Capítulo 6: Originalmente é meu, como é roubar?

Um suspiro profundo escapou de Hayden enquanto ele esfregava as têmporas.

Tinha sido ideia de Olivia manter a identidade de Isabella em segredo, tudo por causa de Bianca. Hayden concordara, sem ver mal nenhum naquilo na época. Ele tinha presumido que Isabella estivesse bem com o arranjo. Por que a mudança repentina de atitude?

“Só se for nos seus sonhos”, retrucou Olivia, o rosto se contraindo. “Isabella, você faz alguma ideia do que é preciso pra ser uma socialite? Olha essa maquiagem. Você vai assustar os convidados.”

Isabella passou de leve a mão na própria bochecha, sem se abalar. “Isso é detalhe. Meu rosto fica ótimo sem maquiagem.”

“Quanta vaidade”, soltou Olivia, aspirando o ar com força. “Isabella, me escuta. Você é minha filha, mas a família Taylor só pode ter uma filha reconhecida. Se a gente anunciar quem você é, o que acontece com a Bianca? Ela já ficou arrasada o bastante quando soube que não era nossa filha biológica. Tornar isso público ia destruí-la. Ela ia se sentir completamente abandonada.”

Olivia concluiu com uma ordem firme: “Então seja boazinha e não dispute nada com a Bianca.”

Bianca, em pé ali perto, relaxou visivelmente. Por um instante, tinha ficado apavorada.

Gabriel lançou um olhar feroz para Isabella, o nojo estampado no rosto. “É só isso que você sabe fazer? Tomar? Você consegue sequer dar conta do que está pedindo?”

Isabella sustentou o olhar hostil dele, levantando ligeiramente o queixo. “Como é que é ‘tomar’ se era meu desde o começo?”, retrucou, gelada. “Você diz que me queria de volta, mas espera que eu só aceite tudo calada e ceda em tudo? Que sentido isso faz? Se vocês não me querem de verdade aqui, é só me mandar de volta pra montanha. Não é como se eu estivesse ganhando alguma coisa ficando.”

Hayden franziu a testa. Em que momento a filha tímida tinha ficado tão afiada na língua?

“O que você quer, Isabella?”, perguntou ele, a voz pesada de cansaço. As palavras dela, embora desafiadoras, tinham um fundo de verdade. Ela era sua filha biológica, uma garota que tinha sido trazida lá das montanhas. Era compreensível que ficasse chateada se sentisse que não recebia nada em troca.

Isabella pensou por um instante, então um pequeno sorriso calculado surgiu em seus lábios. “Eu quero o quarto da Bianca.”

Ela acrescentou, fazendo biquinho: “O quarto que você me deu é pequeno demais. Eu não gosto.”

“De jeito nenhum!” A recusa de Olivia foi imediata. “Esta casa tem dezenas de quartos. Por que tem que ser justamente o da Bianca?”

Recostada casualmente no batente da porta, Isabella respondeu: “Porque é amplo e bem iluminado. Eu gosto.”

“Que absurdo!”, explodiu Gabriel. “É claro que o quarto dela é amplo e bem iluminado! Isso não faz dele seu!” Ele jamais deixaria que ela ficasse com o quarto de Bianca.

Os olhos de Olivia se estreitaram. “Você pode escolher qualquer quarto que quiser. Menos aquele.”

A Villa dos Taylor tinha quartos de sobra, mas, quando Isabella chegou pela primeira vez, as lágrimas dramáticas de Bianca despertaram uma profunda mágoa em Olivia. De propósito, Olivia deu a Isabella o menor e mais afastado quarto da casa. Isabella parecia tão dócil e obediente naquela época, aceitando o arranjo sem dizer uma palavra. Olivia ainda se justificava: para uma garota vinda da serra, até aquele quartinho era uma melhora.

Mas, ao que parecia, Isabella tinha criado coragem.

— Não — disse Isabella, a testa franzida em uma determinação inabalável. — Eu quero o quarto da Bianca.

— Você tá falando sério? — gritou Gabriel. — Aquele é o quarto da Bianca. Por que ela teria que te dar ele?

— O quê? — Isabella riu, um som seco, sem nenhum traço de humor. — Como assim, “é da Bianca”? Aquele quarto não foi preparado originalmente pra mim?

— Preparado pra você? — Gabriel zombou. — Quem você pensa que é? Aquele quarto foi decorado pra Bianca!

Isabella o ignorou e voltou o olhar para Hayden.

— Pai, quando foi que aquele quarto foi decorado?

Hayden tentou se lembrar.

— Foi na época em que sua mãe tava grávida, eu acho. — O piso, a cor das paredes — tudo tinha sido pensado para uma menina.

— Então — disse Isabella, a voz carregada de indignação —, quando eu ainda tava na barriga da mamãe, vocês prepararam aquele quarto pra mim. Ou seja, a Bianca tá ocupando o meu quarto. Ela pegou o que é meu!

Hayden ficou sem palavras. Isabella tinha falado mais nesses últimos cinco minutos do que no mês inteiro desde que chegara, e ele não conseguia achar uma falha sequer na lógica dela. Eles tinham preparado aquele quarto para a filha que esperavam.

Isabella então encarou Bianca.

— Eu não me importei de você ficar com ele emprestado enquanto eu tava longe. Mas eu voltei. Tá na hora de devolver.

O tom confiante fez Bianca se sentir como uma ladra encurralada. O rosto dela empalideceu. Como Isabella podia dizer que ela só estava “emprestando” o quarto?

Mordendo o lábio, lágrimas brotaram imediatamente em seus olhos.

— A Isabella tem razão — sussurrou, num tom trágico. — Eu não sou a filha de verdade deles. Agora que ela voltou, eu tenho que devolver tudo pra ela… Eu não pertenço a este lugar…

Isabella lhe lançou um olhar frio.

— Pelo menos você tem consciência disso, ladra.

Bianca ficou paralisada, encarando-a sem acreditar, antes que o choro explodisse ainda mais forte. O insulto tinha sido tão direto, tão cruel. Ela se sentiu completamente injustiçada.

Enquanto o choro desesperado de Bianca enchia o ambiente, um leve sorriso de canto surgiu nos lábios de Isabella.

— Bianca, você não pode ter as duas coisas. O título de Senhorita Taylor ou o meu quarto. Escolhe. Se você faz questão de ficar com o meu quarto, então me devolve o meu título.

Bianca ficou rígida, o rosto coberto de lágrimas voltando-se, suplicante, para Hayden.

— Pai!

Hayden esfregou as têmporas de novo, sentindo a pressão crescer por trás dos olhos.

— Bianca, muda suas coisas amanhã. O quarto fica com a Isabella.

Gabriel explodiu.

— Pai! Por que a Bianca tem que abrir mão do quarto dela?

— E qual é a sua alternativa? — rebateu Hayden, já sem paciência. — Você quer que a sua irmã volte pra serra? Ela deixou bem claro o que quer. Eu não posso dar o título pra ela, mas um quarto eu posso, sim, dar.

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