Capítulo 2 Capítulo 2 - O Cio Que Ela Aprendeu a Suportar Sozinha

“Rejeitaram a ômega que acreditavam não ter loba. A Lua despertou uma Rainha. Três Alfas se curvaram diante dela, três corações a escolheram, e o mundo descobriu tarde demais que algumas mulheres não nascem para pertencer a um Alfa nascem para mudar o destino de todos eles.”

Luara acordou com o corpo queimando.

Por alguns segundos, permaneceu deitada, olhando para o teto e tentando convencer a si mesma de que aquilo era apenas calor. Mas conhecia bem demais aquela sensação. A pele sensível, a respiração pesada, a inquietação que começava no peito e se espalhava por cada parte do corpo.

O cio havia chegado novamente.

Ela fechou os olhos e soltou um gemido baixo de irritação. Desde os dezesseis anos passava por aquilo algumas vezes, principalmente perto dos períodos em que a lua ficava mais forte. Nunca havia entendido como seu corpo podia reagir como o de uma loba adulta se, segundo todos, ela nem sequer possuía uma.

— Claro que tinha que acontecer agora — sussurrou, puxando o lençol.

Justamente na véspera do Ritual da Primavera.

Luara saiu da cama e abriu a janela, deixando o vento frio entrar no quarto. A temperatura do lado de fora ainda era baixa, mas aquilo quase não fazia diferença. Seu corpo parecia uma fornalha por dentro e a camisola grudava em suas costas.

Ela pegou uma toalha e foi para o pequeno banheiro.

A água estava tão fria que a fez prender a respiração quando caiu sobre seus ombros. Mesmo assim, permaneceu ali. Era uma das poucas coisas que ajudavam quando o cio ficava forte. Água fria, silêncio e distância de outras pessoas.

Ela havia aprendido sozinha.

Nunca teve um companheiro para ajudar. Nunca sequer teve uma loba para explicar o que acontecia dentro dela. Enquanto outras meninas ouviam suas lobas reclamando, pedindo proximidade ou dizendo que queriam encontrar seus destinados, Luara tinha apenas o próprio corpo e muitas perguntas.

O desejo fazia parte.

Mas não era o pior.

O pior era aquela sensação funda de ausência, como se seu corpo procurasse alguma coisa que não conseguia encontrar. Não era apenas vontade de ser tocada. Era necessidade de sentir alguém perto, de ouvir uma voz dizendo que ela não precisava enfrentar aquilo sozinha.

Luara fechou os olhos debaixo da água. Todos os anos era igual. Ela se trancava. Esperava. E sobrevivia.

Quando saiu do banho, vestiu uma roupa leve e voltou para a cama. Tentou dormir novamente, mas o corpo não encontrava posição. Virava para um lado, depois para o outro, até desistir e ficar encarando a parede.

Uma batida suave veio da porta.

— Luara?

Era sua mãe.

— Pode entrar.

A mulher abriu a porta e imediatamente percebeu seu estado. Não precisou perguntar. Caminhou até a cama, colocou a mão sobre a testa da filha e franziu o rosto.

— Você está queimando.

— Eu sei.

— Quando começou?

— Durante a madrugada.

A mãe suspirou e foi até uma pequena bacia. Molhou um pano em água fria, torceu e colocou sobre a testa de Luara. O alívio foi imediato, mesmo que pequeno.

— Você deveria ter me chamado.

Luara deu um sorriso cansado.

— Para quê? Já sei o que fazer.

A frase deixou a mulher triste.

— Você não deveria ter aprendido a passar por isso sozinha.

Luara virou o rosto na direção dela.

— Mas aprendi, mãe. Tive que aprender.

A mãe continuou segurando o pano sobre sua testa. Seus olhos estavam diferentes, como se estivesse pensando em coisas que não queria dizer.

Depois, sem perceber, deixou escapar:

— Se eu pudesse ter escolhido outro destino para você...

Luara abriu os olhos.

— Outro destino?

A mãe ficou imóvel.

— Eu só nasci sem loba, mãe. Não estou morrendo.

A mulher segurou sua mão com força.

— Algumas coisas que parecem uma maldição são proteção.

Luara franziu a testa.

— O que isso significa?

— Eu...

A porta se abriu. Sua avó entrou carregando uma bandeja com chá e algumas frutas. Assim que viu o rosto da filha, depois o de Luara, alguma coisa mudou em sua expressão.

— Ela precisa descansar.

Luara olhou de uma para a outra.

— Minha mãe estava me dizendo alguma coisa.

— Não estava dizendo nada — respondeu a avó rapidamente. — Sua febre está deixando você sensível demais.

Luara puxou a mão da mãe.

— Eu sei o que ouvi.

A avó colocou a bandeja sobre a mesa.

— Então ouviu uma mãe preocupada.

Luara não acreditou. Mas estava cansada demais para discutir. Horas depois, a febre começou a diminuir. Ela finalmente adormeceu.

Foi nesse momento que sua mãe saiu do quarto e encontrou a mãe dela esperando no corredor. As duas caminharam caladad até a cozinha e fecharam a porta.

— Você quase contou — acusou a mulher mais velha.

— Ela sofre todos os anos, mãe!

— Eu sei, minha filha.

— Não, mãe. Você não sabe como é olhar para minha filha e ver ela acreditando que nasceu incompleta.

A avó abaixou a voz.

— O selo precisa permanecer intacto.

— Até quando? — Ela ficou calada por um tempo. — Até quando vamos esconder isso dela?

A mulher mais velha olhou na direção do corredor.

— Até termos certeza de que ela consegue sobreviver ao que carrega.

A mãe de Luara passou as mãos pelo rosto.

— Ela merece saber quem é.

— E se os outros descobrirem?

— Ela já é adulta.

— Para eles isso não importa.

A avó respirou fundo.

— Você sabe o que acontece a cada século.

A mãe fechou os olhos.

Sabia sim. A cada cem anos, uma mulher daquela linhagem era escolhida pela Deusa da Lua. Não para gerar uma criança comum. Aquela mulher carregava a própria filha da Deusa, uma criança nascida com parte de sua essência e metade de seu poder.

Luara havia sido a escolhida.

No dia em que nasceu, coisas aconteceram que ninguém conseguiu explicar. Lobos se curvaram sem saber por quê. A lua permaneceu visível mesmo depois do amanhecer. E a menina abriu os olhos com uma luz prateada que assustou até sua própria família.

A mãe chorou ao lembrar.

— Talvez tenhamos errado.

A avó ficou séria.

— Nós salvamos ela.

Quando Luara ainda era bebê, as duas fizeram o impensável. Selaram aquela energia antes que alguém percebesse o que havia nascido dentro da Floresta da Névoa.

Prenderam seu poder. E, sem saber exatamente quais seriam as consequências, prenderam também sua loba.

Místic.

A majestosa loba permaneceu adormecida durante todos aqueles anos, enterrada sob camadas de magia tão profundas que nem Luara conseguia senti-la.

A mãe olhou novamente para o corredor.

— Ela acredita que não tem loba.

A avó respondeu:

— E essa mentira manteve ela viva.

No quarto, Luara dormia sem imaginar que, muito além de seus sonhos, dois enormes olhos brancos permaneciam fechados dentro dela.

Esperando.

No final da tarde, a febre finalmente cedeu quase por completo. Luara estava sentada diante do espelho penteando os cabelos quando Luana entrou sem bater.

— Você está melhor?

— Estou.

Luana caminhou até o espelho e começou a observar a própria imagem.

— Ainda bem. Seria horrível perder o ritual por causa de cio.

Luara ficou quieta. Luana segurou dois tecidos diante do corpo.

— Vermelho ou azul?

— Vermelho.

Um sorriso satisfeito surgiu.

— Fier também escolheu vermelho.

Dentro dela, a loba respondeu:

— "Porque você fica bonita nessa cor."

Luana sorriu ainda mais.

— Talvez um Alfa seja meu companheiro — falou, admirando-se no espelho. — Fier diz que eu não nasci para qualquer homem.

Luara deu um pequeno sorriso.

— Espero que você encontre alguém que ame você.

Luana virou o rosto.

— E você espera encontrar alguém também?

Luara respirou fundo.

— Espero.

A irmã riu. Não foi uma gargalhada alta. Foi pior. Um riso curto, carregado daquele desprezo conhecido.

— Então espero que a Deusa esteja de muito bom humor.

Luara ficou olhando para ela. Luana pegou os tecidos e caminhou até a porta como se não tivesse acabado de ferir ninguém.

Luara esperou a porta fechar. Esperou os passos desaparecerem pelo corredor. Só então deixou os olhos se encherem de lágrimas.

Ela abraçou os próprios joelhos e olhou para a janela, onde a lua começava a surgir outra vez. Talvez Luana estivesse certa.

Talvez fosse pedir demais que alguém escolhesse uma ômega sem loba. Ainda assim, Luara queria acreditar.

Porque, depois de tantos anos enfrentando tudo sozinha, seu maior desejo não era ter poder. Era apenas não precisar atravessar a próxima noite de cio sozinha.

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