Capítulo 1 Capítulo 1 - A Ômega Que Nasceu Sem Lobo
“A Lua permitiu que ela fosse rejeitada para que descobrisse que seu destino jamais caberia aos pés de um único Alfa. Aquela que todos julgaram fraca carregava uma rainha adormecida, três vínculos escritos pelo destino e poder suficiente para fazer alcateias inteiras se curvarem. No fim, sua maior força não foi ter nascido filha de uma Deusa, mas descobrir que nunca precisou ser menor para merecer amor.”
Ainda não havia luz no céu quando Luara empurrou as portas pesadas do salão principal da Alcateia Floresta da Névoa. O frio da madrugada entrava pelas frestas das janelas, fazendo seus dedos doerem ainda mais.
Ela carregava uma pilha de toalhas limpas nos braços e já estava acordada havia quase uma hora. Enquanto quase toda a alcateia dormia, as ômegas começavam o dia.
Luara colocou as toalhas sobre uma mesa e olhou o enorme salão vazio. Dentro de pouco tempo, aquele lugar estaria cheio de vozes, risadas, ordens e passos apressados.
Ninguém perguntaria quem havia acendido as lareiras, organizado as mesas ou colocado comida quente diante deles. As coisas simplesmente apareciam. E, para muita gente, era assim que as ômegas também existiam.
— Luara, preciso dessas jarras na mesa do Alfa antes do café! — gritou uma mulher da cozinha.
— Já estou indo!
Ela voltou para a cozinha, pegou duas jarras pesadas e caminhou novamente até o salão. Seus braços doíam. As mãos estavam vermelhas de tanto mergulhá-las na água fria enquanto lavava utensílios, mas Luara não reclamava.
Não odiava trabalhar. O que odiava era sentir que ninguém lembrava seu nome até precisar que alguma coisa fosse feita.
Depois do salão, ainda havia roupas para levar até a lavanderia, quartos para organizar e bandejas para buscar. Luara atravessou o corredor carregando um cesto quase maior do que seu corpo quando um Beta passou por ela e deixou uma camisa sobre o topo das roupas.
— Leva essa também.
Nem esperou resposta. Luara olhou para as costas dele se afastando e soltou um suspiro.
— Bom dia para você também — sussurrou.
Continuou andando.
Quando voltou para o salão, o céu já começava a clarear. Algumas pessoas apareciam para o café e Luara ajeitava os últimos pratos quando ouviu um som de saltos vindo da escada. Não precisou levantar a cabeça para saber quem era. Reconheceria aquele jeito de andar em qualquer lugar.
Luana desceu como se estivesse chegando a uma festa.
Os cabelos avermelhados estavam perfeitamente arrumados, o vestido claro marcava sua cintura e suas unhas brilhavam como se nunca tivessem tocado uma vassoura. Tecnicamente, Luana também era ômega. Na prática, havia muito tempo que quase ninguém se lembrava disso.
— Eu ainda não escolhi meu vestido para hoje à noite — reclamou Luana, sentando-se à mesa. — O azul deixa meus olhos bonitos, mas Fier acha que o vermelho combina mais com ela.
Uma amiga ao seu lado riu.
— Se eu tivesse uma loba como Fier, usaria vermelho todos os dias.
Luana sorriu imediatamente.
Fier era motivo de orgulho desde que despertou. Uma loba de pelos avermelhados, bonita, forte e rara o suficiente para chamar atenção. Luana nunca escondia o prazer que sentia quando alguém admirava sua companheira interior.
Luara colocou uma jarra sobre a mesa.
— O vermelho realmente fica bonito em você.
Luana levantou os olhos.
— Está tentando ser gentil comigo hoje?
— Eu sempre tento.
— Nem sempre consegue.
Luara preferiu ignorar. Ia se afastar quando Luana segurou seu pulso.
— Espera.
Os olhos da irmã desceram até seus braços.
— Você deveria escolher alguma coisa que esconda seus braços. Estão tão marcados de trabalho que qualquer homem perceberá de longe que você é uma ômega.
Luara olhou para a própria pele. Havia pequenas marcas, alguns arranhões e sinais do trabalho diário.
Ela puxou o braço de volta.
— Eu sou uma ômega. Não tenho vergonha disso.
Luana inclinou a cabeça e sorriu daquele jeito que Luara conhecia desde criança. Era o sorriso que vinha sempre antes de alguma palavra escolhida exatamente para machucar.
— De ser ômega talvez não. Mas de ser a única ômega adulta da alcateia que nem sequer conseguiu despertar uma loba... eu teria.
A mão de Luara apertou o pano que carregava. Por um instante, todo o barulho do salão pareceu desaparecer. Aquela era a ferida que ninguém precisava abrir porque nunca fechava.
— Bom café, Luana.
Ela se afastou antes que a irmã pudesse ver seus olhos marejados.
Luara lembrava perfeitamente do dia em que Fier havia despertado. Luana tinha gritado de felicidade no meio da sala enquanto dizia que conseguia ouvi-la dentro da cabeça. A mãe chorou. A avó sorriu. Todos fizeram festa.
Naquela noite, Luara, ainda criança, foi dormir esperando que sua própria loba falasse também.
Não falou.
Ela esperou no aniversário seguinte.
Depois no outro.
E no outro.
Viu amigos despertarem seus lobos. Viu adolescentes aprenderem a discutir mentalmente com eles, pedir conselhos, reclamar e até rir sozinhos porque alguma coisa havia sido dita dentro de suas cabeças.
Luara continuou ouvindo apenas silêncio.
Depois do café, voltou para a casa pequena onde morava com a mãe e a avó. Luana praticamente já passava mais tempo na casa principal da alcateia, cercada de pessoas dispostas a agradá-la, mas Luara ainda fazia questão de almoçar com as duas mulheres sempre que podia.
Sua mãe estava cortando legumes quando ela entrou.
— Você trabalhou desde cedo outra vez.
— Como todos os dias.
A avó levantou os olhos.
— Está cansada?
— Um pouco.
Luara sentou-se e ficou alguns segundos em sem dizer nada. Depois perguntou:
— Vocês acham que ainda pode acontecer?
A mãe parou com a faca no ar.
— O quê?
— Minha loba.
O silêncio veio rápido demais. Luara percebeu.
— Talvez ela apareça amanhã. No Ritual da Primavera. Talvez a Lua Grande faça alguma coisa.
Sua mãe ficou pálida. A avó imediatamente pegou uma xícara e colocou diante dela.
— Você deveria comer mais antes da festa, por mais que seja em poucos dias. Vai passar muitas horas de pé.
Luara franziu a testa.
— Vó, eu estava falando da minha loba.
— E eu estou dizendo para você se alimentar.
— Vocês sempre mudam de assunto.
A mãe forçou um sorriso.
— Porque ninguém sabe quando uma loba pode despertar, querida.
— Ou se vai despertar.
A voz de Luara saiu baixa. A mãe se aproximou e tocou seu rosto.
— Você não é menos importante por causa disso.
Luara sorriu sem muita vontade.
— Talvez para você.
Saiu pouco depois.
Enquanto caminhava pela alcateia, viu um grupo de guerreiros atravessar o pátio. No centro deles estava Alfa Zyros.
Era impossível não notar sua presença.
Alto, forte, sempre sério, Zyros comandava a Floresta da Névoa com uma autoridade que fazia até homens mais velhos endireitarem a postura quando ele passava. Luara o conhecia desde sempre, mas nunca havia realmente conversado com ele além de respostas rápidas quando servia alguma mesa.
Por um segundo, observou seu perfil.
Bonito.
Poderoso.
Distante.
Luara imediatamente desviou os olhos.
Uma ômega sem loba não deveria sonhar com um Alfa. Era o tipo de fantasia que renderia risadas durante meses se alguém descobrisse.
Naquela noite, quando todos começaram a se preparar para o Ritual da Primavera, Luara entrou em seu pequeno quarto e fechou a porta. Escolheu o melhor vestido que possuía. Era simples, mas bonito.
Depois ficou diante da janela. A lua já surgia entre as árvores. Luara encostou os braços no parapeito e respirou fundo.
— Eu não quero poder. Não quero posição. — Sua voz saiu quase como um segredo. — Só quero que exista alguém no mundo que olhe para mim e pense: é ela.
Uma lágrima escorreu. Luara enxugou rapidamente. Não viu quando uma marca muito fina surgiu sobre a pele de seu pulso. Brilhou por apenas um segundo. Como um fio de luz tentando acordar.
Então desapareceu.
E, bem no fundo de uma parte de Luara que permaneceu em silêncio durante toda a sua vida, alguma coisa se moveu.
