Capítulo 3

Ponto de vista de Lisa

Arrastei meus pés pesados pelo chão até o único lugar onde eu encontrava paz e conforto. Minha vida tem sido cheia de tristeza, mas pelo menos eu não me sinto tão sozinha.

— Fiona — chamei com a voz fraca, batendo na porta dela antes de desabar no chão.

Fechei os olhos, esperando que ela abrisse. A porta rangeu ao se abrir alguns segundos depois, e ela espiou para fora.

— Lisa? — ela chamou, abrindo a porta completamente enquanto se abaixava até a minha altura.

— Eu me sinto vazia — murmurei para ela, em prantos, apoiando a cabeça no batente de ferro.

Ela enxugou minhas lágrimas com um pano, acariciando minha cabeça devagar.

— Vamos entrar — ela murmurou, ajudando-me a levantar enquanto me guiava para dentro.

— Você apanhou de chicote de novo? — ela perguntou baixinho, depois de me ajudar a me acomodar na cadeira.

— Você pode me dar um copo d'água, por favor? — pedi com a voz fraca, fechando os olhos.

Odeio ser vulnerável, mas não consigo continuar me fazendo de forte quando dói tanto. Deixei as lágrimas caírem livremente dos meus olhos.

— Aqui está — ela murmurou, entregando-me o copo d'água.

Engoli tudo de uma vez e, em seguida, dei a ela um pequeno sorriso.

— Obrigada — murmurei para ela, devagar.

Ela assentiu, sentando-se ao meu lado enquanto dava leves tapinhas em suas próprias coxas. Eu sabia que ela estava morrendo de vontade de fazer um monte de perguntas.

— Você não precisa deixar sua curiosidade tão óbvia — murmurei, apoiando a cabeça em seu ombro.

— Eu estou aqui morrendo de vontade de te desejar feliz aniversário e conhecer a sua loba, mas você está aí, emburrada como uma criancinha que teve o sorvete roubado — ela retrucou, empurrando minha cabeça do seu ombro.

Não pude deixar de sorrir com a sua simplicidade. Ela também é uma ômega como eu, mas não deixa que nada a abale ou diminua o seu valor.

— Eu encontrei o meu companheiro — deixei escapar.

Ela deu um gritinho de alegria, pulando sem parar e comemorando, enquanto eu apenas balançava a cabeça.

— É o Bryan Peters — murmurei.

Ela congelou; seu rosto ficou pálido instantaneamente enquanto se virava devagar para me encarar.

— Diz que é brincadeira? — ela perguntou, tentando se convencer de que eu estava apenas zoando como de costume, mas eu balancei a cabeça em negação.

Ela continuou ali, paralisada. Seus lábios não se moveram. Seus olhos nem sequer piscaram. Era como se o tempo tivesse parado só para mexer com a cabeça dela.

— Diz que é brincadeira? — ela sussurrou de novo, olhando para mim como se eu tivesse acabado de confessar que comi seu último pedaço de frango assado.

Balancei a cabeça devagar.

Ela recuou, como se a minha presença de repente fosse contagiosa.

— Bryan Peters? Tipo, o menino de ouro do Alfa, o príncipe bastardo, a miniatura do diabo?

— Infelizmente, sim — murmurei, afundando o rosto nas mãos.

Fiona colocou a mão no peito, como se tivesse levado um tiro.

— Você só pode estar de sacanagem comigo.

— Eu queria estar, mas aí, bum, do nada, a minha loba o reconheceu e disse a palavra — murmurei, puxando a ponta do cobertor dela para cobrir minhas pernas.

— Bum — ela repetiu, piscando rapidamente.

— Você parece que viu um fantasma — eu disse, revirando os olhos.

"Então você foi trancada e chicoteada porque era a companheira daquele pirralho mimado?" ela perguntou, apontando para as minhas mãos inchadas enquanto eu balançava a cabeça.

  "Eu roubei comida e meio que me rebelei contra o Alfa, o que me rendeu uma surra, mas sabe o que é estranho?" perguntei, lembrando das dores pelas quais passei.

  "O que foi?" ela perguntou, com a curiosidade aguçada.

  "Eu estava na cela quando comecei a sentir dor. Era como se meus ossos estivessem em chamas. Meu estômago revirou com tanta força que eu nem conseguia gritar. Achei que estava morrendo. Alivia ficou quieta. Completamente. Como se a conexão a tivesse fritado também." expliquei, tentando demonstrar e, ao mesmo tempo, apontar para o lugar onde senti as dores.

  Os olhos de Fiona se arregalaram, e ela recuou lentamente ao meu lado, depois estendeu a mão para acariciar meu braço como se eu fosse um gato de rua que tinha acabado de ser expulso do inferno.

  "Talvez seja porque eu acabei de conhecer minha loba," acrescentei, dando de ombros.

  "Isso não foi por você ter conhecido sua loba, Lisa. Foi por causa dele." Fiona murmurou, balançando a cabeça.

  Virei a cabeça para olhar para ela. "Dele? Como assim?" perguntei curiosa.

  Ela hesitou, mordendo o lábio inferior como se estivesse lutando consigo mesma. Então disparou: "Ele te traiu."

  Meu coração falhou. "O quê?"

  "Aquela dor? Aquela dor de revirar o estômago, de despedaçar o corpo e de fazer a loba recuar que você sentiu? É isso que acontece quando o seu companheiro trai o laço." Ela soltou o ar lentamente, como se dizer aquilo em voz alta a fizesse querer vomitar.

  "Se um companheiro recém-vinculado dorme com outra pessoa depois que o laço é formado, especialmente enquanto você está em um turbilhão emocional... A rejeição atinge em cheio. É como ser marcada pela metade e depois incendiada." ela acrescentou, acariciando minha mão lentamente.

  Minha boca se abriu. Depois se fechou. Depois se abriu de novo. "Então, enquanto eu estava naquele buraco infernal, provavelmente desmaiando de fome e dor... ele estava lá fora... transando com a Princesa Batata?"

  Fiona piscou. "A Irene?"

  "Sim. A batata amassada."

  Fiona apertou os lábios, assentindo.

  Tive uma ânsia. "Mas que porr-"

  "Ele fez isso para quebrar o laço," Fiona disse de repente, com a voz baixa. "É um truque. Alguns Alfas usam isso para rejeitar uma companheira sem dizer as palavras exatas de rejeição. Desse jeito, eles não sofrem toda a força do rebote."

  "Então... ele fodeu ela. E eu paguei o preço."

  Fiona assentiu, com uma expressão sombria.

  Fiquei em silêncio por alguns segundos, depois me virei para ela lentamente. "Você acha que a deusa da lua pode me desvincular?"

  "Não sei. Mas se você rezar com bastante fé, ela pode pelo menos dar uma disfunção erétil pra ele."

  Caí na gargalhada. Com dor. Tive que segurar minhas costelas para não desmoronar. "Você é terrível."

  "Vou tentar ser mais malvada," ela murmurou dramaticamente.

  Ficamos sentadas em silêncio por um momento, ambas repassando a loucura que tinha acabado de acontecer.

  De repente, Fiona se levantou num pulo. "Levanta."

  "Hã?"

  Ela me puxou pelo braço. "Eu disse levanta. Chega de choro, chega de lamentação. Aquele saco de lixo traidor não vai ficar com as suas lágrimas e o seu espírito despedaçado. Nós vamos sair."

  "Pra onde?"

  "Pra balada. Óbvio."

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo