quanto essa tortura.
— Ela é a nossa escrava quando o Alfa Blue não está. Qualquer errinho que a Amberle comete é um problemão, Maverick. — Eu consigo ouvir o tom sedutor na voz da Mia enquanto ela passa os dedos pelo peito dele. Esse é um erro enorme da parte dela. Maverick se livra rápido dos Caçadores sob o controle do Leo, incapacita todos e, em seguida, agarra a Mia e quebra o pulso e o antebraço dela. A escuridão começa a tomar conta da minha visão, já que o restinho de força que eu tinha está quase acabando. A pior parte de tudo isso é que hoje é meu aniversário.
— Amberle, aguenta firme. — As correntes chacoalham, e a dor nos meus pulsos queima tanto quanto os ferimentos nas minhas costas. Nenhum som sai de mim enquanto lágrimas silenciosas de dor escorrem pelo meu rosto. Tudo dói, e tudo o que eu quero é a doce libertação do sono ou da morte. A essa altura, qualquer uma das opções serve.
— Meu Deus, Amberle! — A voz conhecida de Blue chega até mim. A fúria dele é tanta que até eu gemo de medo e só quero me encolher toda. E se contaram pra ele que eu cometi um erro? Será que o castigo vai ser pior do que as chicotadas?
— Tio, eu tentei impedir eles. — As vozes começam a ficar abafadas. Sinto a escuridão finalmente me dominar, ao mesmo tempo em que a pressão no meu pulso some e meu corpo é amparado por alguma coisa macia. Talvez eu não acorde mais nesse inferno.
O som de um bip constante vai me puxando da escuridão, enquanto cada terminação nervosa manda uma dor em brasa pelo meu corpo. As lágrimas começam a cair, aliviando um pouco o peso que sinto. Deixo minhas pálpebras se abrirem, só para a luz forte me fazer estremecer e gemer de dor.
— Merda! Desculpa, Amberle, me dá um segundo. — A voz de Blue está baixa e é o único outro som, além do bip insistente. Meu ouvido sensível capta o farfalhar de movimento enquanto os passos de Blue vão se afastando devagar, só pra depois voltarem. A confusão gira na minha cabeça enquanto eu tento entender o que está acontecendo agora. Tudo de que lembro é de levar chicotadas de Leo e Mia e de ouvir Blue furioso gritando, antes de a escuridão me tomar.
— Diminui a luz, então você já pode abrir os olhos, querida. — A voz baixa e suave de Blue volta a reconstruir a confiança que eu tinha nele. Decido acreditar e abro os olhos devagar. A visão está embaçada no começo, e a luz fraca dificulta focar em Blue, cuja silhueta eu sinto que está bem na minha frente. Finalmente, minha visão clareia, e consigo ver Blue com nitidez. O rosto preocupado e a roupa toda amassada de sono são as primeiras coisas que eu noto. A segunda é que estou de bruços, com as costas expostas ao ar.
— Amberle, por que você deixou eles fazerem isso com você? Por que deixou eles te chicotearem? — A voz dele carrega preocupação e exasperação enquanto a mão dele pega a minha. Sinto a tensão do corpo de Blue ir se desfazendo aos poucos, e isso me faz perguntar por que ele estava tão estressado e à flor da pele. Paro um momento pra pensar no que dizer, mas, quando abro os lábios, nada sai. Minha garganta está seca e dolorida de tanto gritar de dor. Cada centímetro do meu corpo ainda parece em chamas, como se o fogo corresse por dentro de mim.
— Só me alcança pelo link. Você ficou em coma por quatro dias, então falar pode ser difícil agora. — Um canudo entra no meu campo de visão quando Blue aproxima um copo de mim, cheio de algo que cheira a água, uma água que minha garganta e meu corpo recebem de bom grado enquanto eu engulo com vontade.
[Eles me tratam assim o tempo todo quando vocês viajam a trabalho.] Respondo com sinceridade, fechando os olhos por um instante enquanto as lembranças de cada surra e cada chicotada que levei de Mia e Leo passam pela minha mente.
— Me mostra o que você quer dizer, Amberle. — Blue pede. Meus olhos se abrem com a percepção de que ele está realmente suplicando, pedindo pra eu abrir minha mente e minhas memórias pra ele ver. Então eu abro.
Inundo o vínculo entre nós com memórias de todas as surras e castigos que recebi, além dos treinos e de passar fome. Era algo com que eu tinha me acostumado e achava normal. Só alguns poucos me queriam de verdade nessa matilha. A maioria das pessoas ou me trata com indiferença ou como escrava quando Blue e os outros membros da Elite saem por alguns dias. A raiva começa a irradiar de Blue, enquanto eu estremeço com as lembranças, lembranças que fazem a minha solidão crescer até virar um abismo sem fundo. A última memória que envio é o que aconteceu antes de eu parar aqui, no que agora percebo ser o hospital da matilha, enquanto as lágrimas continuam escorrendo pelo meu rosto.
— Axel está vindo, mas eu preciso sair e cuidar da matilha pelo que fizeram com você. Ninguém devia ter te tratado assim, Amberle. — Blue sussurra, a fúria emanando ainda mais forte no ar enquanto seus instintos de Alpha despertam. Eu só consigo fazer um leve aceno com a cabeça enquanto ele ajeita um cobertor sobre mim e aperta um botão ligado aos vários tubos de soro enfiados no meu corpo.
— Morfina. Eu sei que você está com uma dor extrema, e isso vai te ajudar a dormir. Descansa, Amberle, e melhora logo. Eu vou consertar tudo e fazer a matilha entender o que acontece quando permitem que machuquem um membro pelas minhas costas. Ninguém vai te ferir agora. — A dor em brasa no meu corpo começa a diminuir aos poucos, enquanto o sono vai chegando. A porta se abre, e Axel entra bem na hora em que o sono finalmente me domina.
