Capítulo 2: Quando o passado se torna dúvida
Ponto de vista de Isabella
Os braços dele ainda estavam em volta de mim, apertando demais, a respiração áspera roçando no meu cabelo.
Quatorze anos.
Deixei aquilo ecoar na minha cabeça por exatamente três segundos antes de me afastar.
— Tá.
Apoiei as duas mãos no peito dele e coloquei um espaço entre nós.
— Tá. Ou você realmente acredita no que acabou de dizer, ou… — estreitei os olhos para ele. — Ou isso é você e o Alex aprontando alguma pegadinha insana.
Porque isso faria sentido. Quando tinha quatro anos, Alex convenceu a família inteira de que o apocalipse estava chegando e que a gente precisava se mudar para o porão.
Ele fez listas de suprimentos por cores. Richard embarcou nessa por dois dias antes de eu bater o pé.
— É isso? — recuei mais um passo e cruzei os braços. — Porque isso não tem graça, Ricky. Nem um pouco. Você me matou de susto e você…
Fiz um gesto para a mão dele.
— Você realmente se machucou. Por uma piada?
Ele não respondeu. Só me observou com aquela expressão indecifrável, os olhos acompanhando cada movimento meu como se eu pudesse desaparecer entre um piscar e outro.
Agarrei o pulso dele e o puxei em direção ao quarto.
— Vamos. Cadê o kit de primeiros socorros?
Ele foi atrás sem dizer nada.
Encontrei o kit na gaveta do criado-mudo e abri de supetão. O antisséptico ainda estava lacrado, as ataduras na embalagem original, tudo novo.
Graças a Deus.
Sentei na beirada da cama e puxei Richard para se sentar ao meu lado; então comecei a desembrulhar uma compressa de gaze.
— Fica parado.
Ele ficou parado.
Apertei a gaze embebida em antisséptico contra o pior dos cortes, e ele nem sequer piscou. Ergui o olhar para o rosto dele. Nada. Como se não sentisse.
Isso não é normal.
Olhei de novo para a mão dele. Olhei de verdade, dessa vez. Os cortes não eram superficiais — eram profundos, deliberados, do tipo que exige força de verdade para fazer.
Todo aquele vermelho se espalhando pela palma me lembrou, de repente e de um jeito horrível, da água no carro. O sangue do ferimento na cabeça de outra pessoa turvando a água ao meu redor, rodopiando escuro na enchente enquanto o carro afundava.
Engoli em seco e continuei enrolando a bandagem.
— Isso é dano demais — eu disse em voz baixa — pra uma piada.
Silêncio.
— Não é uma piada, é?
Nada, ainda.
Terminei de amarrar a atadura e me recostei.
Então eu olhei para ele — olhei de verdade, do jeito que eu não tinha me permitido desde que acordei — e reparei nas linhas nos cantos dos olhos dele.
Parecia tão autêntico, nada parecido com maquiagem.
Será que isso pode mesmo ser uma pegadinha?
— Me mostra o telefone. — Minha respiração começou a sair em arfares irregulares.
Ele enfiou a mão no bolso e estendeu o celular sem dizer palavra.
Eu peguei.
A tela de bloqueio estava clara, brilhante. A data lá no alto, simples como qualquer coisa.
Dezembro de 2025.
Levantei tão rápido que quase derrubei o kit da cama.
— Bella…
— Não me venha com “Bella”. — Agarrei o braço dele com as duas mãos. — Liga pro Alex. Agora. Eu preciso ver ele. Chamada de vídeo. Eu preciso ver o rosto dele de verdade.
A expressão de Richard fez alguma coisa complicada. Uma hesitação que eu não soube ler.
— O quê? — eu exigi. — Por que você tá fazendo essa cara? O que aconteceu com o meu filho?
— Não aconteceu nada com ele. — Ele pegou o celular devagar. — O Alex está bem. Está em Columbia. — Fez uma pausa. — Nosso relacionamento é… complicado.
— Liga pra ele.
Ele ligou.
Chamou quatro vezes. Cinco. Eu já estava calculando se dava pra atravessar a tela e sacudir meu filho até ele acordar quando a chamada conectou.
A tela ficou escura. Só uma voz, áspera de sono e completamente irritada.
— O quê.
Minha respiração travou.
Aquela voz.
Era mais grave do que eu lembrava. Mais funda, com um fio de dureza que eu não reconhecia.
Mas por baixo de tudo isso — por baixo da irritação e daquela rouquidão de quem acabou de acordar — havia algo na cadência que era completa, inconfundivelmente Alex.
Do mesmo jeito que ele costumava soar quando eu o acordava para ir à escola e ele não tinha dormido o suficiente. Aquele tipo específico de mau humor.
Meus olhos embaçaram.
Ruídos de tecido se mexendo. Um abajur foi aceso com um clique. A câmera inclinou e depois se estabilizou, e eu vi ele.
Ele não era mais o meu garotinho de cinco anos. Claro que não era.
Mas o mesmo maxilar, a mesma sobrancelha, os olhos do Richard, só que com alguma coisa minha nas bordas.
O cabelo estava escuro e bagunçado de sono, e ele estava grande agora, grande de verdade, largo nos ombros de um jeito que fazia ele parecer um estranho.
Mas era ele. Era ele, sem dúvida nenhuma.
—Alex.
Minha voz saiu destruída. Eu não me importei.
—Meu amor, sou eu. É a mamãe...
O rosto dele ficou imóvel.
Ele encarou a tela por um longo momento. Aí alguma coisa mudou na expressão dele — alguma coisa fria, afiada, furiosa — e ele já não estava olhando para mim. Estava olhando para o Richard.
—Você tá falando sério? — a voz dele baixou para alguma coisa perigosa. — Você me ligou às três da manhã pra me mostrar isso? Que porra é essa, hein?
Uma risada curta, feia.
—Você foi e arrumou um substituto. Você realmente fez isso. Você acha que isso tá tudo bem? Você acha que isso não é a coisa mais nojenta que você já fez na vida?
A tela ficou preta.
Eu fiquei ali com o celular na mão, encarando a tela escura, e não consegui me mexer.
Ontem. Ontem de manhã — o meu ontem, o único ontem que eu tinha — ele tinha me abraçado pelas pernas e dito “tchau, mamãe” quando eu saí de casa.
E agora ele tinha dezenove anos e tinha acabado de olhar através de mim como se eu não fosse nada.
O celular escorregou das minhas mãos.
—Ele não me conhece. — As palavras saíram sem cor, como se eu estivesse lendo de uma folha. — Ele não sabe quem eu sou. O meu próprio filho não...
O quarto girou.
Eu me sentei. Ou talvez eu tenha caído. Não tenho certeza.
A beirada da cama me segurou, e eu pressionei uma mão sobre a boca porque eu ia chorar e eu não queria, eu estava tão cansada de chorar.
Mas a imagem do rosto do Alex — o desprezo nele, a completa ausência de reconhecimento — ficava se repetindo sem parar e eu não conseguia fazer parar.
Isso é real. É real mesmo.
Quatorze anos. Eu tinha perdido quatorze anos inteiros com meu marido e meu filho.
O quarto girou de novo, mais forte desta vez.
A voz do Richard veio de algum lugar bem longe, dizendo meu nome.
Pensei, distante, que eu provavelmente deveria dizer alguma coisa, que havia coisas que eu precisava perguntar, coisas que eu precisava saber, coisas que eu precisava consertar...
Aí nada.
Ponto de vista de Alexander
Joguei o celular na parede no segundo em que a ligação terminou.
Depois peguei o abajur e joguei também, e o relógio, e todos os livros ao alcance da mão, até o chão ficar coberto de destroços e minhas mãos estarem tremendo e eu ficar sem mais nada para agarrar.
—Um substituto. — Minha voz mal era um som. — Ele realmente foi e arrumou um substituto.
Desabei encostado na parede e deixei o chão sustentar meu peso.
Minha mão direita encontrou meu pulso esquerdo por instinto, os dedos se fechando em torno da pulseira de metal.
A mamãe tinha feito para o meu quinto aniversário — arame trançado com o meu nome entrelaçado no desenho, do jeito cuidadoso e preciso dela.
Alex.
Ela tinha soletrado letra por letra enquanto eu ficava sentado na bancada da cozinha, olhando.
Tinha me explicado o que cada torção significava, e eu não tinha entendido quase nada, mas tinha entendido que ela tinha feito aquilo especialmente para mim.
Eu usava todos os dias desde então. Nunca tirei nem uma vez.
—Mãe. — Minha voz rachou bem no meio. — Eu sinto tanta saudade de você.
Encostei a nuca na parede e fechei os olhos.
—Quem quer que você seja — eu disse baixo, para a mulher no telefone, para a cidade, para ninguém. — Eu vou fazer você se arrepender.
Apertei a pulseira com mais força.
—Eu juro por Deus.
