Capítulo 5: Oitocentos mil
POV da Isabella
Acordei com o rosto grudado em alguma coisa.
Papel. Uma pasta. Um dos boletins escolares do Matthew — aquele sobre um prêmio de arte que ele tinha ganhado dois anos atrás e que ninguém tinha se dado ao trabalho de ir assistir.
O arquivo escorregou da borda da mesa e acertou o chão com um estalo que me fez despertar de vez.
Não sei quando eu peguei no sono.
Uma luz cinzenta entrava devagar pelas janelas. Cedo. Talvez seis.
Esfreguei o pescoço — duro pra caramba — e me empurrei para longe da mesa. Meus olhos pareciam inchados. Tudo doía.
Cambaleei até a porta e abri, já pensando em café, em lavar o rosto, em—
Quase tropecei no Richard.
Ele estava sentado no chão. As costas apoiadas na parede do corredor, as pernas esticadas, o paletó dobrado no colo como um cobertor.
A gravata estava frouxa em volta do pescoço, e os olhos, vermelhos de cansaço, mas no segundo em que a porta abriu eles se cravaram em mim, afiados e atentos.
— Você dormiu aqui fora. — Não era uma pergunta.
— Você mandou eu sair do quarto. — A voz dele estava áspera. — Não disse que eu tinha que sair do corredor.
Eu encarei.
Esse homem.
Me agachei e dei um peteleco na testa dele. Forte.
— Ai—
— Você é impossível. — Agarrei o braço dele e puxei para que se levantasse.
Ele veio sem resistir, e eu o empurrei em direção ao quarto. — Banheiro. Agora. Você está com cara de quem mora num lixo.
Ele não discutiu.
Sentei no banquinho ao lado da porta do banheiro com uma caneca de café e observei enquanto ele se barbeava.
— Quando foi a última vez que você falou com a Olivia? — perguntei.
Ele parou no meio do movimento, os olhos indo até mim pelo espelho. — Na terça passada.
— Sobre o quê?
— Ela precisava de dinheiro.
Tomei um gole de café. — E você deu.
— Eu sempre dou.
— Claro que dá. Mas se você ousar tentar isso de novo… — deixei a caneca na pia, e o tilintar da cerâmica no azulejo soou mais alto do que devia. — E o Matthew?
— Ele manda e-mail quando precisa de material de arte.
Eu pressionei a língua contra os dentes. Contei até três. — Onde eles estão agora?
— A Olivia está em Paris. Programa de intercâmbio. Era para ela voltar de avião na próxima terça. — Ele deixou a lâmina e pegou uma toalha.
— O Matthew está em Connecticut. Um clube de arte. Ele volta no domingo à noite.
Respirei fundo.
Peguei a mão dele — a que eu tinha enfaixado na noite anterior — e o puxei para fora do banheiro.
Tínhamos acabado de sair quando bateram à porta do quarto.
— Entre — Richard chamou.
A porta se abriu.
Um homem entrou — mais velho, talvez no fim dos cinquenta, postura impecável.
Parecia um mordomo, mas eu não o reconheci.
Deve ter sido contratado em algum momento nesses últimos quatorze anos.
— Senhor. A senhorita Olivia está ligando. — Ele estendeu o tablet. — Ela parece… urgente.
Richard pegou. Olhou para mim.
Eu assenti.
Ele atendeu.
A tela acendeu, e lá estava ela.
Olivia.
Minha menina.
Só que ela não era mais uma menina. Tinha dezesseis anos. Cabelo castanho como o meu — olhos grandes, um rosto todo anguloso e com aquele biquinho.
Ela nem disse oi.
— Papai, eu preciso que você aumente o limite de transferência do Jason. Tipo, hoje. Oitocentos mil. Pra minha conta dos EUA.
Só pode estar de sacanagem. Oitocentos mil? Ela tá falando sério?
Ela disse rápido. Casual. Como se estivesse pedindo para ele comprar leite.
E já estava mexendo para desligar.
Eu lancei para ele um olhar gelado.
— Olivia. — Richard entendeu o recado. — Pra quê?
Ela piscou. — O quê?
— O dinheiro. Pra que você precisa disso?
Eu observei o rosto dela. Observei o lampejo de surpresa, o cálculo rápido por trás dos olhos.
— Compras — ela disse, macia. — Tem uma coisa da Chanel essa semana e, se eu não agir rápido—
Inclinei a cabeça.
Ela estava mentindo.
Richard sentiu que eu me mexi ao lado dele. A voz dele ficou gelada.
— Olivia. Não.
Silêncio do outro lado.
Então:
— É pelo Ethan. — A voz dela baixou. Defensiva. — O pai dele tá devendo dinheiro pras pessoas, tá? Tá ficando feio. Eu só quero ajudar ele.
— Ele é seu namorado?
— Não. — Rápido. Rápido demais. — Ele nem sabe que eu tô fazendo isso. É uma decisão minha.
O rosto de Richard não se mexeu.
— Pedido negado.
Ele encerrou a chamada.
A tela ficou preta.
Eu peguei o tablet da mão dele e coloquei no criado-mudo.
— Sabe por que ela nem se deu ao trabalho de inventar uma desculpa melhor? — eu disse. Minha voz estava calma. Plana. — Porque ela nunca precisou. Você nunca pergunta. Ela só diz “eu preciso de dinheiro” e você entrega.
Ele não respondeu.
— Ela acha que dinheiro é ar. Que é só... lá. Sempre. Sem perguntas, sem limite, sem consequência. — Virei para encará-lo de frente. — Isso não é criar ela, Ricky. Isso é desistir.
— Bella, mas você disse que gastaria uma fortuna com a nossa filha.
Eu dei uma cotovelada forte nas costelas dele.
— Eu quis dizer gastar dinheiro pra criar ela e transformar numa menina espiritualmente plena.
Fechei os olhos. Respirei.
— Esquece, vou te ignorar. Eu preciso me recompor e ficar no meu melhor como mãe.
Mais tarde, ao meio-dia, eu estava na cozinha — tentando entender a máquina de espresso, que era muito mais complicada do que precisava ser.
Owen — o mordomo que tinha vindo nos avisar da ligação da nossa filha — recebeu uma ligação no celular, e eu ouvi quando ele atendeu.
— Srta. Caldwell. — A voz dele estava perfeitamente educada. Perfeitamente neutra. — Há algo em que eu possa ajudá-la?
Uma pausa.
— Receio não estar autorizado a discutir assuntos particulares da casa. Se a senhora precisa falar com o Sr. Winston, sugiro que entre em contato diretamente com o escritório dele.
Outra pausa. Mais curta.
— Claro. Tenha um ótimo dia.
Ele desligou. Enfiou o celular de volta no bolso.
Ergui os olhos da máquina de espresso.
— Quem é Caldwell?
— Margot Caldwell, prima do Sr. Winston. — A expressão de Owen não mudou. — Ela tem... se envolvido com as crianças ao longo dos anos.
Havia algo no jeito como ele disse envolvido que fez meu estômago apertar.
— Envolvido como?
— Ela costumava vir para fazer companhia à Srta. Olivia e ao jovem senhor Matthew quando o Sr. Winston estava fora. — Ele fez uma pausa. — Ela continuou perguntando se o Sr. Winston já tinha voltado, ansiosa para atualizá-lo sobre as crianças.
Eu aposto que estava.
Ela pode ter ficado sabendo que havia uma nova mulher na propriedade.
Porque, na manhã seguinte, Margot apareceu.
Ouvi vozes lá embaixo, enfiei um dos moletons velhos da Columbia do Richard e fui ver que diabos estava acontecendo.
Ela estava de pé no hall de entrada. Tailleur da Chanel, cabelo perfeitamente arrumado, segurando uma sacola de presente como se fosse um passaporte.
— Eu trouxe isso pro Matthew — ela estava dizendo. — Eu sei que ele volta no domingo, então achei que podia deixar antes—
Ela levantou os olhos.
Me viu.
O sorriso dela congelou.
Eu desci as escadas devagar. Descalça. Cabelo preso num rabo de cavalo bagunçado. Máscara facial ainda no rosto porque eu estava no meio da minha rotina matinal.
Eu parecia ter acabado de sair da cama.
Os olhos dela foram do meu rosto ao meu corpo, até o moletom enorme que claramente pertencia a um homem, e o aperto dela na sacola de presente aumentou até os nós dos dedos ficarem brancos.
Eu sorri.
— Ah. Temos visita.
Olhei para Owen.
— O Ricky ainda está dormindo?
— Acredito que sim, senhora.
— Ótimo. Deixe ele descansar. Ele tem trabalhado demais. — Voltei para Margot, ainda sorrindo. — Eu sou a Isabella. Você deve ser a Srta. Caldwell. O Owen comentou sobre você.
O rosto de Margot passou por umas cinco cores diferentes.
Ela abriu a boca. Fechou. Abriu de novo.
Não saiu nada.
Eu continuei sorrindo.
Owen, atrás dela, não se mexeu. Nem piscou.
Mas eu juro que vi o canto da boca dele dar uma tremida.
