Capítulo 6: Seu primo
Ponto de vista de Isabella
Margot se recuperou mais rápido do que eu esperava.
Ela piscou duas vezes, recompôs a expressão para algo que provavelmente queria parecer sereno, e então se virou para Owen como se eu não tivesse acabado de me apresentar. "Com licença—quem, exatamente, é essa mulher?"
O rosto de Owen permaneceu perfeitamente neutro. "Isso seria um assunto particular do Sr. Winston, Srta. Caldwell."
Vi o lampejo de irritação atravessar o rosto dela.
"Srta. Caldwell", mantive a voz leve, inclinando a cabeça como se estivesse genuinamente confusa. "Posso te chamar de Margot? Você está incrível, aliás. Você é a mãe do Richard? Você é tão elegante que eu não tinha certeza—"
"A mãe dele." As palavras saíram como se eu a tivesse mordido. "Eu sou prima dele. Margot Caldwell."
"Ah!" Levei a mão ao peito. "Prima dele. Claro. Me desculpe, eu só... você parecia tão à vontade aqui que eu presum—" Deixei a frase no ar e observei seu maxilar se contrair.
Os olhos dela prenderam na minha gola.
Eu vinha ajustando distraidamente quando desci, e nem pensei duas vezes nisso — mas as marcas arroxeadas do aperto de Richard, de duas noites atrás, já tinham desbotado para uma mancha amarelada na base da minha garganta.
Nada dramático. Só visível o bastante para que, quando o olhar de Margot captou aquilo, alguma coisa mudasse por trás dos olhos dela.
Seu rosto empalideceu de um jeito muito específico.
"Você e Richard..." Ela parou. Tentou de novo. "Qual é a sua relação com ele?"
Sorri. "Eu moro aqui."
"Não foi isso que eu perguntei."
"Ele tem sido muito bom para mim." Eu disse aquilo de forma simples, calorosa, do jeito que se fala de alguém em quem se confia completamente.
Ela não esperava por essa.
Ela ficou me olhando com ciúme, enquanto eu mantinha os olhos nele e sorria.
"Faço parte desta família há catorze anos", ela disse por fim.
O calor na voz dela tinha secado por completo. "Ajudei a criar aquelas crianças quando o pai delas estava... ocupado. Acho que isso me dá uma certa posição aqui que talvez você não compreenda totalmente."
"Oh, com certeza." Assenti. "Parece exaustivo, sinceramente. Especialmente sendo uma..." Virei-me para Owen. "Qual é exatamente o parentesco mesmo? Do lado da mãe do Richard?"
A expressão de Owen não mudou. "A Srta. Caldwell vem do ramo materno, senhora. Uma ligação bem distante."
"Ah." Voltei-me para Margot com a expressão mais simpática que consegui fabricar.
"Então você veio de tão longe, por todos esses anos, por crianças que nem são realmente da sua família, pela bondade do seu coração."
Fiz uma pausa. "Richard a compensou pelo seu tempo? Parece o mínimo justo."
A cor que inundou o rosto dela ficou em algum ponto entre fúria e humilhação.
"Eu não preciso ser compensada", ela disse, destacando cada palavra com precisão. "Fiz isso porque me importo com esta família."
"Claro que se importa." Mantive a voz suave. "Você é uma hóspede muito dedicada."
Ela pousou a sacola de presente sobre o aparador com um estalo seco. "Deixe-me ser direta com você. Não sei que joguinho você está fazendo, mas já vi mulheres como você tentarem cravar as garras no Richard antes."
"Não funciona! No fim, ele enxerga através disso, e, quando enxergar, eu mesma vou garantir que você saia sem nada. Então eu sugiro que arrume suas coisas e atravesse aquela porta antes que isso fique desagradável."
Deixei que ela terminasse. Deixei o silêncio pairar por exatos três segundos.
"Hum." Lancei outro olhar para Owen. "Owen, ela alguma vez chegou a receber uma chave desta casa?"
"Não, senhora."
"Ela alguma vez foi listada como contato de emergência das crianças?"
"Não, senhora."
"Ela alguma vez teve algum papel formal aqui — legal, financeiro, qualquer coisa documentada?"
A pausa de Owen foi mínima e muito deliberada. "Não, senhora."
Voltei a olhar para Margot. "Catorze anos", eu disse. "E você ainda é uma visitante."
Ela ficou rígida.
“Você disse que esta casa não é para qualquer um.” Dei um passo na direção dela, sem agressividade, apenas firme. “Você tem razão. Não é.”
Antes que ela pudesse responder, passos desceram as escadas.
Margot ouviu e se virou depressa, o corpo inteiro mudando de postura — ombros para trás, queixo erguido, a atuação ligando como uma luz.
Quando Richard chegou ao último degrau, ela já estava com um sorriso preocupado pronto e tudo.
“Richard, graças a Deus.” Ela deu um passo à frente. “Vim deixar algumas coisas para o Matthew e eu... eu acho que precisamos conversar. Tem uma mulher na sua casa, e as crianças vão chegar logo, e eu estou preocupada que...”
“Owen.” A voz de Richard foi plana. Ele veio até onde eu estava e pousou a mão no meu ombro, sem pressa, como se fosse a coisa mais natural do mundo. “Conduza a Sra. Caldwell para fora.”
Margot piscou. “Eu... o quê? Richard, eu estou tentando te dizer...”
“Eu ouvi.”
Ela soltou uma risadinha curta, incrédula. “Você só pode estar brincando.”
“Ricky.” Virei para ele, deixando minha voz ficar suave, só um pouco magoada. “Ela me disse que eu não pertencia a este lugar. Que eu devia ir embora antes que as coisas ficassem desagradáveis.”
A expressão de Richard não mudou. Mas alguma coisa nos olhos dele, sim.
Ele olhou para Margot, e a temperatura na sala caiu uns dez graus. “A partir de agora, é a Isabella quem decide quem entra nesta casa e quem não entra. Isso inclui você.”
Ele olhou para Owen. “Por favor, acompanhe-a até a saída. Se ela voltar sem convite, chame a segurança.”
Owen se aproximou de Margot com a eficiência treinada e cortês de alguém que já tinha retirado convidados difíceis antes. “Sra. Caldwell. Por aqui, por favor.”
Margot não se mexeu por três segundos inteiros.
Ela estava me encarando — não o Richard, a mim — e a expressão no rosto dela já tinha passado da raiva para algo mais cru. Algo que parecia quase medo.
Então Owen tocou o cotovelo dela, gentil, mas firme, e ela foi.
O hall de entrada ficou silencioso.
Virei para Richard. “Quantas mulheres tentaram fisgar você?”
Ele teve a decência de parecer um pouco desconfortável. “Bella...”
“Porque ela disse que já tinha feito isso antes. Que ficou assistindo mulheres tentando. O que significa que ela ficou montando guarda em você como algum tipo de... autoproclamada—”
Eu parei. Respirei. “Você deixou ela fazer isso. Você deixou ela entrar e sair desta casa por quatorze anos, perto dos meus filhos, e nem uma vez sequer pensou em perguntar o que ela estava realmente fazendo aqui?”
“Eu achei que ela se importava com eles.”
“Ela estava usando eles.” Mantive a voz baixa, controlada. “Ela estava usando as suas crianças para ficar perto de você, Ricky. Isso não é cuidado. Isso é estratégia.”
“Eu...”
“Eu sei que você sabe. Eu preciso que você realmente sinta o quão ruim foi.” Dei um toque com o dedo no peito dele, uma vez, sem força, só o suficiente.
“Ela teve acesso ao Matthew e à Olivia por quatorze anos. O que quer que eles pensem sobre si mesmos, sobre esta família, sobre serem amados — uma parte disso veio dela. Você entende isso?”
Ele me olhou, e eu vi que ele estava de fato processando, não apenas absorvendo as palavras, mas ficando com o peso delas.
“Sim”, ele disse. “Eu entendo.”
Soltei o ar.
“Ótimo.” Virei em direção ao corredor. “Agora vem comigo. Precisamos descobrir o que vamos fazer antes de a Olivia chegar em casa na terça-feira, porque eu não vou entrar naquela conversa sem um plano.”
Estávamos na metade do caminho para o escritório quando o telefone no aparador do corredor tocou.
Richard lançou um olhar para o visor. Alguma coisa atravessou o rosto dele.
“É o Alex?”, perguntei.
“Sim.”
Eu fiz um gesto com a cabeça para o telefone.
Ele atendeu. “Alex.”
O silêncio do outro lado durou uns dois segundos.
Então a voz do meu filho veio, seca e fria e totalmente controlada. “Põe ela na linha.”
Richard ficou imóvel. “O quê?”
“A mulher.” Uma pausa, e a palavra.
“Põe ela no telefone. Eu tenho uma coisa para dizer a ela.”
