Capítulo 5 Capítulo 5 - Três Alfas de Joelhos Diante Dela

Ninguém se moveu.

Luara continuava com o braço erguido, olhando para os três fios dourados que saíam de seu pulso e atravessavam a clareira. Um terminava em Ezra, outro em Thyron e o terceiro em Allaster. O brilho parecia vivo, pulsando no mesmo ritmo do coração dela, rápido demais, assustado demais.

O sangue ainda tinha gosto de ferro em sua boca. A dor da rejeição ainda apertava seu peito. E agora havia três Alfas ligados a ela.

— Não... — sussurrou.

Luara tentou puxar o braço para junto do corpo, mas os fios não desapareceram. Continuaram ali, claros demais para serem confundidos com qualquer ilusão. As pessoas ao redor estavam tão quietas que ela conseguia ouvir o som das fogueiras e algumas respirações assustadas.

Ezra foi o primeiro a sair do lugar. Ele caminhou em direção a ela sem pressa, mas também sem hesitar.

Thyron veio logo depois.

Allaster acompanhou os dois.

Luara sentiu o pânico crescer.

Se a rejeição de Zyros havia provocado aquela dor, o sangue e a sensação de que seu coração estava sendo rasgado, o que aconteceria se três homens a rejeitassem agora?

Ela morreria?

A ideia surgiu com tanta força que suas pernas ameaçaram ceder outra vez quando ela se levantou. Luara recuou um passo. Depois outro. Até sentir uma mão firme em suas costas.

Sua mãe estava ali.

— Estou aqui — sussurrou a mulher.

Luara queria acreditar que aquilo bastava. Mas então olhou para os três homens se aproximando.

Alfas.

Não apenas homens importantes, mas três dos líderes mais respeitados entre as oito alcateias. Se Zyros havia sentido vergonha de uma ômega sem loba, por que aqueles três pensariam diferente?

— Por favor — disse Luara. Os homens pararam. A voz dela saiu quebrada. — Se forem fazer isso... não façam juntos.

Ezra franziu a testa.

— Fazer o quê?

Luara engoliu em seco. Seu olhar passou por ele, depois por Thyron e Allaster.

— Me rejeitar.

A expressão dos três mudou. A provocação natural desapareceu do rosto de Ezra. Thyron ficou ainda mais sério.

Allaster olhou para o sangue nos lábios dela e depois para Zyros, que ainda estava alguns metros atrás, tentando se recuperar da rejeição que Luara havia devolvido.

Foi Allaster quem entendeu primeiro.

— Você acha que estamos vindo até aqui para rejeitar você?

Luara desviou os olhos.

— Por que não fariam?

A pergunta fez alguma coisa passar pelo rosto dele. Tristeza, talvez. Ou raiva. Não dela. Daquilo que havia sido feito com ela.

— Luara — disse Thyron, com a voz baixa. — Olhe para nós.

Ela hesitou. Depois levantou os olhos. Thyron continuou:

— Você não precisa ter medo.

Ela soltou uma risada nervosa.

— Eu acabei de cuspir sangue porque um homem decidiu que eu não era boa o bastante para ele.

O silêncio ficou ainda mais pesado. Ezra olhou rapidamente para Zyros. Havia algo perigoso em seus olhos.

— Então ele é mais idiota do que parece.

Algumas pessoas ao redor prenderam a respiração. Zyros levantou a cabeça, mas Ezra nem sequer olhou novamente para ele. A atenção dos três estava em Luara.

Allaster deu o último passo que faltava. Depois fez algo que ninguém esperava. Ajoelhou-se. Luara arregalou os olhos. Um Alfa de joelhos. Diante dela.

Antes que conseguisse reagir, Thyron fez o mesmo. Ezra também. Um murmúrio atravessou a clareira. Centenas de pessoas assistiam.

Luara ficou completamente imóvel. Aquilo parecia errado. Não porque eles estivessem fazendo alguma coisa ruim.

Mas porque ela jamais havia visto homens como aqueles se ajoelharem diante de ninguém. Ela havia passado a vida abaixando a cabeça.

Passado a vida obedecendo ordens. Carregando bandejas. Lavando roupas. Sendo lembrada apenas quando alguém precisava que alguma coisa fosse feita.

Agora três Alfas estavam de joelhos diante dela.

Allaster ergueu o rosto.

— Eu aceito esse vínculo.

Luara sentiu o coração parar por um segundo. Thyron falou logo depois.

— Eu aceito esse vínculo.

Então Ezra. Ele não tirou os olhos dela.

— Eu aceito você, Luara.

Não o vínculo.

Ela.

Foi isso que destruiu o pouco de controle que ainda restava. As lágrimas começaram a cair. Luara levou a mão à boca, tentando impedir o choro, mas não conseguiu.

Não estava chorando porque três Alfas haviam escolhido ela. Estava chorando porque ninguém havia perguntado se possuía loba.

Ninguém havia perguntado se era ômega. Ninguém havia olhado ao redor para descobrir quem estava assistindo antes de decidir.

Eles apenas aceitaram.

Luara balançou a cabeça, emocionada.

— Vocês nem me conhecem.

Allaster respondeu:

— Então vamos conhecer.

Thyron completou:

— O vínculo não exige que saibamos tudo hoje.

Ezra sorriu de leve.

— E, sinceramente, prefiro descobrir aos poucos.

Luara soltou uma risada entre lágrimas. Sua mãe atrás dela também chorava. A avó, alguns passos mais distante, observava os três fios dourados com uma expressão que ninguém conseguiu perceber direito.

Talvez ela soubesse que aquilo significava mais do que todos imaginavam. Talvez tivesse medo. Ou talvez estivesse apenas entendendo que o selo de Luara não permaneceria intacto por muito mais tempo.

Foi então que Zyros finalmente se levantou. Seu rosto estava tomado pela raiva. Ele olhou para os três homens ajoelhados e depois para Luara.

— Isso é uma aberração!

A clareira ficou em silêncio outra vez. Luara sentiu o sorriso desaparecer. Zyros deu um passo.

— Três vínculos? Isso não existe! Ela nem sequer possui uma loba! Ela é um lixo ômega sem…

Allaster ficou de pé. O movimento foi lento. Mas a mudança no ambiente foi imediata. Seu rosto continuava controlado, porém seus olhos ficaram frios.

— Termine essa frase.

Zyros fechou os punhos. Por alguns segundos, os dois Alfas apenas se encararam. Mesmo os Betas próximos recuaram discretamente.

Allaster não precisou gritar. Sua ameaça estava exatamente na calma.

— Ela pertence à minha alcateia — disse Zyros.

Allaster inclinou a cabeça.

— Não foi isso que eu ouvi.

Zyros ficou tenso.

— Ela nasceu na Floresta da Névoa.

— E você acabou de rejeitá-la.

— Isso não muda a posição dela.

Thyron se levantou. Ezra fez o mesmo. Agora os três estavam lado a lado. Zyros apontou para Luara.

— Ela continua sendo uma ômega da Floresta da Névoa.

Allaster deu um passo à frente.

— E agora é minha Luna. — Parou por um instante. Olhou para Thyron. Depois para Ezra. — Nossa Luna.

Luara sentiu as lágrimas voltarem.

Allaster encarou Zyros outra vez.

— Portanto, se pretende continuar respirando, aprenda imediatamente a maneira correta de falar com ela.

Luara ficou sem reação. Ninguém jamais havia enfrentado Zyros por ela. Nem quando crianças zombavam por não ter loba. Nem quando alguns membros da alcateia colocavam trabalho extra em seus braços.

Nem quando Luana fazia comentários cruéis.

Naquela noite, três homens que mal a conheciam estavam dispostos a enfrentar o próprio Alfa de sua alcateia porque ele a havia humilhado.

Zyros parecia incapaz de aceitar. Seu olhar voltou para Luara. Havia raiva. Orgulho. E alguma coisa parecida com ciúmes. Talvez fosse apenas o efeito do vínculo recém-rompido. Talvez fosse o fato de três homens terem aceitado o que ele havia acabado de jogar fora.

Então, numa decisão tomada claramente pela fúria, Zyros virou o rosto e encontrou Luana. Ela estava alguns passos atrás. Ele foi até ela. Segurou seu braço e a puxou para perto.

— Muito bem.

Luana arregalou os olhos.

— Alfa?

Zyros olhou para Luara enquanto falava.

— Se é assim que a Deusa quer brincar, então eu também faço minha escolha.

Luara sentiu algo ruim no estômago. Zyros continuou:

— Luana será minha Luna.

O choque percorreu a clareira. Luana ficou imóvel por apenas um segundo. Depois um sorriso lento surgiu em seu rosto. Triunfante.

Ela olhou diretamente para a irmã. Como se finalmente tivesse vencido. Luara achou que aquilo deveria machucar. Talvez algumas horas antes tivesse destruído seu coração.

A irmã escolhida para ocupar exatamente o lugar que deveria ter sido dela. Mas, estranhamente, a dor não veio da mesma maneira.

Porque quando Luara desviou os olhos de Luana, encontrou três homens esperando por ela.

Ezra.

Thyron.

Allaster.

Nenhum deles parecia arrependido. Nenhum deles tentava esconder o fio dourado. Allaster se aproximou novamente. Estendeu a mão.

— Venha.

Luara olhou para a mão dele. Depois para sua mãe. A mulher chorava, mas assentiu.

— Vá.

Luara respirou fundo.

— Para onde?

Allaster manteve a mão estendida. Sua resposta saiu firme.

— Para um lugar onde ninguém voltará a fazer você acreditar que nasceu para ficar de cabeça baixa.

Aquilo atravessou Luara de uma forma que nenhuma declaração grandiosa conseguiria. Ela olhou mais uma vez para Zyros. Depois para Luana.

E percebeu que não queria mais ficar ali tentando convencer ninguém de seu valor. Então colocou sua mão sobre a de Allaster. No mesmo instante, algo aconteceu.

Muito fundo dentro dela. Além da dor. Além do medo. Além do selo que havia permanecido fechado desde seu nascimento.

Uma corrente de energia se moveu.

A avó arregalou os olhos do outro lado da clareira.

— Não...

A mãe virou para ela.

— O quê?

A mulher mais velha ficou pálida.

— Ela sentiu.

— Quem?

Mas a avó não respondeu.

Porque, dentro de Luara, num lugar onde existia apenas silêncio durante toda a sua vida, uma enorme figura começou a se mover.

Pelos brancos.

Força antiga.

Uma presença majestosa presa havia anos demais. Então dois enormes olhos brancos se abriram na escuridão.

Místic havia despertado.

Luara, porém, ainda não conseguia ouvi-la.

E caminhou para longe da Floresta da Névoa sem saber que, naquele instante, a mulher que todos acreditavam não possuir loba acabou de acordar algo capaz de colocar o mundo inteiro de joelhos.

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