Capítulo 4: Alex
Ponto de vista de Isabella
Empurrei a porta do quarto e saí para o corredor, e lá estava ele.
Mais alto do que eu esperava. Mais largo. Em pé no topo da escada, com as costas retas e as mãos ao lado do corpo, e o olhar se fixando em mim ao som da porta—
—Alex—
Os olhos dele passaram por mim.
Foram direto para Richard.
—Como você pôde? —disse Alex. A voz dele estava baixa. Controlada. —Como você pôde trazê-la para aquele quarto?
—Alex... —tentei fazê-lo olhar para mim.
—Aquele era o quarto da mamãe! —Ele não levantou a voz. De algum modo, isso era pior.
—Você transformou aquilo em... e agora simplesmente... —Ele parou. O maxilar se contraiu. —Você faz ideia de como isso é nojento? Do que você está fazendo?
—Venha para o escritório —disse Richard. —Precisamos conversar sobre certos assuntos em particular.
Assim que a porta do escritório se fechou com um clique, o olhar de Alex pousou em Richard, com um desprezo indisfarçado brilhando em seus olhos.
—Diga em voz alta. Diga o que você está fazendo. Não me arraste para um cômodo, feche a porta e aja como se tivesse algo de que se envergonhar.
Estendi a mão, alcancei a cintura de Richard e belisquei.
Com força.
Ele soltou um som bem pequeno.
Alex ficou olhando.
—Ricky. —Minha voz saiu baixa e firme, o que era impressionante, considerando o quanto eu queria sacudi-lo. —O que você fez com o meu filho?
—Bella...
Belisquei com mais força. —O que foi que você fez com ele? Ele tem dezenove anos. Fala como... —Parei. Belisquei de novo. —Você o criou para ser assim? A culpa é sua.
—Sim —disse Richard, bem baixinho.
—Não venha só com um sim para cima de mim. Isso não basta. —Soltei a cintura dele. Minha mão estava tremendo.
Alex tinha ficado completamente imóvel.
Virei-me para encará-lo. Por completo, diretamente, do jeito que eu fazia quando ele era pequeno e eu precisava que ele soubesse que eu estava falando sério.
—Alex. —Minha voz se suavizou. —Você se lembra da pulseira?
A mão dele se moveu — involuntariamente, só um pouco — em direção ao pulso.
—Eu fiz para o seu quinto aniversário —eu disse. —O padrão levou três dias. Você vivia tentando ajudar e vivia derrubando o arame, e chorou na segunda vez porque achou que tinha estragado tudo, e eu te disse...
—Qualquer um poderia saber disso —disse ele. Sem emoção. Automático. Como se tivesse ensaiado.
—Talvez. —Sustentei o olhar dele.
—Você se lembra de julho? Quando você tinha quatro anos. Você estava bravo com o papai por ele tomar tempo demais de mim.
Uma pausa. —Você me disse que ia me levar, aos gêmeos também, e ir embora. Que ia ganhar dinheiro e cuidar de todos nós.
Algo se moveu no rosto dele. Só por um segundo.
—Você estava com a minha saia fechada no punho —eu disse. —Eu estava com os bebês nos braços. Nós estávamos mesmo indo em direção à porta.
Deixei aquilo assentar. —Seu pai chegou cedo em casa. Quase nos pegou. Eu disse a ele que só íamos dar uma volta.
Alex ficou me encarando.
Eu o observei respirar.
Por favor, pensei. Por favor, meu amor. Eu sei que isso é impossível. Eu sei que não faz sentido. Mas eu estou bem aqui.
—Isso não é... —ele começou.
— Eu sei — eu disse. — Eu sei que não é suficiente. — Ergui a mão e puxei um único fio de cabelo, soltando-o, e estendi para ele. — Então pegue isto. Encontre um laboratório em que você confie. Não conte ao seu pai, não conte a ninguém. Pegue o resultado e, então, decida.
Ele olhou para o fio de cabelo na minha mão.
Ele olhou para o meu rosto.
— Eu vou estar aqui — eu disse. — Não vou a lugar nenhum.
A mão dele tremia quando ele estendeu a dele e pegou.
Ele não disse nada. Apenas se virou e foi embora, descendo as escadas, até desaparecer de vista.
Fiquei ouvindo os passos dele até não conseguir mais escutá-los.
Então me virei de volta para Richard.
— Sente-se — eu disse.
— Bella—
— Sente. Agora.
Ele se sentou.
Puxei a cadeira da escrivaninha e me sentei diante dele, e encarei meu marido.
— Você escolheu procurar uma mulher morta — eu disse — em vez de criar seus filhos vivos.
— Sim.
— Você escolheu isso.
— Sim. — A voz dele mal saiu. — Eu sei o que eu fiz.
— Sabe mesmo? — Levantei. Eu já não conseguia ficar sentada. — Você realmente entende o que isso significa? O que você tirou deles?
— Desculpa.
— Pare de pedir desculpas e pense nisso. — Pressionei as mãos espalmadas sobre a mesa e me inclinei na direção dele.
— O Alex está com raiva de tudo. Está com raiva de você, está com raiva de mim, está com raiva do mundo. Isso não é só luto. Isso é uma criança que cresceu sem ninguém para mostrar como lidar com isso.
Parei. Respirei.
— E a Olivia e o Matthew? — perguntei. — Me fale deles.
Richard abriu a boca. Fechou. Abriu de novo.
— Isso... — Ele soltou o ar, esfregando a nuca. — Isso é... uma história longa.
— Claro que é. — Fitei-o. — Richard.
— Bella—
— Não venha com “Bella”. Só fale.
Ele tentou. Tentou de verdade.
Mas cada frase saía truncada, hesitante, e eu via no rosto dele — a culpa, o não saber por onde começar, os anos de distância que ele não sabia como comprimir em palavras.
Ele conseguiu apenas pedaços. Impressões. Meias explicações que morriam no meio e viravam silêncio.
Foi o suficiente para eu entender que a situação era ruim.
Ergui a mão e o interrompi no meio da frase.
— Para.
Ele parou.
Afastei-me da mesa e me levantei.
— Eu quero tudo. Boletins, registros escolares, fotos — o que quer que a equipe tenha arquivado. Prontuários médicos, se houver. Eu quero ver tudo.
Ele piscou.
— Agora?
Olhei para ele.
— Sim, agora. Vá buscar.
Ele foi.
Demorou vinte minutos.
Ele voltou com dois funcionários carregando pastas de verdade.
Colocou tudo sobre a mesa, numa pilha mais alta do que eu esperava.
Olhei para a pilha. Depois olhei para ele.
— Obrigada — eu disse. — Agora saia.
— Bella—
— É sério. — Puxei a primeira pasta para perto de mim. — Eu preciso de silêncio para passar por tudo isso.
Ele hesitou na porta, e eu senti que ele queria dizer alguma coisa — queria ficar.
— Vai — eu disse, sem levantar os olhos.
Ele foi.
Ouvi o clique da porta se fechando atrás dele. Abri a primeira pasta e comecei a ler.
Bom, esta vai ser uma longa noite.
