Capítulo 3 Capítulo 3 - A Noite da Lua Grande

Quando o sol começou a desaparecer atrás das montanhas, Luara já estava diante do pequeno espelho do quarto havia vários minutos. O vestido que sua mãe escolheu era simples, de tecido claro, com mangas delicadas e a cintura marcada sem exagero.

Não havia pedras, bordados caros ou qualquer coisa que pudesse competir com as roupas das mulheres de famílias importantes. Ainda assim, pela primeira vez em muito tempo, ela gostou do que viu.

Sua mãe estava atrás dela, terminando de prender apenas uma parte de seus cabelos. O restante caía livre pelas costas, formando ondas naturais.

Luara tocou o tecido do vestido e sorriu com certa insegurança, imaginando se deveria ter escolhido algo que chamasse menos atenção. Estava tão acostumada a tentar desaparecer que sentir-se bonita parecia quase errado.

— Você está linda — disse sua mãe, encontrando seu olhar pelo espelho. — E não diga que estou falando isso porque sou sua mãe. Hoje você está especialmente bonita.

— Você sempre diz isso.

— Porque sempre é verdade.

Luara sorriu, mas os olhos se encheram de emoção. Respirou fundo para não borrar o pouco que havia colocado no rosto. Aquela seria a noite do Ritual da Primavera. Durante anos tinha assistido outras mulheres encontrarem seus companheiros. Agora, mesmo sem uma loba, queria acreditar que talvez a Deusa ainda tivesse reservado alguém para ela.

Quando saiu do quarto, encontrou Luana esperando no corredor. A irmã vestia vermelho, como havia decidido. O vestido era mais elaborado, com o tecido justo no corpo e detalhes dourados que chamavam atenção. Os cabelos estavam perfeitamente arrumados, e Luana parecia saber exatamente o efeito que causaria quando chegasse à celebração.

Ela analisou Luara dos pés à cabeça.

— Está melhor do que eu esperava.

Luara levantou uma sobrancelha.

— Isso foi um elogio?

— Não se acostume.

A mãe das duas suspirou.

— Vocês podem passar uma única noite sem brigarem?

— Eu não estou brigando — respondeu Luana, pegando sua capa. — Só estou dizendo que ela está bonita. Mesmo sendo um vestido simples.

Luara decidiu não responder. Aquela noite era importante demais para permitir que Luana estragasse tudo antes mesmo de começar. Colocou a própria capa, despediu-se da avó e saiu acompanhada das duas.

A caminhada até o ponto onde os oito territórios se encontravam levou algum tempo. Antes mesmo de chegarem, já era possível ouvir música e vozes. O brilho das fogueiras atravessava as árvores e iluminava o caminho. Quando finalmente entraram na enorme clareira, Luara parou por alguns segundos apenas para observar.

O lugar estava completamente transformado.

Grandes fogueiras queimavam em diferentes pontos. Mesas compridas estavam cobertas de comida, bebidas e frutas. Bandeiras com os símbolos das oito alcateias haviam sido colocadas ao redor da clareira, e centenas de pessoas conversavam, dançavam ou procuravam conhecidos entre a multidão. Havia expectativa no ar.

Muitos daqueles jovens sairiam dali com a vida mudada.

— Eu vou procurar algumas amigas — anunciou Luana.

A mãe segurou seu braço.

— Não se afaste demais antes do ritual.

— Mãe, eu não sou criança.

Luana saiu antes de receber outra recomendação. Em poucos segundos, já havia dois homens ao seu redor oferecendo bebida e querendo saber se ela precisava de alguma coisa.

Luara observou e soltou uma risada pequena.

— Ela realmente não precisa fazer esforço.

Sua mãe acompanhou seu olhar.

— Você não precisa ser como sua irmã.

— Eu sei.

E naquela noite, curiosamente, Luara acreditava nisso.

Não precisava parecer uma Luna. Não precisava ser a mulher mais bonita daquele lugar. Não precisava ter dezenas de homens olhando em sua direção. Pela primeira vez, sentia-se bonita simplesmente porque olhava para si mesma e gostava da mulher que encontrava.

Foi então que percebeu algumas movimentações entre os convidados.

Três Alfas acabavam de chegar.

Luara conhecia todos de vista. Eles já tinham visitado a Floresta da Névoa em diferentes ocasiões, mas nunca tinham passado de presenças distantes na vida de uma ômega como ela.

O primeiro que chamou sua atenção foi Ezra, Alfa da Lua Negra. Vestido completamente de preto, ele conversava com alguns homens enquanto observava a clareira como se nada escapasse aos seus olhos. Havia alguma coisa provocadora até no sorriso que surgia de vez em quando em seu rosto.

Em determinado momento, Ezra percebeu que Luara estava olhando. Ela desviou os olhos imediatamente.

— Ótimo — sussurrou para si mesma.

Quando criou coragem para olhar novamente, Ezra ainda parecia divertido.

Poucos metros atrás estava Thyron, Alfa da Garra de Prata. Ele era completamente diferente. Não sorria para todos nem parecia interessado em chamar atenção. Permanecia com os ombros retos e falava com seu Beta em voz baixa, observando as entradas da clareira e os movimentos dos guerreiros.

Tudo nele transmitia controle.

O terceiro era Allaster, Alfa do Luar do Cisne.

Luara sabia que era o mais velho dos três. Sua presença também era diferente. Enquanto alguns Alfas precisavam erguer a voz para serem notados, Allaster apenas chegava e as pessoas naturalmente prestavam atenção. Ele cumprimentava homens e mulheres com a mesma tranquilidade, sem qualquer necessidade de provar que comandava uma alcateia.

Por um momento, Luara os observou.

Três homens poderosos.

Três Alfas que jamais fariam parte de sua vida.

Ela não imaginava que, antes que aquela noite terminasse, seu destino seria amarrado aos três de uma maneira que ninguém naquele lugar conseguiria explicar.

Naquele instante, porém, sua atenção estava em outro homem.

Zyros.

O Alfa da Floresta da Névoa surgiu próximo ao local elevado preparado no centro da clareira. Luara sentiu o coração acelerar sem entender por quê. Ele vestia roupas escuras e caminhava acompanhado de seu Beta e de alguns guerreiros.

Quando passou perto dela, Luara abaixou os olhos por costume. Zyros sequer percebeu. Ou, se percebeu, não demonstrou.

— Nem comece — sussurrou Luara para si mesma.

Imaginar Zyros como companheiro seria ridículo. Ele precisava de uma Luna forte, respeitada, com uma loba capaz de representar a Floresta da Névoa ao seu lado. Não de uma ômega que passou aquela manhã carregando roupas para a lavanderia.

Mesmo assim, seus olhos continuaram encontrando-o no meio da multidão.

Pouco tempo depois, a música diminuiu.

As conversas foram desaparecendo até que apenas o estalar das fogueiras permanecesse. Zyros subiu ao ponto mais alto da clareira e olhou para as centenas de pessoas reunidas diante dele.

A lua estava quase no auge.

— Chegou o momento que muitos esperaram durante muito tempo — anunciou.

Luara sentiu as mãos ficarem frias. Zyros continuou:

— Quando a lua alcançar o ponto mais alto, fechem os olhos. Não procurem posição, beleza ou poder. Sintam o cheiro que nenhuma outra pessoa possui para vocês. Deixem o vínculo conduzir seus passos.

Algumas pessoas sorriram. Outras seguraram as mãos de amigos por nervosismo. Luara respirou profundamente.

Pela primeira vez em anos, esqueceu completamente que não tinha uma loba. Naquele momento era apenas uma mulher esperando que existisse alguém no mundo destinado a encontrá-la.

A lua chegou ao ponto mais alto. Todos fecharam os olhos. Luara fez o mesmo. Por alguns segundos, nada aconteceu. Então veio o cheiro.

Forte.

Mas não desagradável. Era quente, profundo, impossível de confundir com qualquer outra pessoa naquele lugar. Luara abriu a boca para respirar e percebeu que seu corpo inteiro havia reagido.

Seu coração disparou. Uma sensação estranha surgiu no centro do peito. Puxando. Chamando. Ela deu um passo. Depois outro.

Não sabia para onde estava indo. Apenas seguia o cheiro que parecia ficar mais intenso a cada movimento. Pessoas também caminhavam ao seu redor, guiadas por seus próprios vínculos, mas Luara quase não percebia.

Parou de repente. O cheiro estava ali. Muito perto. Luara abriu os olhos. E esqueceu como respirar. Zyros estava parado exatamente diante dela.

Os olhos dele também estavam abertos.

Por um segundo, ninguém falou.

Luara levou a mão ao peito, sentindo o coração bater com tanta força que chegava a doer. Uma felicidade absurda tomou conta dela. Seus olhos se encheram de lágrimas antes mesmo que pudesse evitar.

A Deusa não tinha esquecido dela. Ela possuía um companheiro. E era ele.

— É você... — sussurrou.

Zyros não sorriu. O choque no rosto dele desapareceu lentamente. No lugar surgiu algo que Luara reconheceu imediatamente.

Rejeição.

— Não.

O sorriso dela morreu.

— O quê?

Zyros recuou um passo, olhando para Luara como se estivesse diante de algo impossível.

— Não pode ser você.

O coração dela pareceu parar. Ao redor, algumas pessoas começaram a perceber o que estava acontecendo.

E olhando para a expressão do homem que deveria recebê-la como a mulher destinada a caminhar ao lado dele, Luara entendeu uma coisa terrível.

Seu maior sonho não tinha acabado de se realizar. Estava prestes a se transformar em sua maior humilhação.

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