Capítulo 4 Capítulo 4 - Eu Rejeito Você, Luara

— Não pode ser você.

As palavras de Zyros ficaram suspensas entre os dois enquanto Luara ainda tentava entender o que estava acontecendo. O cheiro dele continuava forte demais, envolvendo seus sentidos, puxando alguma coisa dentro de seu peito. Ela não tinha loba, nunca tinha ouvido uma voz em sua mente, mas não precisava de nenhuma delas naquele instante para saber a verdade.

Ele era seu companheiro.

Ao redor, algumas pessoas começaram a perceber que havia algo errado. Os passos diminuíram, os cochichos cresceram e rostos curiosos se viraram na direção deles. Luara sentiu as mãos ficarem geladas, apesar do calor das fogueiras espalhadas pela clareira. Zyros continuava olhando para ela como se esperasse que desaparecesse diante de seus olhos.

— Eu senti você — Luara sussurra, quase sem voz. — Você também sentiu. Eu sei que sentiu.

Zyros passou a mão pelos cabelos e olhou rapidamente ao redor. Aquela reação machucou mais do que ela queria admitir. Ele não parecia feliz, confuso ou emocionado por encontrar sua companheira. Parecia preocupado com quem estava assistindo. Como se o problema não fosse o vínculo, mas a mulher que estava na frente dele.

Foi nesse momento que Luana apareceu.

Ela vinha sorrindo, provavelmente depois de perceber a movimentação. Quando viu a irmã parada diante de Zyros, seu sorriso desapareceu por apenas um segundo. Seus olhos passaram por Luara, depois pelo Alfa, e uma compreensão rápida brilhou em seu rosto. Luara esperou que ela se aproximasse para ficar ao seu lado.

Mas Luana fez exatamente o contrário.

— Alfa... talvez tenha acontecido alguma confusão — disse suavemente, aproximando-se de Zyros. — O cheiro que sentiu pode ter sido o meu. Luara estava ao meu lado antes do ritual.

Luara virou o rosto devagar.

— Luana...

A irmã não olhou para ela.

— Fier ficou inquieta quando a lua chegou ao auge — continuou, tocando os próprios cabelos. — Talvez o vínculo tenha puxado você na direção errada por causa da proximidade.

Luara sentiu o estômago embrulhar.

— Isso não faz sentido.

Luana finalmente a encarou.

— Você nem tem loba. Como poderia possuir um vínculo com um Alfa?

A pergunta foi feita com tanta naturalidade que algumas pessoas próximas começaram a trocar olhares. Luara reconheceu o julgamento antes mesmo de ouvir qualquer comentário. Era a mesma expressão que recebeu durante toda a vida. A pobre ômega sem loba. A menina que havia crescido incompleta.

Zyros olhou para Luana.

Por alguns segundos, algo parecido com esperança surgiu em seus olhos. Luara viu. E aquilo partiu alguma coisa dentro dela. Ele queria acreditar.

Preferia acreditar que a companheira destinada era Luana, bonita, admirada e dona de Fier, do que aceitar que a Deusa havia colocado Luara diante dele.

— Talvez... — Zyros começou.

Então sua voz morreu. Os olhos dele haviam descido para o próprio pulso. Luara acompanhou o movimento.

Um fio prateado muito fino circundava a pele de Zyros. Quase parecia luz líquida. O fio avançava pelo espaço entre eles, atravessando o ar até alcançar o pulso de Luara.

Ela também olhou para a própria pele. A mesma prata circulava seu braço. Não havia engano. Luana perdeu o sorriso. Zyros ficou completamente imóvel.

— Não — sussurrou outra vez.

Luara sentiu vontade de chorar.

— Você está vendo.

— Eu estou vendo.

— Então pare de agir como se eu tivesse feito alguma coisa contra você.

Zyros levantou os olhos.

— Você não entende.

— Então explica.

Ele olhou ao redor novamente.

Homens da Floresta da Névoa observavam. Alguns membros de outras alcateias também haviam percebido. Um Alfa encontrar sua companheira durante o Ritual da Primavera normalmente era motivo de comemoração. Mas nenhum sorriso surgia ali.

Luara entendeu. Ele estava pensando na posição. Na imagem. Na Luna que deveria apresentar à própria alcateia. E ela era uma ômega.

Sem loba.

Zyros se aproximou alguns passos. Sua voz saiu baixa o suficiente para que apenas Luara, Luana e algumas pessoas muito próximas conseguissem escutar.

— Eu não posso fazer isso.

Luara ficou sem ar.

— Fazer o quê?

Ele fechou os olhos por um instante. Quando abriu, havia decisão. E aquilo assustou Luara.

— Não faça. — Zyros não respondeu. — Zyros, não faça isso.

Ele endireitou os ombros. Luara sentiu o vínculo entre os dois reagir antes mesmo de ouvir as palavras. Seu peito apertou, a respiração falhou e um medo desconhecido tomou conta dela.

Então ele falou.

— Eu, Alfa Zyros, da Alcateia Floresta da Névoa, rejeito você, Luara, uma ômega sem lobo, como minha Luna.

A dor não veio aos poucos. Veio inteira.

Luara abriu a boca, mas nenhum grito saiu primeiro. Algo pareceu atravessar seu peito e rasgar seu coração por dentro. Suas pernas perderam a força, e ela caiu de joelhos no chão.

— Luara! — sua mãe gritou.

O gosto de ferro surgiu na boca. Luara tossiu. Sangue caiu sobre o tecido claro do vestido que, poucas horas antes, havia feito ela se sentir bonita.

Agora parecia uma lembrança cruel.

Sua mãe tentou correr até ela, mas a avó segurou seu braço com força.

— Não!

— Solte! Minha filha está sangrando!

— Olhe para ela!

A mãe parou. Por um segundo, uma luz quase branca pulsou sob a pele de Luara, perto do peito. A avó ficou pálida.

— O selo — sussurrou.

— Não...

— Está reagindo.

Luara não ouviu. Tudo que conseguia perceber era a dor e Zyros. Ele ainda estava de pé.

O rosto estava tenso, uma das mãos apertava o próprio peito e havia suor em sua testa. A rejeição também o tinha atingido, mas ele parecia disposto a suportar tudo para não aceitar Luara como Luna.

Ela ergueu os olhos cheios de lágrimas. Naquele instante, alguma coisa mudou. Passou a vida ouvindo que era menos. Menos bonita que Luana. Menos desejável. Menos valiosa porque não tinha loba.

Agora o homem que o destino havia colocado diante dela estava dizendo a mesma coisa sem precisar repetir.

Luara limpou o sangue dos lábios com as costas da mão.

— Olhe para mim, Alfa. — Zyros permaneceu parado. Ela respirou com dificuldade. — Eu mandei olhar para mim.

Talvez tenha sido o tom. Talvez tenha sido alguma coisa escondida dentro dela. Mas Zyros obedeceu. Seus olhos encontraram os de Luara. Ela sentiu outra lágrima descer.

— Você sente vergonha de mim?

Ele não respondeu. E o silêncio respondeu por ele. Luara soltou uma pequena risada quebrada.

— Então eu não quero você.

Zyros franziu a testa.

— Luara...

Ela se endireitou como conseguiu, ainda ajoelhada.

— Eu, Luara... também rejeito você, Alfa Zyros.

O efeito foi imediato. Zyros soltou um grito abafado e levou a mão ao peito. Dessa vez, foram os joelhos dele que bateram no chão.

Diante dela.

A clareira inteira pareceu mergulhar em silêncio. Luara fechou os olhos enquanto a segunda onda de dor atravessava seu corpo. O fio prateado entre os dois tremeluziu e começou a desaparecer até restar apenas uma sombra fraca sobre a pele.

Acabou. Ou deveria ter acabado. Luara respirou fundo e tentou se levantar. Então seu braço esquerdo se moveu sozinho.

— O que está acontecendo? — sussurrou.

Seu pulso se ergueu diante de seu rosto. Uma luz dourada apareceu. Primeiro, uma pulseira transparente se formou ao redor de sua pele. Depois outra. E outra.

Três.

Um murmúrio atravessou a multidão.

— Três vínculos? — alguém perguntou.

— Isso é impossível.

Luara mal conseguia respirar.

Das três pulseiras partiram fios dourados, brilhantes e vivos. Eles atravessaram a clareira em direções diferentes, passando entre homens e mulheres que começaram a abrir caminho.

Luara acompanhou o primeiro fio.

Ele terminou no pulso de Ezra. O Alfa da Lua Negra olhava para a própria pele com uma expressão que ela nunca tinha visto nele.

Ela seguiu o segundo.

Thyron. O Alfa da Garra de Prata estava imóvel, sério, mas seus olhos estavam presos nela.

Luara sentiu o coração acelerar. Então olhou para o terceiro.

Allaster. O Alfa do Luar do Cisne observava o fio dourado ligando os dois com uma calma assustadora, como se estivesse tentando compreender algo que nenhuma regra conhecida poderia explicar.

Luara ficou parada.

Três Alfas.

Três fios.

Três vínculos.

E todos terminavam nela.

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