Capítulo 3: Os quatorze anos
Ponto de vista de Richard
Harrison chegou às quatro da manhã.
Eu tinha ligado para ele no momento em que deitei Bella na cama.
Ele apareceu com a maleta médica, sem fazer perguntas, sem comentar o fato de eu tê-lo chamado no meio da noite por causa de uma mulher que ele nunca tinha visto antes.
Ele verificou o pulso dela, a pressão, a respiração. Eu fiquei do outro lado da cama e observei cada movimento que ele fazia.
— Ela está bem fisicamente — ele disse por fim, endireitando-se. — Sem sinais de lesão. Os sinais vitais estão estáveis. — Fez uma pausa. — Ela está exausta. Emocionalmente sobrecarregada. O corpo dela desligou para aguentar.
— Ela vai acordar.
— Sim. Provavelmente até o meio-dia. — Ele largou o estetoscópio e olhou para mim. Olhou de verdade, daquele jeito que ele tinha e que eu sempre achei irritante. — Sr. Winston. Quando foi a última vez que o senhor dormiu?
Eu não respondi.
— Eu digo dormir de verdade — ele disse. — Não duas horas no sofá. Não um sedativo às três da manhã. Sono de verdade.
Olhei para Bella.
Harrison suspirou. Era um suspiro muito ensaiado. Ele vinha aperfeiçoando aquilo havia anos, especificamente para usar na minha presença. — O senhor vai acabar se destruindo.
— Eu sei.
— Estou falando sério. O seu corpo tem limites, mesmo que o senhor se recuse a reconhecê-los.
— Eu sei.
Outro suspiro. Ele pegou a maleta. — Me ligue se alguma coisa mudar com ela.
— Vou ligar.
Ele foi embora.
Puxei a cadeira para o lado da cama e me sentei; peguei a mão de Bella e não soltei.
O quarto estava silencioso. A casa estava silenciosa. Lá fora, o céu ainda estava escuro.
Fiquei observando ela respirar.
Você está mesmo aqui. Você está respirando. Você é real.
Eu tinha parado de acreditar que isso era possível lá pelo quinto ano.
Não tinha parado de procurar. Eu só... tinha parado de acreditar.
Com a mão livre, puxei o celular e abri o sistema de segurança.
Quarenta e oito horas de gravação. Cada câmera da propriedade, cada ângulo, cada entrada. O portão. O perímetro. O acesso à praia. A garagem. Passei por tudo, quadro a quadro, procurando algo que eu tivesse deixado passar.
Não tinha nada.
Nenhum carro. Nenhum barco. Nenhuma figura se movendo no escuro. Nem uma única assinatura de calor que não devesse estar ali.
Ela simplesmente tinha aparecido.
Três vezes, pensei, encarando as imagens.
Três vezes em quatorze anos alguém tinha tentado usar o rosto de Bella contra mim.
A primeira eu peguei em menos de dez minutos.
A segunda chegou a passar por um teste de DNA antes de eu derrubá-la.
A terceira foi coisa da Margot, e aquilo custou caro para Margot.
Depois da terceira vez, parou. Ninguém mais tentou.
Então não era isso.
E as câmeras confirmavam que não era.
Ela estava aqui, e não havia explicação de como tinha chegado aqui, e fazia muito tempo que eu tinha deixado de ser um homem que precisava de explicações.
Fechei o aplicativo.
Abri a gaveta do criado-mudo — o meu lado, o lado esquerdo, o lado que eu mantive trancado por quatorze anos — e tirei a caixinha de veludo.
Eu a abri.
A aliança dela. Ainda sobre a almofadinha. Eu a tinha encontrado no local de resgate, enroscada nos destroços do acidente, e guardei porque era a única parte dela que eu tinha conseguido segurar.
Apertei a aliança entre as palmas.
Se isso for, de algum jeito, o golpe mais elaborado que eu já encontrei, pensei, eu não me importo. Eu realmente não me importo. Fique com o dinheiro. Fique com o que você quiser. Só...
Olhei para o rosto dela no travesseiro.
SÓ FICA.
Mas não era um golpe.
Eu sabia que não era um golpe.
A minha Bella tinha voltado para casa.
Guardei a aliança e me acomodei de novo na cadeira; segurei a mão dela e fiquei acordado.
Ponto de vista de Isabella
Eu voltei devagar.
Primeiro veio a luz. Depois, o calor. Depois, a mão de alguém envolvida na minha.
Abri os olhos.
Richard estava sentado na cadeira ao lado da cama, ainda com a roupa de ontem, com olheiras profundas cavadas sob os olhos e a quietude característica de alguém que está acordado há muito tempo.
Ele não dormiu.
O pensamento veio antes de qualquer outra coisa.
Antes das lembranças, antes dos catorze anos, antes do rosto de Alex naquela tela de celular — a primeira coisa que registrei foi que meu marido tinha passado a noite toda sentado, me vendo respirar, e ele estava com a aparência de quem fez exatamente isso.
— Oi — eu disse. Minha voz saiu áspera.
Ele ergueu os olhos imediatamente. O alívio no rosto dele era quase difícil de encarar.
— Bella. — Ele se inclinou para a frente. — Como você está se sentindo?
— Como alguém que desmaiou. — Eu me empurrei para ficar sentada, e ele ajudou sem que eu precisasse pedir, ajustando o travesseiro atrás de mim, a mão firme e cuidadosa. — Você não dormiu.
— Estou bem.
— Você está com uma aparência horrível.
— Estou bem — ele repetiu.
Fiquei olhando para ele por um longo momento. As linhas nos cantos dos olhos. Catorze anos de alguma coisa que eu não estive ali para ver, escritos por todo o rosto dele.
Eu quero ficar com raiva dele. Meu Deus, eu quero mesmo.
Ao pensar no que ele transformou nossos filhos, a raiva voltava na mesma hora, como uma onda.
Mas ele passou a noite inteira acordado, e parece que vai desabar a qualquer momento...
Ah, ótimo, pelo visto eu simplesmente não consigo descobrir como continuar furiosa com alguém com quem também estou preocupada, achando que vai desmaiar na minha frente.
Afastei isso. Havia coisas mais urgentes.
— Alex — eu disse.
A expressão de Richard fez aquele movimento cauteloso e controlado.
— Me conta — eu disse. — O que aconteceu com o meu filho? Por que ele está daquele jeito?
— É complicado.
— Descomplica.
Ele ficou em silêncio por um instante.
Então disse:
— No primeiro ano depois que você desapareceu, eu levei Alex comigo na busca.
Fez uma pausa.
— Mas ele ficou doente. Não aguentava a água, o balanço, ficar longe de casa. Depois de alguns meses, eu mandei ele de volta para cá.
Cinco anos de idade. Num barco de busca. Enjoado, confuso e procurando a mãe.
Pressionei a mão sobre a boca.
— Matthew e Olivia tinham dois anos — Richard continuou. — Eles foram para uma instituição. Eu contratei pessoas para cuidar deles.
— Uma instituição.
— Uma boa. Eles estavam...
— Eles tinham dois anos, Richard. — Minha voz saiu mais afiada do que eu pretendia. — Dois anos. Eles precisavam do pai.
Ele abaixou o olhar para as próprias mãos.
— A empresa começou a ter problemas no segundo ano — ele disse. — Eu tive que dividir meu tempo. Então pedi para a equipe compilar relatórios. Eu acompanhava a escola deles, a saúde, o...
— Você acompanhava eles. — Fiquei encarando-o. — Como se fossem um projeto.
— Eu sei.
— Eles perderam a mãe. — Minha voz falhou.
Mesmo assim, continuei.
— Eles perderam a mãe, e você... você estava bem ali, Ricky. Você estava bem ali, e eles perderam você também. Como você pôde...
Parei. Respirei fundo.
— Como você pôde fazer isso com eles?
— Eu sei — ele disse de novo. Baixo. Sem se defender. — Eu sei que falhei com eles.
Estendi a mão e belisquei a lateral da cintura dele, com força — a coisa que eu sempre fazia quando as palavras não bastavam, quando eu precisava que ele realmente sentisse o que eu estava dizendo.
Ele não se mexeu. Apenas suportou.
— Eu vou consertar isso — eu disse. — Nós vamos consertar isso. Começando agora.
— Começando agora — repeti.
Ele assentiu.
Eu já estava afastando o cobertor, já estava alcançando o chão, quando o som nos atingiu.
Um estrondo vindo de baixo. Alto.
Depois vozes — vozes dos empregados, urgentes e sobrepostas — e, acima delas, uma voz em particular, jovem, furiosa e completamente, inconfundivelmente familiar:
— Meu pai está lá em cima?
Meu coração parou.
Então voltou a bater, duas vezes mais rápido.
— É o Alex. — Eu já estava de pé. — É o Alex, ele está aqui, ele está...
— Bella, espera...
Eu já tinha saído pela porta.
